
Por mais incomparáveis que sejam, a rádio Saara dá de mil no boletim radiofônico da Price Waterhouse Coopers. E eu provo!
Vou ousar comparar alhos com bugalhos neste texto. Espero que vocês compreendam o que eu quero dizer. Pra começar, já aviso que entendo perfeitamente que são duas realidades diferentes, de mundos diferentes, enfim, comunicações diferentes pensadas, feitas e executadas para públicos absurdamente diferentes. Mas ainda assim, se compararmos cada uma delas dentro de seu mundinho, veremos que uma é infinitamente mais eficaz que a outra.
Sim, crianças. Eu vou comparar o boletim de rádio da Price Waterhouse Coopers com a Rádio Saara, do Rio de Janeiro. O primeiro fala com a classe AAAAAAAA (insira quantos As você quiser aí). A segunda, com as classes C, D, E, F (…), W, X, Y e Z. Mas no quesito “vamos vender o peixe”, a banquinha da Saara é bem melhor, viu?
Explico: ouço toda manhã o ” Boletim Price Waterhouse Coopers” na Rádio Bandnews FM (na verdade, eu quero é ouvir o José Simão, mas o boletim da PWC é marromeno junto). É, junto com o jingle da Santil (Vamos cantar o jingle da Santil? é assim: ***-***, material elétrico é na Santil!”, repetido ad nauseum. Os asteriscos referem-se ao número do telefone dessa loja que eu ME RECUSO A FORNECEEEERRRRR!!!! AAAAAAAAAAHHHHHHHHH!!!), as duas coisas que muito me irritam na programação da rádio. Mas como isso é culpa do departamento comercial deles, e não do jornalismo, relevo.
O boletim PWC é um conjunto diário de erros que não compensam seu conteúdo. É um texto que, muitas vezes, não deveria nem ser lido com os olhos, quanto mais escutado. Ele é narrado por um conssultô que, invariavelmente, não tem voz para fazer locução, muito menos dicção para falar um texto no rádio.
Infelizmente, não tenho exemplos desses áudios disponíveis web afora. Mas o texto lido pela voz xôxa, com entonação zero e empolgação menos vinte, é mais ou menos assim:
As empresas qsprens fazer fusões e aqsções encontram um patamarfavrável nos próxmossmestres. é o que indicam estdos eftados pelasmprsas qstão diznvolvendo etc, etc, etc, etc…
Chato, enfadonho, irritante, praticamente moribundo. Não seduz a sua atenção e, se você por um acaso estiver prestando atenção, vai se irritar por não conseguir entender a dicção do sujeito. Em outras palavras: é um trabalho feito com quase nenhum profissionalismo.
Se fosse um troço bem feito, a PWC teria contratado um redator que transformaria o conjunto de abobrinhas consulto-econômicas em português falável mais um locutor decente que saberia dar a ênfase certa a cada palavra, de forma a melhorar a compreensão do texto. A redação do sinhô conssultô adquiriria um aspecto no mínimo mais interessante.
Mas eu até imagino o sujeitinho de terno e gravata impecáveis justificando o…. formato atual do boletim PWC, me dizendo que trata-se de um produto cost-effective. Que, em bom português, significa: ah, a gente paga um troquinho lá, e fica um troço qualquer feito de qualquer jeito (de qualquer jeito = sem profissionalismo). Parece que nunca ouviram os sábios conselhos do senhor Abelardo Barbosa, que dizia, lá no alvorecer (credo, que figura de estilo horrorooooooooooooosa!) início do século XX: Quem não se comunica, se trumbica.
Ponto parágrafo.
Daí, você vai ao Rio de Janeiro e resolve visitar o mafuá que é a região da Saara. Olha aí em cima na foto (que eu peguei aqui) que você vai entender o que eu estou falando. Trata-se de uma região repleta de lojas que vendem produtos a preços acessíveis (ou, como diria o sinhô conssultô, cost-effective…), sempre repletas de gente indo e vindo e voltando e, o que é pior ainda, parando no meio do caminho pra ver as promoções. Com gerúndio e tudo! O barulho é de ensandecer.
Mas na Saara, região que compreende as ruas da Alfândega, Senhor dos Passos, Conceição, Buenos Aires e adjacências, existem altos-falantes espalhados no alto por cima das cabeças dos transeuntes. Que só propagam comerciais locais.
(Pausa para os créditos. Baixei os comerciais abaixo lincados neste blog aqui, na categoria som das ruas).
E aí, como fazer para se destacar auditivamente nesse mafuá, e ainda falar diretamente com seu público-alvo?
Bom, se o que você quer é comprar cristais Svarowski, por exemplo, não pode perder este spot aqui. Ou este.
O spot da fulana que se veste feito um par de jarras é de doer na alma. Beira a Vergonha Alheia.
Os comerciais veiculados vendem ainda uniformes, meias, comida…
Imagine, então, você a andar pelas ruas da Saara e ouvir uma cidadã berrar o quanto ela ama Svarowski, ou mesmo Lizinacio a anunciar o maravilhoso cardápio do Montana Grill. Sua atenção é conquistada, você entende tudo o que é dito (por mais horrorosa que seja a voz da locução) e, no mínimo, fica curioso pra conhecer a loja. Nem que seja pra ver a cara do cidadão que contratou um comercial desse naipe. E, se estiver de bom humor como eu, ainda cai na gargalhada ao ouvir que a moça quer uma canga indiana (desculpem, mas esse spot eu não encontrei).
E aí, quem vende melhor? O sinhô conssultô ou o pessoal da Rádio Saara?
Sabe quanto custa um comercial na rádio Saara? Clique aqui e descubra. Sabe quanto custa uma consultoria da Price Waterhouse Coopers? Melhor nem saber… E então, quem se trumbicou?
E pelamordedeus, não me clique aí nos comentários pra me dizer que são produtos para públicos diferentes, por que EU-SEI-DISSO! Comecei esse texto falando justamente isso! E eu ainda ressalvei que, guardadas as respectivas diferenças de públicos, um se comunica bem melhor com seu alvo do que o outro… (entendeu ou preciso desenhar?)