É, meu amigo… agora você está ao ladinho do Alvaro Moreyra e do Fernando Pessoa… desfrute dessa companhia!
Quando passar minha tristeza pela sua perda, prometo fazer alguma piadinha com sua insubordinação em morrer sem me pedir autorização. Por enquanto, eu ainda estou triste demais pra essas gracinhas… Hoje vou postar dois textos seus. Um poema e um conto. Amei os dois.
O poema. Só não sei quando foi escrito. Mas agora ele soa irônico…
FÉ
Deus! Ó, Deus! Sou eu…Este aqui, ó,
que acaba de perder o prumo
e veio tateando no escuro
cada palavra do caminho.
Sou este ser de pó, aquele amigo
do efeito lateral das sombras.
Não tenho nome, mas retiro
dos sons a minha substância homem.
Venho desdizer o que não disse:
que você não existia, e, se existisse,
não se importava comigo, o errante.
Este soneto acaba já, mas antes:
eu sei, você existe e, com certeza,
também ama comida japonesa.
O conto. Postado originalmente no blog Os mortos estão no living, homônimo do livro de contos e poemas que Miguel Marvilla lançou e que foi adotado nos vestibulares de 2007 a 2009 da Ufes.
Júlia D.: o banho
Já tinha perdido a escova de dentes e agora era o sabonete quem afluía neve sobre o corpo. A neve cheirava a algo assim como pitanga.
— Me dá um pedaço do teu sorriso?
Poderia. Não queria uma resposta sincera mesmo, queria?
— Deus criou o mundo… o mundo… o mundo…
O padre tinha uma voz tão bonita de sotaque castelhano…
— Doutor, eu queria ver Deus. Ia falar pra Ele das minhas visões. Sabe, sonhei com meu canário pardo, que morreu. Tinha uma esperança de liberdade apregoada em cada pena. Doutor, eu queria ser Deus!
O telefone. Se ao menos tivesse um, tocaria agora. Traria notícias?
— A esperança é sempre natal. Tão-somente haja, esperança é sempre fatal. Já ouviu falar de Cristo? Era um grande sujeito. Morreu de esperança.
— E o padre, doutor, é também um suicida?
Uma lágrima imitou o brilhar da lâmpada, descreveu um arco em torno da narina e trouxe-lhe um sabor de sal. Tudo doía. A mão, adormecida na torneira, esquecia-se de mover-se.
Um punhado de neve desabou de sobre o seio esquerdo.
Tinha todos os sintomas do belo. Não precisava de uma estrela nos cabelos. Não conseguia sequer precisar o momento exato de acionar a vida.
Ela, feto:
— Mamãe, é inadiável que se nasça? É mesmo preciso nascer, mamãe?
— Não sei. A solução apenas homologa a situação.
Outra lágrima tentou trafegar no mesmo sentido que a anterior, mas não chegou a completar a trajetória, por causa de um acidente qualquer da geografia do rosto. Havia uma taruíra no banheiro, porém esqueceu o grito antes mesmo que o forjasse. Era melhor não ter memória. Talvez fosse melhor nem existir.
Via pela janela um pedaço do céu, que era um pedaço do mundo. Toda ela era um pedaço da vida.
— Doutor, o padre…
— A vida…
— … não …
— … não …
— … é …
— … corresponde…
— … um louco!
— … à realidade.
— Doutor, eu quero saber de mim.
— É justo. Todas as crianças têm o dever da credulidade.
— Mas, crendo, adulteram o sentido primário da realidade: passam a ter desejos.
— Está bem. Resta-lhe uma saída: não creia em nada.
Black-out.
Black-out. Esperou a luz voltar e pensou em Deus criando o universo: era só apertar o interruptor.
Subitamente, percebeu que estava coberta de neve recendendo a pitanga e suicidou-se de frio.
Um toca-discos manchava o ar com uma valsa de Strauss.
Ninguém deu pela falta da morta. Então, ela se levantou e lavou toda neve do corpo.
Enquanto isso, foi vista pelo espelho, Deixou-se admirar. De fato, possuía belos seios, belos olhos, bela imaginação. Havia pouco de que se queixar, mas, agora, a vida lhe pesava nos ombros. Quanto tempo ainda de silêncio?
— Doutor, sou grávida por hierarquia. Porque minha mãe, minha avó, minha bisavó, todas as mulheres da minha família eram grávidas.
— A gravidez é um estado masculino de desprezo. Nascer, fazer nascer, são maneiras cômodas de não apresentar razões.
— Mas eu jamais quis ter este ser dentro da minha virgindade!
— Não tenha medo. Nem todas as mulheres geram Cristo. Algumas geram Marx. Quer me fazer crer que o orgasmo não substitui essa frustrada tentativa de não-existir? Então, ancore-se, pare de voar.
Estava nua. Como não se sentir mulher?
— Mamãe, é mesmo irremediável nascer?
Júlia D.: o banho
Já tinha perdido a escova de dentes e agora era o sabonete quem afluía neve sobre o corpo. A neve cheirava a algo assim como pitanga.
— Me dá um pedaço do teu sorriso?
Poderia. Não queria uma resposta sincera mesmo, queria?
— Deus criou o mundo… o mundo… o mundo…
O padre tinha uma voz tão bonita de sotaque castelhano…
— Doutor, eu queria ver Deus. Ia falar pra Ele das minhas visões. Sabe, sonhei com meu canário pardo, que morreu. Tinha uma esperança de liberdade apregoada em cada pena. Doutor, eu queria ser Deus!
O telefone. Se ao menos tivesse um, tocaria agora. Traria notícias?
— A esperança é sempre natal. Tão-somente haja, esperança é sempre fatal. Já ouviu falar de Cristo? Era um grande sujeito. Morreu de esperança.
— E o padre, doutor, é também um suicida?
Uma lágrima imitou o brilhar da lâmpada, descreveu um arco em torno da narina e trouxe-lhe um sabor de sal. Tudo doía. A mão, adormecida na torneira, esquecia-se de mover-se.
Um punhado de neve desabou de sobre o seio esquerdo.
Tinha todos os sintomas do belo. Não precisava de uma estrela nos cabelos. Não conseguia sequer precisar o momento exato de acionar a vida.
Ela, feto:
— Mamãe, é inadiável que se nasça? É mesmo preciso nascer, mamãe?
— Não sei. A solução apenas homologa a situação.
Outra lágrima tentou trafegar no mesmo sentido que a anterior, mas não chegou a completar a trajetória, por causa de um acidente qualquer da geografia do rosto. Havia uma taruíra no banheiro, porém esqueceu o grito antes mesmo que o forjasse. Era melhor não ter memória. Talvez fosse melhor nem existir.
Via pela janela um pedaço do céu, que era um pedaço do mundo. Toda ela era um pedaço da vida.
— Doutor, o padre…
— A vida…
— … não …
— … não …
— … é …
— … corresponde…
— … um louco!
— … à realidade.
— Doutor, eu quero saber de mim.
— É justo. Todas as crianças têm o dever da credulidade.
— Mas, crendo, adulteram o sentido primário da realidade: passam a ter desejos.
— Está bem. Resta-lhe uma saída: não creia em nada.
Black-out.
Black-out. Esperou a luz voltar e pensou em Deus criando o universo: era só apertar o interruptor.
Subitamente, percebeu que estava coberta de neve recendendo a pitanga e suicidou-se de frio.
Um toca-discos manchava o ar com uma valsa de Strauss.
Ninguém deu pela falta da morta. Então, ela se levantou e lavou toda neve do corpo.
Enquanto isso, foi vista pelo espelho, Deixou-se admirar. De fato, possuía belos seios, belos olhos, bela imaginação. Havia pouco de que se queixar, mas, agora, a vida lhe pesava nos ombros. Quanto tempo ainda de silêncio?
— Doutor, sou grávida por hierarquia. Porque minha mãe, minha avó, minha bisavó, todas as mulheres da minha família eram grávidas.
— A gravidez é um estado masculino de desprezo. Nascer, fazer nascer, são maneiras cômodas de não apresentar razões.
— Mas eu jamais quis ter este ser dentro da minha virgindade!
— Não tenha medo. Nem todas as mulheres geram Cristo. Algumas geram Marx. Quer me fazer crer que o orgasmo não substitui essa frustrada tentativa de não-existir? Então, ancore-se, pare de voar.
Estava nua. Como não se sentir mulher?
— Mamãe, é mesmo irremediável nascer?