Arquivo por junho, 2010

As datas aprazadas e a efetuação da cópula

terça-feira, junho 29th, 2010

Daí que eu me lembrei desta historinha que aconteceu há algumas eras com um certo marido, e tenho que compartilhá-la por aqui…

Estava o tal do marido a atualizar o site da empresa onde ele trabalhava. Ele precisava incluir informações sobre pagamentos de dívidas blablabla whiskas sache blablabla. O público-alvo da e-missiva (adooooro essa e-xpressão! :D ) eram autoridades que, embora autoridades fossem, não eram lá muito amigas do vernáculo. Amebas, portanto.

E o que me abespinha nessas horas é perceber que ameba é uma raça que não sabe se inter-comunicar. Elas têm uma dificuldade de conversarem entre si que é uma coisa. Pensando bem, não fosse assim não seriam amebas, né?

Maseutavafalandode… ah, sim! O texto que o tal do marido recebeu! Foi sofrivelmente escrito por uma ameba escrevente, cheio de gerúndios e clichês e, lá pelas tantas, falava em pagamento dos títulos nas “datas aprazadas”.

Tá certo que aprazar é verbo registrado por tio Antônio, que diz que:

Aprazar
n verbo
transitivo direto
1 marcar (tempo ou prazo) para realização de alguma coisa
Ex.: resolveram a. imediatamente o encontro
transitivo direto e bitransitivo
2 restringir, delimitar (o prazo, a duração) de
Exs.: era preciso a. o fim da obra
aprazou um ano para o término da dissertação
Mas se você pensar direitinho, e com a cabeça do público-alvo do texto (/amebas), chegará à conclusão que esse verbim daí não é de muita felicidade, não. Inda mais se o leitor em questão tiver inteligência suficiente para  entender que a palavra em questão foi fruto de um erro de digitação: em vez de aprazadas, deveria ser atrazadas. Porque, claro, atrazado se escreve com zê, né? (NÃO! É COM ÉSSE!!)

Então, o marido em questão resolveu trocar a expressão “datas aprazadas” por “datas combinadas”. E o autor do texto, ao refazer a releitura da redação antes de a bendita ser carregada para a página da empresa, voltou para a expressão original: “datas aprazadas”. E justificou:

- Isso é uma expressão técnica. Quem lê tem a obrigação de entender isso.

Argumento falho, fraco e errado, por alguns poucos mas excelentes motivos:

1- A obrigação maior e principal para a compreensão do texto é a do autor da redação. É ele quem tem que se fazer entender, sem dar margens a duplos sentidos ou duplas interpretações. Se você disser “bolinhas amarelas” e o seu leitor entender “listras azuis”, o erro foi principalmente seu por não saber como fazer o seu leitor entender “bolinhas amarelas”.

2- Aprazar não é expressão técnica. É apenas um verbo metido a besta, que pode – e deve – ser substituído por outro de maior clareza sempre que possível.

Mas o marido em questão não tinha autonomia pra alterar o texto. E a missiva em questão foi levada à página web da empresa com a expressão rococó empolêixon “datas aprazadas”.

Cansado, triste e frustrado, o marido em questão desabafa com a mulher, que costuma exorcizar textos mal-escritos (disse que fui eu? Então, não conclua coisas que eu não disse, detetivões! :P ), e conta a história de “datas aprazadas” ter virado “linguagem técnica”.

A esposa do marido, então, ensinou-lhe o seguinte:

- Meu amor, da próxima vez que alguém insistir em enfiar linguagem técnica onde não deve, diga a essa pessoa: “Fulano, efetue cópula”. Daí, quando o Fulano perguntar o que é “efetuar cópula”, você explica que é “vá se foder” em linguagem técnica…

Infelizmente, o marido nunca disse isso pro autor das “datas aprazadas”. Ah, o excesso de educação….

;)

Azenha e o lugar-comum

sábado, junho 26th, 2010

Curti muito esse texto do Luiz Carlos Azenha. Foi originalmente publicado aqui. Reproduzo-o no caldeirão, devidamente autorizada (\o/)  pelo autor. Mas vou voltar à questão em outro post. Ainda há muito o que se escrever (e se exorcizar) de e sobre o lugar-comum!

Detonando o lugar comum: Camisa não ganha jogo
por Luiz Carlos Azenha
Minha carreira começou no esporte. Eu ainda era menino quando assinava uma coluna, chamada Síntese, no Jornal da Cidade de Bauru. Era um resumo dos resultados de competições que não cabiam na página principal de esportes: campeonato internacional de xadrez (nos tempos de Karpov e Mequinho), de automobilismo (Carlos Reutemann e Emerson Fittipaldi), de tênis (Martina Navratilova, Thomas Koch e Bjorn Borg). Meu grande prazer, nesta época, era entrar no quarto escuro para revelar as radiofotos que chegavam via United Press International. Era inacreditável ver aquelas imagens feitas algumas horas antes em Nova York, Moscou ou Berlim.
Experimentei na pele o desprezo dos “jornalistas sérios” em relação aos assim chamados “cronistas esportivos”. Voltei a atuar no ramo bem mais tarde, como repórter da Fórmula Indy, viajando o mundo. Reconheço que é uma luta evitar o lugar comum e que me rendi muitas vezes à cobertura esquemática, aquela em que você confunde o esporte com as emoções pessoais dos competidores, um truque conveniente quando se trata de atrair o público. É o que chamo de “personagismo”.
Ao olhar em retrospectiva, no entanto, fico pasmo de ver a longevidade de alguns destes lugares comuns da chamada “crônica esportiva”. Essa história de que camisa ganha jogo, por exemplo. Ouço isso desde a Copa do Mundo do México, em 1970, quando ainda não trabalhava no jornal. Ouvi isso nas copas que cobri pessoal ou indiretamente (1990, na Itália; 1994, nos Estados Unidos; 1998, na França; 2002, com reportagens especiais na Índia, Serra Leoa, El Salvador e Honduras; e 2006, em Gana).
Diz-se que esta ou aquela seleção ganha jogo por conta meramente da tradição. Do peso da camisa. Um lugar comum derrotado espetacularmente na Copa da África do Sul, quando a campeã mundial e a vice foram eliminadas ainda na primeira fase.
Aceito que existam “escolas de futebol” distintas e que a força destas escolas seja maior ou menor, dependendo da geração de jogadores. Há escolas, como a do Uruguai, que às vezes mergulham em sono profundo, para renascer mais adiante. Há escolas que surgem e se consolidam, como parece ser o caso agora dos Estados Unidos e do Japão.
Mas a ideia de que uma simples camisa ganha jogo é tão absurda que deveria pertencer à categoria do “sobrenatural de almeida”, o personagem de Nelson Rodrigues que salvava goleiros, defendia pênaltis e fazia gols no Maracanã. Só aceitamos este absurdo porque estamos anestesiados pela quantidade de idiotices e lugares comuns que nos são servidos cotidianamente sob o rótulo de “jornalismo esportivo”. Pelo menos lá atrás, no tempo do Nelson Rodrigues, os cronistas e narradores edulcoravam suficientemente os jogos a ponto de fazer um Juventus x Noroeste parecer um confronto de titãs na rua Javari.
A televisão acabou com os gols espetaculares, os dribles mágicos e os ataques infernais narrados pelo Fiori Gigliotti (“Conhaque Presidente, uma bebida quente, uma dilícia de conhaque”) e nos deu, em troca, estatísticas sobre quantas vezes o jogador cospe em campo. O lugar comum, este é o mesmo desde quando o Noroeste era escalado assim: Roque, China, Tecão, Araújo e Dé; Lorico e Zé Mário; Jáder, Zé Rubens, Rodrigues e Julinho. Se tradição ganhasse jogo o Noroeste, que é de 1910, seria campeão brasileiro.


Dez-classificação

quarta-feira, junho 23rd, 2010

Sério….

às vezes eu fico pensando se os cabras do UOL fazem isso só pra aparecer aqui…

Dezclassificados? Desclassificados?

Tá certo que trocadilho não se cala, mas quando o dito leva a interpretações opostas, num rola, né?

PORRA, UOL! PORRA!

Mundial de futebol ou volta ao mundo?

sábado, junho 19th, 2010

Tá bom, eu sei que quando um evento é muito longo, todas as notícias por ele geradas tendem a ter as mesmas palavras, e é função do jornalista variar um pouquinho os verbos pra que o troço não fique ainda mais repetitivo do que já é.

Mas daí a

Parece que estamos falando de, sei lá, volta ao mundo de barco…

Claro, a manchete é do UOL…

The funhanhation

quarta-feira, junho 16th, 2010

Dominada e rendida que estou com caixas de mudança em minha nova residência, agora no Planalto Central, eu meique deixo amebas escreventes e ectoplasmas suínos se digladiando por aí sem minha intermediação, porque como vocês já sabem, meus poderes limitam-se apenas ao exorcismo do português meia-boca. Quisera eu ser uma Samantha Stevens, mexer meu nariz e ter minha casa limpa, arrumada e em ordem. [Suspiro].

Mas deixemos divagações de mudança de lado, porque eu a-mei a expressão que a candidata do PT à presidência da República, Dilma Roussef, abiscoitou do locutor da Rádio Planeta Diário, de São José dos Campos. Como você podem ver neste link aqui (da folha, malzaê…), por inspiração do locutor da rádio (Planeta Diário, já é uma piada pronta…), dona ex-ministra disse que o presidente Lula assumiu um país funhanhado.

A sonoridade da palavra é deliciosa.  Bem brasileira mesmo. Mas que diabos esse troço significa? Tio Antônio fez cara de ué (outra expressão deliciosa e irretocável, também abiscoitada por dona ex-ministra do locutor da rádio) pra mim. Quem resolveu o dilema foi o senhor Google, que me forneceu este link.

Então, se funhanhado significa leso, estragado ou amasiado (Fulano está funhanhado com fulana), essa expressão é prima do trubisco e do fuzilico, lembram?

Daí que eu sou obrigada a defender dona Dilma neste meu caldeirão. Estou desde o início do ano torcendo por uma derrapada de dona candidata com a Língua Portuguesa, pra que ninguém me acuse de ser contra o Serra. Não tenho culpa se quando o candidato do PSDB fala ou ele é defendido por jornalistas smartões ou ele dá detalhe com a Flor do Lácio…

Por isso, tenho que discordar do Augusto Nunes, que afirmou que a “Dilma não domina nenhum nível do idioma”. Naonde que ele concluiu isso? Olha, a Dilma sabe, sim, falar português fluentemente… Não tenho provas contra ela, e olha que eu tô atrás, viu?

No mais, antes de falar mal do português dos outros, legal mesmo é fazer um título mais claro e com menos palavras, né não?

Porque o título

UOL explica que Dilma disse ‘funhanhado’ e Celso Arnaldo desvenda mais um mistério

Embaixo da “seção direto ao ponto” nada mais é que uma piada pronta… a notícia é sobre quem, zifio? UOL, Dilma, Celso Arnaldo, funhunhação, declaração  ou mistério? Escolhe, pô!

Título mais funhanhado, credo…. :D

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