Arquivo por novembro, 2010

O misterioso caso do tucano da Vila Cruzeiro

sexta-feira, novembro 26th, 2010

Ao que a reportagem indica, a ave em questã tem nome composto

Táqui a historinha acima. Né invenção minha, não.

Fui alertada por um pio do Rodrigo Vianna no Twitter, e corri pra ver do que se tratava. Logo imaginei que a brasileira ave da história fosse aparentada de dona suçuarana, que teve sua Grande São Paulo operada, lembram dela?

Mas a história desse tucano tá tão malcontada, mas tão malcontada, que é realmente impossível saber qual é a desse tucano e como ele foi parar literalmete no meio do fogo cruzado. Pelo que explica o primeiro parágrafo, aparentemente ele se chama Fabiano Atanásio, é chefe do tráfico local e foi quem, pessoalmente, derrubou um helicóptero da polícia no morro dos Macacos.

Um duplo sentido duzinferno.

Se foi de propósito, pegaram pesado. Muito pesado.

Se foi sem querer, PORRA G1! QUE MERDA!

Daí, é só trocar de

A ave estava na casa do chefe do tráfico na comunidade, acusado de ser o responsável pela queda de um helicóptero da polícia ano passado no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte.

Para

A ave estava na casa de Fabiano Atanásio -vírgula, chefe do tráfico na comunidade, acusado de ser o responsável pela queda de um helicóptero da polícia ano passado no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte.

que aí fica claro que o bichinho pertence ao Fabiano, e não é um político do PSDB.

“Se eu fosse o Sílvio Santos abria uma consultoria para ministros: ‘Como dar entrevista para a Folha’. Ia ficar rica e daríamos muita risada”

sexta-feira, novembro 12th, 2010

Sei que o título tá longo, mas ficou em menos de 140 caracteres. Então não amola. E não fui eu quem disse isso, foi a @maria_fro, no twitter. Simplesmente re-su-miu esta entrevista que é épica demais pra se perder por aí.

Silvio, aceite o conselho da Conceição Oliveira. Você é o senhor supremo do universo Media Training.

“Se pagar bem, claro que vendo o SBT”, diz Silvio Santos
MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA
O empresário Silvio Santos atendeu ontem à noite, em sua casa, a um telefonema da Folha. Ele disse que, se alguém pagar o que ele deve ao FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que emprestou à sua holding dinheiro para cobrir o rombo do banco PanAmericano, pode comprar o SBT. Leia entrevista.
Folha – Eu gostaria que o sr. desse uma palavra para o público sobre tudo o que está acontecendo no banco.
Silvio Santos – Não posso porque eu assinei um termo de confidencialidade. Eu assinei um termo de conf… confidencialidade… é até difícil de falar! Não posso comentar nada. Só quem pode falar é o Fundo Garantidor de Crédito.
O sr. se encontrou com o Lula. Falou com ele sobre isso?
Que Lula?
O presidente.
Estive com ele falando sobre o Teleton [programa que arrecada recursos para a AACD]. Ele está me devendo R$ 13 mil [risos]. Tive que dar por minha conta porque ele prometeu e não deu os R$ 13 mil [que disse que doaria]. Eu falei para ele: “Se você der R$ 13 mil, a Dilma pode ganhar a eleição”. Porque é o número dela, não é? Não é 13 o número da Dilma? “Pode ser que Deus te ajude e ela ganhe a eleição.”
E ela ganhou do mesmo jeito.
Mas aí é que tá: agora tô preocupado [risos]. Ele fez a promessa e não cumpriu.
E o senhor votou nela?
Eu estou com 80 anos. Você acha que eu vou sair de casa para votar? Vou votar é em mim mesmo aqui em casa.
E aquela história da bolinha [reportagem do SBT afirmou que o candidato tucano, José Serra, foi atingido, numa manifestação, por uma bolinha de papel, e não por um objeto mais pesado, como ele dizia]? Todo mundo está falando que o SBT fez a reportagem porque estava com problema no banco.
Mas que bolinha?
A bolinha que caiu na cabeça do Serra.
Caiu alguma coisa na cabeça dele? [risos] Caiu alguma coisa na cabeça dele?
Na campanha.
Ah, não foi hoje?
Não.
Ah, eu não sei desse negócio de bolinha, não. Isso aí, olha, eu não vejo TV. Televisão, para mim, é trabalho. Só vejo filme. Agora que você ligou para mim eu estava vendo a Fontana di Trevi. Você já viu esse filme, “A Fonte dos Desejos” (de Jean Negulesco)? Eu estava vendo agora.
E essa informação de que o empresário Eike Batista quer comprar o SBT?
No duro?
É.
Ah, me arranja! Arranja para mim que eu te dou uma comissão.
O senhor venderia?
Se ele me pagar bem, por que não? Quem é? “Elque”?
Eike, um dos homens mais ricos do Brasil.
Ele é americano? Eike?
Brasileiro.
Não, não conheço. Mas, se ele pagar os R$ 2,5 bilhões que estou devendo, vendo, é claro que vendo. Não precisa nem pagar para mim, paga para o Fundo Garantidor de Crédito. Eu não posso vender nada sem passar pelo Fundo Garantidor de Crédito.
O senhor está bem? Triste? Chateado?
Eu estou sempre bem. Você já me viu mal?
O senhor ficou surpreso com tudo o que aconteceu?
Não posso falar.
Mas o senhor coloca o seu nome e a sua história como garantia de tudo…
É claro. A holding [do grupo Silvio Santos] só recebeu R$ 2,5 bilhões porque eu dei todos os meus bens em garantia. [A operação se realizou] Como se fosse num banco particular. Mas com banco particular seria mais difícil porque os bancos particulares não querem concorrência [do banco PanAmericano].
O Bradesco não emprestaria para o seu banco, né?
É claro [que não]! Acha que o Bradesco… eu não digo o Bradesco. Mas um banco particular não vai querer me emprestar R$ 2,5 bilhões por dez anos. Vai? Até vou tentar conseguir, quem sabe?
E o ex-superintendente do PanAmericano, Rafael Palladino?
Palladino? Que Palladino? Nunca fui ao banco. Nem sei onde é o prédio. Quando tenho dinheiro, abro uma empresa no Brasil. Aplico no mercado brasileiro. Mas não sou obrigado a ficar sabendo onde é a empresa. Eu tinha uma fazenda que era a segunda maior do Brasil, a Tamakavi, e nunca fui lá. Nem vi no mapa.
A única coisa com que me preocupo é com a televisão. Eu sou investidor. Se [o negócio] der certo, deu. Se não der certo, não deu. A TV é o meu negócio. Mesmo que não desse certo, é o meu hobby.
Agora, os outros são negócios. Eu não sou obrigado a entender de perfumaria, de banco. Eu não! Isso aí eu boto dinheiro, pago bem os profissionais e eles têm que me dar resultados. E, às vezes, falham. Desta vez, falhou.
E a auditoria não pegou…
Mas quem é que arranja a auditoria? Não é o próprio executivo do banco? Que culpa tenho eu? Você vai publicar isso na Folha? A Folha fez uma matéria muito boa hoje. Ninguém sabia o que era Fundo Garantidor de Crédito. Pensavam que era um órgão do governo. Aquilo ali é praticamente uma companhia de seguros. Nem jornalista sabia. Aquilo ali realmente é para poder emprestar dinheiro, garantir o que você tem no banco. Se você tem até R$ 60 mil, garante.
Não é dinheiro público…
Mas claro que não é. O dinheiro é particular. É uma empresa sem fins lucrativos.
E com o Henrique Meirelles, o senhor tem falado muito?
Nem conheço. Não sei quem é. Olha, capricha, bota uma foto minha bem bonita no jornal.

UOL e a decadência de Vin Diesel

quinta-feira, novembro 11th, 2010

Décadence sans élégance

 

Recebi esta tetéia do Luis zampollo por e-mail, e só fui ver séculos depois. Mas a teteíce desta tetéia não se perdeu com o tempo.  

Porque eu prefiro acreditar que esta chamada de capa do UOL foi uma forma de, sei lá, exprimir opinião pré-concebida a respeito do ator não, palavra forte demais pra designar o cidadão estrela não viado demais celebridade, pronto, celebridade. Que costuma estrelar filmes de merda bosta irritantes escrotos ridículos de ação. Pronto, de ação.  

Cair no samba é uma coisa. Decair no samba é algo que, francamente, depõe contra o samba.  

Né, tio Antônio?  

Decair  

n verbo
intransitivo
1 Diacronismo: antigo.
ir abaixo; cair, desabar
Ex.: tudo indica que esta parede vai d.
transitivo indireto e intransitivo
2 tombar (sobre); ir para baixo; estender-se; inclinar-se, pender
Exs.: seus cabelos decaíam pelos ombros
depois do vendaval, os galhos decaíram
intransitivo
3 diminuir de grau de intensidade (qualquer coisa mensurável com grandeza física); baixar
Ex.: o ritmo da música decai toda hora
intransitivo
4 Derivação: por metáfora.
passar a um estado ou condição qualitativamente inferior; tender para o fim ou ruína; descair
Ex.: o negócio, a moral, o estado de saúde, tudo decaiu a um só tempo
transitivo indireto
5 Derivação: por extensão de sentido.
deixar de ter (estado ou situação que represente um bem); perder
Exs.: d. das graças reais
d. de qualidade
intransitivo
6 Rubrica: termo jurídico.
perder causa ou processo
Ex.: a parte que decai paga as custas
intransitivo
7 Rubrica: termo de marinha. Estatística: pouco usado.
desviar-se (embarcação) do rumo; cair
Ex.: o navio decaiu para a direita

E não me venham com paunocuzices reclamações bestas de que cair e decair são sinônimos, porque decair é específico para se usar na hora de “passar a um estado ou condição qualitativamente inferior; tender para o fim ou ruína”.  

Quer dizer, se o UOL tivesse investido num trocadilho com velozes e furiosos, teria sido mais feliz.

Ronnie Von e o intransitivo viado

segunda-feira, novembro 8th, 2010

Por falar em língua em constante evolução que ganha novos verbetes e adquire novos ares etcetcetc, me lembrei deste fato aqui:

Eis que o príncipe da Jovem Guarda, Ronnie Von, hoje é um respeitável senhor de meia idade que apresenta um delicioso programa de variedades na TV Gazeta de São Paulo, o Todo Seu. Assistia quando morava em São Paulo. Às vezes, trazia momentos surpreendentes, como Miúcha se derretendo toda pra cima do apresentador, em meio a uma entrevista prá lá de cativante.

Mas o gerador de neologismos foi ligado em outra ocasião.

O programa em questão é gravado. Ronnie estava encerrando o programa, porque a fita estava quase acabando e o tempo tava mais que estourado. E tinha um borbotão de mensagens e perguntas de telespectadores pra ler ainda. Começou a ler as perguntas a jato. Até que se deparou com um dilema existencial de um telespectador. E deu nisso aqui:

Daí que a história caiu na web (como vocês podem perceber) e geral começou a usar o verbo significar na terceira pessoa do singular do presente do indicativo de forma intransitiva, como sinônimo de viado ou viadagem (Fulano significa). Simples assim. Tem como não amar?

Isso quer dizer o seguinte, gente: às vezes, significa não significa significa. Quer dizer que, se você ouvir que Fulano significa, assim, intransitivo mesmo, é sinal de que Fulano está aviadando…

Então, vamos acrescentar mais uma definição ao verbo significar. Ajudaê, tio Antônio:

Significar
n verbo
transitivo direto
1 ter o significado ou o sentido de; querer dizer
Ex.: dialogar significa falar e, principalmente, ouvir
transitivo direto
2 apresentar-se como expressão de; exprimir, traduzir
Ex.: que significa isso que você acaba de fazer?
transitivo direto
3 dar a entender; mostrar
Ex.: queria, com aquele gesto, s. a sua negativa
transitivo direto
4 ser sinal ou indício de; denotar
Ex.: o seu fracasso nas últimas eleições significou o fim da sua carreira política
transitivo direto e bitransitivo
5 Estatística: pouco usado.
fazer conhecer; participar, comunicar
Ex.: a diretoria significou(-lhes) a decisão de não fazer demissões
transitivo direto
6 Rubrica: linguística.
possuir determinado significado; denotar, designar
Ex.: sifonoide significa ‘semelhante ao sifão’

Eu acrescento:

Intransitivo

7. Viado, viadagem.

Ex.: Fulano significa. / Isso significa.

Mas por favor, não usem tal expressão em textos formais e/ou oficiais. Porque isso não significa nada. :D

(P.S.: Confira abaixo a explicação do próprio Ronnie Von sobre o episódio)

Mais de Monteiro Lobato e essa estranha mania da censura cômoda

quinta-feira, novembro 4th, 2010

Li este post da Mani e concordei totalmente com ela.

Um trechinho em especial me chamou atenção:

Deixem que as crianças questionem o que elas precisam, não o que vocẽs adultos gostariam de ensinar.

E isso serve pra tudo na vida de uma criança. Por que censurar esta ou aquela coisa que você não quer comentar com seu filho (sexo, drogas, religião, racismo, tabus)? Seu filho irá lhe agradecer muito mais se você for capaz de conversar diretamente com ele e disser o que você pensa a respeito e o que outras pessoas podem pensar a respeito daquele tema e por quê.

Censurar e proibir seu filho de ver/pensar certos assuntos irá privá-lo de construir a noção de certo/errado a partir de seu próprio raciocínio, e irá levá-lo ao perigoso mundo do desconhecido. “Uai, não sabia que podia chamar negro de tição! Vou chamar!”

Enfim, fugi de novo do tema deste blog. Estou dispersiva, viu?

Como se não bastasse o bolo de pé-de-moleque

quinta-feira, novembro 4th, 2010

Este post não é um post pago. Eu é que sou otária mesmo de fazer propaganda gratuita.

Saí de São Paulo já morrendo de saudades de uma padaria que tinha perto da minha casa que fazia um bolo de pé-de-moleque muito gostoso e uma rosca de batata-baroa, vulgo mandioquinha, de comer de joelhos. Na verdade, eu comia essa rosca sozinha, com café com leite.

Cheguei aqui em Brasília e conheci a Quitinete, que fica na 209 Sul (quem é de Brasília sabe como chegar. Mas, pra não te matar de curiosidade, fica aqui).

Mas o que isso tem a ver com um blog sobre textos, dona Bruxa?

Olha, não teria nada a ver. Até o dia em que eu fui comprar pão francês lá e recebi-os dentro de um saco de papel como este:

Num dá pra ver direito? Eu conto!

O saco de papel da Quitinete está repleto de frases de poemas! quer dizer, se eu consumia os quitutes de lá com algum peso na consciência, basta a distração dos textos do saco de papel deles.

Você faz seu lanchinho da tarde com Cecília Meireles, Augusto dos Anjos, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Chico Buarque! E nem tchuns pras calorias que ingeriu! Tem como não amar?

Exemplinhos lindos:

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

Clarice Lispector

ou este aqui:

Abrindo um antigo caderno

foi que eu descobri

Antigamente eu era eterno

Paulo Leminski

Como se não bastasse isso aqui pra te seduzir

Bolo de pé-de-moleque. Resista. E deixa que eu como sozinha! :P

(Querida Quitinete, De nada pela propaganda gratuita. Caso você faça questão aceito meu pagamento na espécie daí de cima. Contato via e-mail, por favor! :P )
(P.S.: algum dia vocês pretendem vender roscas doces de batata-baroa/mandioquinha? É, eu sou abusada, fazer o quê?)

Dicionário Caldas Aulete disponível para download gratuito

quinta-feira, novembro 4th, 2010

Tava aqui fazendo o post sobre presidente x presidenta (que já tá no ar, aí embaixo) e descobri que você pode baixar digratismente a nível de não pagar nada (não me corrija, eu sei que escrevi errado, por isso pintei o texto em vermelho) o dicionário Caldas Aulete.

Clicaqui e baixe o aplicativo!

Já vou avisando que não sei se o aplicativo é bom. Mas o dicionário o é. Descobri o babado agora, e estou baixando o coiso neste momento. Posso até escrever mais tarde sobre o dito, mas por ora meu veredito é: não sei!

***

Atualização do dia seguinte:

Meu download tava demorando duas vidas e meia para se concluir. E a taxa de transferência só fazia cair. Quando isso acontecer, dica básica: zera tudo. Reinicia o computador e o modem. Funciona que é uma beleza, e o download de 26 MB se conclui em alguns minutos.

O dicionário é muito bom (talvez o melhor do Brasil, e que tio Antônio me desculpe), o conteúdo é útil e o software é grátis porque os gênios que produziram o programa puseram na barra direita anúncios. Pronto! Pagou-se pelo software!

Ou seja: invente outra desculpa para não usar dicionário, zifio. Todas as que você tinha até agora caducaram.

***

Objetivando disponibilizar textos terceirizados [2]: Sérgio Leo e o quiproquó de Monteiro Lobato

quinta-feira, novembro 4th, 2010

Eu tava mesmo achando essa história toda de MEC versus Monteiro Lobato muito mal contada. Daí veio o Sérgio Leo e contou tudo direitinho. Obrigada à Maria Frô pelo link enviado via Twitter. \o/

Nada mais me resta senão dar aquela kibada portuguesa: peço autorização ao autor, copio o texto, cito a fonte e dou o link pro texto original.

(até porque uma frase do teor de o texto do MEC mereceria surra com vara de marmelo de tia Nastácia; “olhares com que se olham” e “laços que enlaçam” são de amargar é típica de um dileto ectoplasma suíno a exorcizar texto de ameba escrevente. Tenho que amar, tenho sim! :D )

Fiquemos, pois, com a palavra de Sérgio Leo:

*****

Foi tópico de sucesso no Twitter: “MEC veta livro de Monteiro Lobato”. E centenas de tweets indignados falavam em obscurantismo, babaquice políticamente correta, exagero.

Suspeito que grande parte sequer leu as obras de Lobato; conheceu o gênio pela adaptação do Sítio do Picapau Amarelo na TV. Perderam as delciiosas ilustrações de André Le Blanc, o texto maravilhoso do autor e… seu mórbido racismo. Na adaptação da obra para a TV, caparam o texto de Lobato para eliminar o racismo (e não só isso), e ninguém reclamou.

O que o MEC diz: o livro distribuído tem até um prefácio alertando para as impropriedades ambientais de Pedrinho, mas nada para alertar sobre o racismo. Só deve ir para as escolas se ese tema for tratado com a atenção que merece. Alguém contra isso por aí? Caramba, essa obra é para educar as crianças!

(Vi depois, claro, os críticos de sempre aproveitando o escândalo para apontar “jequice” no governo. É hilariante ver gente citando o Jeca Tatu de Lobato, outro fruto do preconceito do autor. Esse, Lobato corrigiu ainda em vida: num texto posterior ao Urupês, pede desculpas ao jeca, porque seu texto original e preconceituoso o culpava pelo atraso e, depois, o escritor descobnriu que sua aparente indolência era doença, resultado do péssimo sistema de saúde pública)

Do racismo, falei no post anterior. Vamos falar de outra coisa que mencionaram sem ler, o parecer do MEC. Muito lidas foram as matérias de jornal, que simplificaram ao ponto de desfigurar o parecer. Ele recomendou não incluir o livro “Caçadas de Pedrinho” entre as obras distribuídas à rede escolar, ou, distribuindo, acrescentar textos chamando atenção para o racismo embutido no texto, explicável pelas circunstãncias da época em que foi escrito.

Não é um arrazoado medieval o parecer do MEC, pelo contrário. Está repleto de referências elogiosas ao Lobato, e há comentários sobre como não se trata de banir seus livros das bibliotecas. Diz a nota técnica, segundo o parecer do MEC:

A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro.

Mas tem mais.

O parecer nota, ainda, que a edição bem cuidada do livro incluiu até uma introdução para chamar atenção sobre os avanços da legislação ambiental _ que já não permitiria Pedrinho nem seus fãs sairem caçando animais silvestres por aí. Mas sobre os estereótipos preconceituosos do negro e da África, não há nada. Está no livro:

“Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje. (p. 19).” [OK, nota da Bruxa, porque eu num mi posso com essas coisas: zifio, o Ibama inda nem existia, como é que ele podia proteger da extinção uma espécie que...er... bem... inda num tava em extinção?]

Nota o parecer:

“Todavia, o mesmo cuidado tomado com a inserção de duas notas explicativas e de contextualização da obra não é adotado em relação aos estereótipos raciais presentes na obra, mesmo que estejamos em um contexto no qual têm sido realizados uma série de estudos críticos que analisam o lugar do negro na literatura infantil, sobretudo, na obra de Monteiro Lobato e vivamos um momento de realização de políticas para a Educação das Relações Étnico-Raciais pelo MEC, Secretarias Estaduais e Municipais de Educação.”

Segue o texto:

Não se pode desconsiderar todo um conjunto de estudos e análises sobre a representação do negro na literatura infantil (Gouveia, 2005; Lajolo, 1998; Vasconcelos, 1982; entre outros)1, os quais vêm apontando como as obras literárias e seus autores são produtos do seu próprio tempo e, dessa forma, podem apresentar por meio da narrativa, das personagens e das ilustrações representações e ideologias que, se não forem trabalhadas de maneira crítica pela escola e pelas políticas públicas, acabam por reforçar lugares de subalternização do negro.

A questão foi levantada por um pesquisador da UnB que trata da temática racista em obras literárias. Não duvido que haja exageros na crítica do pesqusiador; reclamar contra o tratamento dado aos “animais da África” nos textos é ir um pouco além do combate ao racismo. Mas o fato é que há, sim, racismo nas obras de Lobato, e o drama do MEC é como lidar com isso. Não se pode simplesmente derramar o racismo de um fazendeiro paulistano genial dos anos 30 sobre a cabeça das crianças negras, brancas e pardas do século XXI.

Pela lei Afosno Arinos, aliás, se Emília dissesse as barbaridades que diz dos “beiços” e da feiúra de “preta” de tia Nastácia, ela iria para a cadeia de Taubaté com a velocidade de quem cheira pó de pirlimpimpim. (Aliás, o bom senso impediu até hoje que se perseguissem os livros de Lobato como incentivadores do uso da droga. mas ninguém reclamou também que a versão da TV tenha expurgado o pó mágico que dá charme à narrativa lobatiana: não tem crianças cheirando nada para viajar nas Reinações de Narizinho televisivas).

Mais parecer:


b) cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor;
c) caso algumas das obras selecionadas pelos especialistas, e que componham o acervo do PNBE, ainda apresentem preconceitos e estereótipos, tais como aqueles que foram denunciados pelo Sr. Antônio Gomes Costa Neto e pela Ouvidoria da SEPPIR, a Coordenação-Geral de Material Didático e a Secretaria de Educação Básica do MEC deverão exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura. Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante.

E, ainda:

“A literatura pode ser vista como uma das arenas mais sensíveis para que tomemos providências a fim de superar essa situação. Portanto, concordando com Marisa Lajolo (1998, p. 33) analisar a representação do negro na obra de Monteiro Lobato, além de contribuir para um conhecimento maior deste grande escritor brasileiro, pode renovar os olhares com que se olham os sempre delicados laços que enlaçam literatura e sociedade, história e literatura, literatura e política e similares binômios que tentam dar conta do que, na página literária, fica entre seu aquém e seu além.

Diante do exposto, constata-se a necessidade de formulação de orientações mais específicas às escolas da Educação Básica e aos sistemas de ensino na implementação da obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos.”

OK, o texto do MEC mereceria surra com vara de marmelo de tia Nastácia; “olhares com que se olham” e “laços que enlaçam” são de amargar [<==== ectoplasma suíno detectado. Meus comentários fazem-se desnecessários ===>]. Mas vejamos o voto da relatora Nilma Lino Gomes:

Nos termos deste parecer, à vista do disposto no Parecer CNE/CP nº 3/2004 e na Resolução CNE/CP nº 1/2004, é essencial considerar o papel da escola no processo de
educação e (re)educação das (e para as) relações raciais, a fim de superar o racismo, a discriminação e o preconceito racial. A despeito do importante caráter literário da obra
de Monteiro Lobato, o qual não se pode negar, é necessário considerar que somos sujeitos da nossa própria época, porém, ao mesmo tempo, somos responsáveis pelos desdobramentos e efeitos das opções e orientações políticas, pedagógicas e literárias assumidas no contexto em que vivemos.

Nesse sentido, a literatura em sintonia com o mundo não está fora dos conflitos, das tensões e das hierarquias sociais e raciais nas quais o trato à diversidade se realiza. São situações que estão presentes nos textos literários, pois estes fazem parte da vida real. A ficção não se constrói em um espaço social vazio.

Em resumo, um pesquisador sensibilizado pela luta anti-racista denunciou o livro como contrário ás diretrizes estabelecidas pelos professores para o livro didático, os especialisats do MEC analisaram a denúncia e tiveram de admitir que a obra tem elementos racistas e concluíram que, do jeito que está, não deve constar da lista de distribuição, a menos que tenha uma orientação ao professor e aos pequenos leitores, mostrando que lá em 1933 havia mais racismo no Brasil e que não se deve tomar como padrão de conduta e valor o tipo de referência depreciativa que Lobato faz a negros.

Quem ainda discorda disso, tente, só por alguns minutos, imaginar-se negro, com um filho negro, ouvindo na escola seus herois personagens dizerem que bonito mesmo é só louro de olhos azuis e cabelos cacheados, e que os negros podem até ter uma bela sintonia com a sabedoria popular, mas a ciência está com a branca Dona Benta e seus netos brancos. Ah, e aqueles grossos lábios negros que você tem não são bem lábios, são beiços. Como os do gado.

A leitura de Lobato não fará de ninguém um racista. Mas seu racismo lido sem crítica em sala de aula não seria nada educativo.

(P.S. NO Globo, um “especialista” em Lobato reclama: “na época dele era diferente; estão lendo o Lobato com olhos de 2010″. É, compadre, são esses os olhos das crianças que recebem os livros didáticos distribuídos pelo MEC. Abra o seu.)

Presidenta – pode mas, por mim, não deveria

quinta-feira, novembro 4th, 2010

Este post já deveria estar pronto, engatilhado pra entrar no ar no domingo, mas quem disse que deu tempo de pesquisar e escrever?

O correto é presidente ou presidenta? E, mais importante que isso, por que eu implico tanto com a palavra presidenta?

Enfim, lamúrias de falta de tempo à parte, toda vez que me pinta uma dúvida crucial dessas deixo pro Manual de Redação do Estado de SPaulo (a melhor coisa já produzida naquele prédio do clã dos Mesquita) resolver tais dilemas existenciais, e só questiono se o argumento deles for muito risível (por exemplo, o jornal dos Mesquita recomenda que a principal cidade dos Estados Unidos seja grafada como Nova York, com Y e k, porque Nova Iorque é uma cidade maranhense. Oi? Se é pra escrever York com ípsilon e cá , usem também o New que vem de brinde e orna com York, como fazem os franceses: Je suis à New York. Vamos combinar que York precedida de Nova é de uma jequice sem par, né? Mas vejam a minha capacidade de dispersão: pra falar do feminino de presidente, fui parar em Nova Iorque!)

Ao voltar de Nova Iorque, com meu Manual do Estadão em mãos, lá fui eu verificar. É presidente ou presidenta? O Manual foi lacônico:

Presidente. Use presidente para homem e mulher: o presidente da República, a presidente da Câmara dos Vereadores.

Mas por que a presidente, se qualquer dicionário da língua portuguesa aceita a grafia presidenta - ainda que alguns a definam como a mulher do presidente, e não aquela que preside?

Fui ter a respeito com a Giovanna Valenza, que entende do assunto de forma razoável, por assim dizer: professora de latim para o direito, bacharel  e mestre em linguística pela Universidade Federal do Paraná (nas horas vagas, mãe do Ulisses, o bebê Odisseu :D , doceira de mão cheia e exímia jogadora de guitar hero, mas deixa isso prá lá. Isso não latte ;) )

Mas eu estava de prosa com a Giovanna, que revelou um detalhe básico: por sua morfologia, palavras terminadas em -ente podem simplesmente ser entendidas como:

o ente que [faz a ação do prefixo em questão].

em outras palavras (com trocadilho):

agente = o ente que age

ouvinte = o ente que ouve

palestrante = o ente que palestra

e, finalmente (que não vem a ser o ente que termina, fazfavor…)

presidente = o ente que preside.

Mas o que seria o ente, dona Bruxa?

de acordo com tio Antônio:

ente
substantivo masculino
1 o que existe, o que é; ser, coisa, objeto
1.1 o ser humano; pessoa, indivíduo
Ex.: e. querido
2 Derivação: por extensão de sentido.
tudo o que se crê existir
3 Rubrica: capoeira. Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
certo passo de capoeira
4 Rubrica: filosofia.
cada um dos múltiplos seres existentes e concretos da realidade circundante (os seres humanos, os seres vivos, os objetos do pensamento e da natureza etc.) que não se confundem com o ser em si, o Ser ou a realidade absoluta

Ou seja: o ser que preside, não importa seu sexo, é presidentE.

Presidenta é corruptela (o quê, dona bruxa?)

Corruptela

substantivo feminino

(…) 3 pronúncia ou escrita de palavra, expressão etc. distanciada de uma linguagem com maior prestígio social

Pra concluir, a opinião de um site português que (surpresa!) concorda comigo:
Quanto ao termo “presidente” (…) Deverá dizer-se “a presidente”. As palavras terminadas em -ente são comuns de dois. Nem estou a ver nenhuma excepção: a presidente, a consulente, a agente, a cliente, a parente, a regente, a servente, a suplente, a tenente, a combatente, a concorrente, a confidente, a delinquente, a descendente, a indigente, a paciente, a recorrente, a requerente, a adolescente, a sobrevivente, etc. Tal característica decorre do facto de estas palavras serem na generalidade provenientes do particípio presente dos verbos latinos, com o significado primitivo de “aquele ou aquela” que preside, que consulta a respeito de, que age, etc. A terminação da palavra tem que ver com a duração da acção, e não com quem a pratica (masculino ou feminino), que vem identificado apenas no artigo.
Mas boa mesmo é a conclusão no parágrafo anterior:
A língua é dinâmica, e a fortuna de um vocábulo advém do uso que lhe derem os falantes, sobretudo os falantes cultos da língua
Tudo isso pra concluir que minhas divagações de nada prestam, oras!
Se os dicionários aceitam presidenta, zifio, sijoga, faz o que você quiser.
Mas aqui neste caldeirão a Dilma será sempre presidente.
(Como é bom falar de coisas improdutivas que não envolvam o Vaticano, não?)

Votos de casamento não incluem greve do metrô de São Paulo

quarta-feira, novembro 3rd, 2010

Parei pra ler o post sobre o perrengue que o Fábio Pannunzio passou ao ficar trancado do lado de fora de casa, e não pude me furtar a lembrar de fato semelhante ocorrido com o marido.

Sei que não tem a ver com a linha editorial deste blog, mas e daí? O blog é meu quem decide o que vai ser postado aqui sou eu, oras! ;)

Morávamos em São Paulo, numa casa de sobrado no bairro da Aclimação, construída durante a II Guerra Mundial. A porta também era daquelas que não tem como abrir por fora, motivo pelo qual eu sempre deixava aberta a janelinha de vidro da parte de cima da porta, quando estava em casa. E, já prevendo que eu invariavelmente iria me trancar do lado de fora de casa, deixei uma cópia da chave não com um, mas com dois vizinhos prestativos. Um deles, a prima do marido.

Um belo dia, o metrô de SPaulo entrou em greve. O marido trabalhava num escritório no centro da cidade, a 30 minutos do sobrado da Aclimação. Eu trabalhava em Perdizes, mais longe pouquinha coisa – mas com o centrão da cidade no meio do caminho. Some-se a isso o fato de eu estar de carona com uma colega nesse dia.

Pois bem. Ao final do expediente, liguei pro marido e disse: “hoje vou chegar mais tarde em casa, lá pelas oito, nove da noite. Vou fazer hora com os amigos até o trânsito desafogar, tá bem?”. Estava, disse o marido, que rumou para casa a pé, pois os ônibus elétricos também estavam engripando àquela altura do campeonato.

Marido chegou em casa diapé. Feiticeirinho inda num tinha sido nem projetado, só tínhamos o Zé, nosso totó de estimação. Marido, então, decidiu levar o Zé pra passear, enquanto eu não chegava. Eram 18:30. Ele me liga:

- Ó, eu e Zé estamos neste momento saindo de casa pra dar um pass…. ah, não! Acabei de bater a porta e deixei a chave do lado de dentro!

- Toca na sua prima, pega a chave dela!

- Não tem ninguém em casa, o que que eu faço?

- Toca na casa 101, a fulana tem a chave, também.

Marido tocou na casa da fulana. Ela não estava em casa, só os pais. E eles não sabiam da chave.

Saíram marido, Zé e o iPhone do marido em peregrinação pelas ruas da Aclimação, enquanto a vizinha não chegava. A vizinha voltou, descobriu o perrengue, correu pra pegar a chave da nossa casa e… descobriu que a havia perdido!

19:15h. trânsito ardendo de estressado na cidade de São Paulo. Marido me liga, histérico:

- Você tem que vir pra casa agora! Eu estou trancado do lado de fora e só você pode abrir a porta! Minha prima só chega em casa às onze da noite!

Eu, sentada na mesa de um bar tomando Coca-cola, respondi:

- E por que eu tenho que sair feito louca no meio desse trânsito fidumaégua, inda mais que você sabe que eu tô de carona, zifio?

- Porque você é minha mulher, e você me juoru fidelidade!

- Jurei, sim!  Na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença! As juras não previam greve no metrô de São Paulo, não senhor! Tem que pedir revisão desse texto aí…

- Você tem que vir pra casa agora!

-  Não, senhor! O senhor é quem vai esperar pacientemente e, enquanto isso, pensar por que fechou a porta com a chave dentro de casa…

Marido não pediu o divórcio. Mas quase me matou naquela noite. Ao menos ele resolveu afogar as mágoas junto com o Zé na pizzaria do Nelito, na esquina de Turmalina com Espírito Santo.

Zé e marido entraram em casa naquela noite junto comigo. Às 20:45. Marido puto da vida. E o Zé resignado.

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