Arquivo por maio 11th, 2013

Ginger ale, os morfemas e as formas livres, presas e dependentes (#poção de morfologia nº3)

sábado, maio 11th, 2013

Tarra mesmo devendo a receita de ginger ale pros meus queridos encostos, daí eu aproveito essa receita pra uma nova Poção de Morfologia. Assim, mato dois coelhos com uma caixa d’água só (aprendi com Nardja Zulpério que é muito marpráteco e rápido matar dois coelhos enfiando-lhes uma caixa d’água dicumforça nazidéia do que ficar usando cajados, que são pequenos, estreitos e pouco práticos.)

(SÉRIO QUE FAZ VINTE ANOS QUE EU VI NARDJA ZULPÉRIO?!?!!? E QUE PROVAVELMENTE MUITOS DOS MEUS COLHÉGAS NEM ERAM NASCIDOS QUANDO ESSA PEÇA TARRA EM CARTAZ?!?!?! AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHH)

Mas deixemos os cajados e caixas d’água. Vamos então à nossa receita de ginger ale, que nada mais é do que um xarope de gengibre com club soda ( = água com gás) e suco de um limão. E, se você quiser, pode acrescentar vodka a gosto. Recomendo fortemente a vodka sabor vanilla (meu mote de 2013: #vodkavanillamelhoremtudo).

Morfemas! :DGinger Ale

Para o xarope de gengibre:

1 medida* de açúcar (pode ser mascavo. pode ser cristal. pode ser refinado.)

1 medida* de gengibre picado

1 medida* de água

(medida = se vc usar 1 xícara, será 1 xícara de tudo; se usar 200 xícaras, serão 200 xícaras de tudo)

Modo de preparo:

Levar os ingredientes para cozinhar em fogo alto. Quando levantar fervura, baixar o fogo e cozinhar por mais 15 minutos.

Deixe esfriar, e coe para tirar os pedaços do gengibre (dica: há agora no mercado filtros descartáveis que podem ser reaproveitados. Use esses filtros ou um guardanapo para coar o xarope, pois você vai ter que apertar e espremer o filtro pra tirar todo o caldo do meio dos pedaços do gengibre).

Modo de preparo do ginger ale

Em um copo alto, ponha um dedo de xarope de gengibre, suco de meio limão e complete com água gasosa (ou club soda). É um santo remédio contra gripes e resfriados. Ah! Vodka a gosto acompanha esplendorosamente – e lembre-se: álcool mata os germes, portanto a vodka também ajuda a curar resfriados (a folhinha de hortelã da foto é só uma frescurinha. Pode usar, mas ela fica melhor num mojito. E pinguça é a mãe!) #HIC! :D

Aí você me diz: “ah, Madrasta, vou fazer um Ginger ale diferente: troco o xarope de gengibre por açúcar puro, e em vez de suco de limão eu ponho limão cortado e amasso os pedaços dentro do copo. E em vez de vodka, ponho cachaça e muito gelo!”

E eu lhe digo: “ora, ameba, você trocou os ingredientes, seu ginger ale deixou de ser ginger ale e virou caipirinha!” ;)

Isto posto, vamos pensar aqui um cadim sobre essa receita que eu acabei de publicar (por favor, deixe a vodka pra depois):

O ginger ale nada mais é do que uma bebida resultante do blending (= como os frescos chamam a mistura) de diversos ingredientes que, depois de misturados, tornam-se a bebida. Se os ingredientes forem outros, a receita final também será outra, certo? (taí o seu ginger ale adulterado que virou caipirinha que não me deixa mentir!)

E se eu te disser que os ingredientes de uma receita são comparáveis a morfemas, e a bebida pronta é a palavra final?

RÁ! TE ENSINEI RAPIDINHO! :D

Para provar minha tese, me empreste a palavra irrealizável. Repare que ela é composta de um monte de pedaço que se junta à raiz (real), e, ao final das contas, informa que não é possível que o real seja passível de se concretizar. Acompanhe:

Ir real izá vel
Prefixo de negação raiz da palavra Terminação de verbo de 1ª conjugação com caráter frequentativo ou causativo (quem me contou isso foi tio Antônio Houaiss) (= passível de)

Então, cada um desses pedacinhos, ou morfemas, é um ingrediente da palavra final. Lindo, não?

Agora eu te digo que, de acordo com Flávia Carone,  vocábulo é uma unidade constituída de morfemas, e o morfema é a menor unidade significativa, que tem a propriedade de se articular com outras unidades de seu próprio nível. A palavra é a maior unidade. (Ou: ingredientes diferentes se misturam para compor receitas diferentes – e o prato / bebida final é a maior unidade nessa minha analogia). E você nem sentiu que eu joguei um conceito teórico em cima de você! RÁ DE NOVO!

Antes de prosseguir com minha tese, eu te pergunto: você chupa limão puro? Toma vodka pura? Come gengibre puro? Então, faça o favor de morrer pra não comprometer minha linha de raciocínio a seguir. Grata.

Leonard Bloomfield (aproveita o link e faz o download!) começou a definir vocábulo formal (sério que você pensou que a saga em torno da definição de palavra já tinha terminado? Tolinho… :D ) a partir de como o trem funciona na frase. E propôs duas unidades formais numa língua:

formas livres – elas se bastam para realizar a comunicação.

formas presas – só funcionam atreladas às formas livres.

Isto posto, temos que uma palavra pode ser composta de:

- uma forma livre mínima, indivisível: lua, sol

- duas formas livres mínimas: beija-flor, couve-flor, vaivém

- Uma forma livre e uma ou mais presas: en-luar-ado, en-sol-ar-ado

- apenas formas presas: im-pre-vis-ível

Aí veio seu Joaquim Mattoso Câmara Jr. com a seguinte notícia: precisa de mais sal nesse molho do Bloomfield. E insere o conceito de

- formas dependentes – elas ficam num espécie de limbo entre as formas livres e as presas: têm mais vida própria que as presas, mas não tão suficientes para se tornarem formas livres. Nesse conceito entram os artigos, preposições, algumas conjunções e pronomes oblíquos átonos: 

A expressão disse-me é composta de uma forma livre (disse, que sozinha já expressa uma comunicação, uma informação) e uma forma dependente da livre, o pronome oblíquo átono me, que sozinho não significa lá grandes coisas.

Como assim, madrasta?

Assim, ó:

Você pode tomar água apenas. Você pode até comer um pouquinho de açúcar (mas espera a sua mãe sair de perto, pra evitar bronca). Mas gengibre e limão, só acompanhados, sozinhos são intragáveis. Só presos a outros ingredientes limão e gengibre fazem sentido. Certo? (E lembre-se: quem consome limão puro e gengibre puro me fez o favor de morrer lá em cima pra não estragar minha teoria!)

E a vodka? Ah, a vodka sozinha não faz muito sentido. Ela depende sempre de algum trem pra se encher de formosura! \o/ ♥

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