Se um jornalista te pedir pra “conferir”, cuidado: ele quer que você faça o trabalho dele! (ô, raça!)
A coisa já vinha me incomodando há algum tempo. Pensei em fazer um post a respeito, mas preferia sempre enviar o link pra obra-prima do Hector Lima. Mas já que ele me autorizou, deixa eu kibar o texto dele. Kibada portuguesa: copio o texto, colo aqui, cito a fonte e dou o link pro site original, claro!
Enfim, ponha só uma coisa na sua cabeça: se alguém te pedir pra conferir alguma coisa, tá pedindo pra você verificar por conta própria se a coisa tá certa. Se um jornalista te pede pra fazer isso num texto, o que ele diz em síntese é o seguinte: ó, listei esses troço tudo aqui mas não conferi nada. Confira o que abre e o que fecha nesse feriado, porque eu não fiz o meu trabalho direito!
Mas deixemos que zifio Hector aborde o assunto:
Campanha pelo fim do ‘Confira’
Por Hector Lima [27.11.2009]
Esses dias um de nossos colaboradores perguntou por que eu havia editado seu texto e mudado o “confira” pra “veja”. Essa é uma questão que estou pra abordar faz tempo aqui na Goma, e vivia adiando pra não parecer chato nem metido, mas é algo importante para a saúde e o bem estar da população – então vamos lá:
Pare de usar o verbo CONFERIR no imperativo.
“Tá maluco, Hector?” Sim, maluco de amor pelos meus olhos e ouvidos. Eles sangram toda vez que ouço ou leio o verbo “conferir” ser usado no sentido de “veja”, “leia” ou “olhe” e afins.
No Jornalismo em geral é muito comum ele ser usado assim. Na TV não tem um dia em que eu não ouça pelo menos uma vez. Nas mídias impressa e digital a mesma coisa, talvez mais ainda. Mas o verbo ‘conferir’ não tem esse sentido. Veja:
Conferir
v.t. Verificar, ver se está certo.
Comparar, confrontar.
Dar, conceder, outorgar (prêmios, honrarias).
V.i. Estar exato, conforme: a cópia e o original conferem.
Sinônimos de Conferir
certificar, confirmar, corrobar, reconhecer e verificar
Dizer confira o texto [as imagens, a matéria etc] é a mesma coisa que dizer verifique pra ver se está certo. E não é isso que você está querendo dizer, né? Você não quer que seu leitor \ telespectador \ ouvinte seja um conferidor de uma lista de itens. Quer que ele “veja” ou “leia” aquilo que você quer apresentar.
Se o seu mundo caiu, sua cabeça explodiu e o chão parece ter sumido abaixo de seus pés, mal aê. Mas é isso. ‘Confira’ não deve ser usado para dizer ‘veja’, mas infelizmente muita gente faz esse uso errado. Nossos irmãos d’além-mar concordam.
Momento Prof. Pasquale: tudo bem… o uso, mesmo errado, força informalmente que certos casos tornem-se aceitos porque a língua evolui conforme o uso, não conforme as regras formais. O uso sempre causa a transformação. Isso rolou com ‘suporte técnico’, ‘liga pro suporte’, que é uma tradução literal do ‘support’ inglês. O certo seria usar ‘apoio’, ‘assistência [técnica,em alguns casos]‘. Mas com o uso acabou virando o sentido comum e aceito.
No caso do ‘conferir’ isso também pode acontecer e eu sou a favor da informalidade sempre, do popular, isso você já sabia. Mas no caso do ‘conferir’ isso é tão feio que eu não resisto. Morre um animal em extinção a cada vez que algum jornalista fala isso na TV, ou escreve em algum texto. É frescura minha, sim, mas é mais forte que eu, me recuso a aceitar.
Assim como todo mundo parou de usar “risco de vida” e trocou pra “risco de morte” é muito fácil fazer essa mudança – só começar a usar do jeito certo. Então é isso: pare de usar “confira”, prefira usar “veja”, “leia” e afins. Até “óia” tá valendo. Seu público e a Goma agradecem.
agosto 29th, 2011 at 12:21 PM
O Globo pediu que os leitores “confiram” uma comparação de preços de produtos da cesta básica em 1156 pontos de venda distribuidos em 20 cidades O.O
http://oglobo.globo.com/economia/mat/2011/08/26/levantamento-aponta-os-supermercados-mais-baratos-em-20-cidades-brasileiras-925226492.asp
setembro 1st, 2011 at 9:01 AM
Cara zifia bruxolescente,
Maravilha de artigo do Hector Lima, kibado com méritos e louvores.
Só tem uma coisinha: o-di-í-o-dío de paixão mortal e assassina esse tal de “risco de morte”. Se você está em risco de morrer, o que corre risco é a vida. Bobagem sem tamanho. Igual falar que não se corre atrás do prejuízo. Deixa o prejuízo correndo lá na frente pra ver o tombo que vc leva. Só odeio uma coisa mais do que isso: meu dileto “e/ou”.
SMJ, AMEC,
Seu criado, do fundo da terceira masmorra, quinta cela à direita de quem entra. Cuidado com o degrau e a porta baixa.
[]s
setembro 1st, 2011 at 12:20 PM
huahuahuahuahua! Eu entendo esse lance do risco de morte/risco de vida (na verdad,e o zifio está com a vida EM risco e com risco DE morte, mesmo…)
Mas uma que eu li por essas internetes afora me fez gargalhar: só está em risco de vida quem não toma anticoncepcional direito ou esquece de usar camisinha …
setembro 2nd, 2011 at 11:48 AM
Caríssima Bruxolescência, Colenda Rogadora (Ben)Emérita de Pragas Hemorroidais 3R (Renitente, Recorrente e Recalcitrante), PMMS (putativum mater malem scribentem),
Formalmente, ok. Minha versão agora (não necessariamente verdadeira, como todas versões).
Nos idos tempos de outrora (ah, como eram verdes meus vales*), quando se falava “risco de vida”, todo mundo entendia. Intentio auctoris, intentio operis e intentio lectoris convergiam para um mesmo ponto.
Ninaí, o povo da norma (o)culta (não consigo evitar a imagem de monges enclausurados, usando cilícios apertados e se autoflagelando, a pão e água, tentando se vingar do povo festeiro e mundano lá fora**), resolveu que tava errado. Cesjuram? VSF. Pruquê mexer em time que tá ganhando? Tem mais o q fazer não, piá? Vai catar coquinho na ladeira…
É esse tipo de ditadura normativa que me incomoda. O mesmo tipo que brigava com a pedra que tinha no meio do caminho…
QED, apmr
Seu criado, agora já na décima-terceira*** masmorra, salão comum desnumerado
*Mentira. Nunca foi verde não. Mas pelo menos admito isso.
** A imagem não é minha, mas não posso denunciar a autoria, foi pedido sigilo e confidencialidade.
*** ilações sobre meu petismo são espúrias. Ou não.