Anexos amestrados falam à Veja

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Há muito tempo que o que a Veja faz deixou de ser considerado jornalismo. Nem dona manipulação gosta de ser usada pra explicar aquilo ali, porque até ela tem seus princípios, coitada.

Mas o texto deste finde dá um exemplo legal pra mostrar aqui pra vocês do que a imprensa faz, do ponto de vista sintático-semântico, pra manipular um texto.

A cagada O exemplo pode ser visto na reportagem desta semana, que eu só li porque o Brito do Tijolaço me mandou.

Mas antes de tripudiar com a revista Veja, parênteses rápido pra pedir a Bênção pra Thomas Payne, linguista dos bão da universidade do Oregon.

É Payne quem explica um paranauê conhecido como aumento/redução de valência verbal. O livro dele traz um monte de exemplo de línguas mundo afora que enfiam um sufixozinho no verbo, e mudam o significado dele e passam ele de intransitivo pra transitivo, ou incluem mais um participante numa frase transitiva,

As línguas europeias (Inglês, português e etecéteras) só conseguem fazer esstrem de aumentar valência verbal incluindo uma oração antes da oração principal.

Assim:

  • O bebê come papinha

Temos uma frase típica em voz ativa. O bebê é o agente da oração, Aciona o verbo comer, que altera o estado final da papinha. A papinha, coitada, começou a frase inteira, e terminou devorada pelo bebê-agente. Temos um verbo transitivo de valência 2 (alguém come alguma coisa. é um verbo que precisa ocupar um lugar no sujeito e outro no objeto). Como proceder pra aumentar a valência dessa frase? Assim:

  • A mamãe faz o bebê comer papinha

E enfiamos na história uma superagente (mamãe), que reduz os poderes do agente da frase principal (bebê), de alterar o estado final do objeto (papinha), que não importa quem seja o agente, vai terminar a frase fatalmente comida. Mas ganhamos mais um participante da começão da papinha.

Tá. Aí vocês perguntam: Bruxa, e daí que mãe fazer bebê comer papinha é relevante?

Migos, essa frase daí de cima é clássica na aula de valência. Ela ajuda a explicar teteias como a que a Folha de SPaulo publicou em 23/10/2014:

  • Ambição faz Dilma dizer coisas nas quais não crê

Se lá em cima temos um superagente que faz sentido que tenha poderes sobre o agente (bebê), aqui temos um candidato fraquíssimo a agente (não é humano, nem animal, muito menos animado. É um substantivo abstrato.), que ainda assim comanda o agente Dilma, que perde os poderes sobre dizer coisas. É a ambição quem comanda o falar de Dilma. Observem que eu não fiz nada além de analisar sintatica e semanticamente a frase!

Captaram a sordidez da coisa?

Intâo. Fechemos os parênteses e vamos à Veja desta semana. (Sem links porque ninguém vai dizer que foi no blog da Bruxa que vcs pegaram um link da Veja. Sou Bruxa mas sou limpinha!)

O lance da Veja não tem muito a ver com valência verbal, mas também consegue ficar à direita da escala de agentividade também criada pelo Payne, que mostra que tipo de gente/coisa é mais propenso a ser agente de uma frase (spoiler: coisas inanimadas e ideias são os menos agentes, ou os agentes mais fracos/forçados.)

A história: a delação premiada do Marcelo Odebrecht. Veja “teve acesso a um anexo da delação premiada de Marcelo Odebrecht”. (Logo, conclui-se que Veja teve acesso a um pedaço de papel/arquivo cujo conteúdo trazia as declarações de Odebrecht).

Aí, lá no meio do primeiro parágrafo, temos a pérola:

Segundo os termos do anexo, Temer pediu “apoio financeiro” ao empresário. Marcelo Odebrecht, um campeão em contratos com o governo federal e um financiador generoso de políticos e campanhas eleitorais, prometeu colaborar.”

Segundo os termos do anexo. Não tem delação nem Marcelo Odebrecht escrito aí. É um anexo que tá falando. E “apoio financeiro” entre aspas é uma das maiores picaretagens lexicais para se evitar a palavra DI NHEI RO.

Qual o problema de dizer:

  • Segundo os termos do anexo, MARCELO ODEBRECHT DECLAROU QUE TEMER PEDIU “APOIO FINANCEIRO”?

É pra não repetir “Marcelo Odebrecht” na frase seguinte? Não tem problema! É só completar:

  • O empreiteiro, um campeão de contratos com o governo federal, (…)“.

E FICA CLARÍSSIMO!

Ao não dizer em momento algum “segundo os termos do Anexo, Odebrechet teria declarado que…”, Veja conseguiu transformar o que seria um reforçador de credibilidade jornalística (a fonte da declaração: um documento anexo com parte da delação de Marcelo Odebrecht) em atenuador e disfarçador de agente da frase (Temer pediu – vá lá – “apoio financeiro”).

Mas não tem problema, gente! Segundo nossa tonitruante imprensa, temos “termos do anexo” amestrados, que fazem Temer pedir “apoio financeiro”, assim como ambições amestradas, que fazem Dilma dizer coisas nas quais não crê.

E eu só fico imaginando Thomas Payne com aquela cara de MASGEEEMT!

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