Língua de índio – e você reclamando da crase! O_o

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Espero que antes de chegar aqui você tenha entendido, de uma vez por todas, que usar a construção “mim fazer” é gramaticalmente correto. Mim é sujeito do infinitivo, quer o seu professor ignorante de português queira ou não. e todas as outras línguas do mundo estruturadas no esquema sujeito-verbo-objeto aceitam apenas – e tão somente – o pronome objeto como sujeito do infinitivo.

Daí a ameba estufa o peito pra dizer que índio não sabe falar direito, é um ser muito primitivo.

Aham, sei.

Quer ver como as línguas indígenas brasileiras são primitivas (só que não)? Então, passo a palavra ao professor Aryon Dall’igna Rodrigues (jogue no Google e mooooooooorra de vergonha da sua insignificante existência!), no livro “Línguas Brasileiras – para o conhecimento das línguas indígenas”, das Edições Loyola (1994). O trechinho a seguir pode ser encontrado nas páginas 25 e 26. (e você deverá resistir à piadinha fácil com os dois últimos exemplos! É UMA ORDEM!)

Outro exemplo de diferentes organizações gramaticais pode ser observado nos demonstrativos. O Português tem um sistema relativamente complexo (mais complexo, por exemplo, que o do francês, o do inglês ou o do alemão), no qual a escolha do demonstrativo pelo falante é condicionada pela relação de proximidade entre o objeto assinalado e os interlocutores (este, perto do falante; esse, perto do ouvinte; aquele, afastado de ambos); pela especificidade do objeto designado (especificado: quero este mamão ou quero este; não-especificado: quero isto); pela classe gramatical (Gêneros masculino e feminino), do nome do objeto (este mamão; esta maçã); e pelo número (singular ou plural) do mesmo nome (este mamão, estas maçãs).

No Kadiwéu também há, como no Português, dois gêneros e dois números, que determinam a escolha dos demonstrativos, mas não é levada em conta a especificidade do objeto. Fatores adicionais de condicionamento da escolha são, entretanto, a dinamicidade do objeto, distinguindo-se entre objetos em movimento e objetos estáticos; no caso de objetos em movimento, distingue-se a orientação do movimento em relação ao falante: objetos que se aproximam e objetos que se afastam; no caso de objetos estáticos, distingue-se a posição destes: objetos longos em posição vertical ou objetos suspensos, objetos curtos não suspensos e objetos longos em posição horizontal. Exs:

nGida Goneleegiwa, “este homem” (masculino, singular, parado, em pé);
nGini Goneleegiwa “este homem” (masculino, singular, parado, sentado);
nGidi Goneleegiwa “este homem” (masculino, singular, parado, deitado);
nGada iwaalo “esta mulher” (feminino, singular, parada, em pé);
nGadi iwaalo “esta mulher” (feminino, singular, parada, deitada);
nGidiwa Goneleegiwadi  “estes homens” (plural, parado – no plural não se distingue o gênero nem a posição);
nGidjo Goneleegiwa “este homem” (masculino, singular, afastando-se);
nGina Goneleegiwa “este homem” (masculino, singular, aproximando-se);
nGana iwaalo  “esta mulher” (feminino, singular, aproximando-se);
nGinowa iwaalepodi  “estas mulheres” (plural, aproximando-se).

 

E há ainda um sexto valor que se manifesta nos demonstrativos dessa língua, o diminutivo:

nGidi iwooGo “este pau” (masculino, singular, parado, horizontal);
nGidida iwooGo “este pauzinho” (masculino, singular, parado, horizontal, diminutivo.

(RESISTA! EU TÔ MANDANDO!!!)

E você reclamando que não entende crase….

A partir de agora, em vez de dizer mim  não faz porque mim não é índio, complete a frase com mim é ameba preconceituosa!

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4 comentários sobre “Língua de índio – e você reclamando da crase! O_o”

  1. James comentou:

    Ótimo Texto!
    Só fiquei procurando o botão de share no fim do post, mas fica a dica.

  2. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Obrigada, zifio! Vou fazer uma reforma legal por aqui, uma das pendências é justamente a “fila da compartlhança”… 😀

    Abraços, e obrigada pela visita!

  3. Luiz Prata comentou:

    Como se lê o “w”: como “u” ou como “v”?

  4. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    como U! Lê-se Cadiuéu! Vou pôr essa observação no texto, obrigada pelo toque!

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