Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira, ou o Arcanjo Faxineiro. Fique com Deus, amigo!

Share Button
(Clique aqui para ir à página principal do caldeirão)

“Não fechar a frase, não.
Deixar a palavra ao relento.
Pensar as coisas de perto,
suar a imaginação.
Amar à solta a imaginação
por baixo do pensamento.
Poesia é conjugação
de sentir, em qualquer tempo”

Miguel Marvilla de Oliveira. Aqui no Caldeirão, ele era o "Arcanjo Faxineiro"

Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira. Aqui no Caldeirão, ele era o "Arcanjo Faxineiro"

“Nossa única riqueza é ver”

Engraçado o que acontece comigo, seja com o meu lado bruxa ou com meu eu verdadeiro. Sempre me dei bem na Internet. Por aqui conheci gente legal, inteligente e agradável. Um dos que eu conheci neste mafuá digital de conhecimento e besteira mais tarde veio a se tornar meu marido, o Fernando. E, dentre as várias outras pessoas reais que conheci aqui neste campo virtual, o Miguel foi estranhamente especial. Passou feito um rojão, e me marcou de forma agridoce.

Tomei conhecimento dele exatamente no dia 29 de julho, quando ele comentou este post. Já chegou descendo o sarrafo, mas pegou o espírito destas bandas: uma vez que o estrago já tá feito e não vai ser um comentário de blog que vai consertar um texto ruim lá na sua origem, então que se leve tudo na base da brincadeira. Até mesmo o fato de eu me apresentar como uma bruxa. Nesse mesmo post do Pasto bão, ele virou o anjo faxineiro. Botei ele pra espanar toda a sujeira da casa!

Ele gostou da alcunha, e passou a se divertir a rodo (com trocadilho, por favor! 😉 ) com o cargo conquistado. Desde então, não me deixava em paz. E eu me amarrava nos comentários dele – sim, porque ele fazia questão de comentar T-O-D-O-S os meus posts – e, após apertar o botão publicar do meu wordpress, ficava imaginando: que será que o Arcanjo vai comentar dessa vez?

Sabia que ele era rapaz do Espírito Santo, chegado a esta ou aquela poesia, porque já havia comentado comigo. Mas não sabia exatamente qual a verdadeira identidade do meu angelical e preferido faxineiro. E já estava estranhando o silêncio dele. Tudo bem que eu estava sem postar há algum tempo, mas até isso ele me cobrava.

Foi quando eu recebi este comentário aqui, da Priscila:


Enviado em 20/10/2009 às 23:03

Olá, moça.
Aqui é a esposa do Miguel. Não se ele te contou, mas ele era um escritor muito famoso aqui no nosso estado. Infelizmente ele faleceu no dia 10 de outubro e não teve tempo de te responder.
Ele gostava muito das suas críticas no blog. Passei por aqui para te avisar.
Abraços,

Olá, moça.

Aqui é a esposa do Miguel. Não sei se ele te contou, mas ele era um escritor muito famoso aqui no nosso estado. Infelizmente ele faleceu no dia 10 de outubro e não teve tempo de te responder.

Ele gostava muito das suas críticas no blog. Passei por aqui para te avisar.

Abraços,

Fiquei arrasada. E joguei no oráculo, que era como ele se referia ao Google. Descobri quem era meu faxineiro preferido, e o que aconteceu com ele neste link aqui:

Morreu na madrugada deste sábado (10) o escritor Miguel Marvilla de Oliveira, de 50 anos. Poeta,  contista e membro da Academia Espírito-santense de Letras, Miguel estava internado desde a última segunda-feira, quando começou a apresentar sintomas de meningite, o que, segundo os médicos, o levou a uma infecção generalizada. Durante o velório, na manhã deste sábado, amigos do escritor fizeram homenagens com leituras de poemas dele. Marvilla foi sepultado às 11h, no Cemitério Cruzeiro do Sul, em Cariacica

Lembro muito bem de quando a minha mãe estava aqui, antes de meu filho nascer. Nós nos divertimos a rodo com os comentários do Miguel. Ela chegou inclusive a cogitar que o Miguel fosse um amigo de juventude (mas não era).

Poderia ter intitulado este post com algo como …e o anjo foi pro céu. Mas me recuso a sujar tão brilhante memória com o mais reles do lugar-comum.

Daí eu reparei que no dia 12 de agosto ele passou por aqui, recitou Alberto Caeiro (um dos vários codinomes de Fernando Pessoa) e concluiu com esta observação:

O último verso é lapidar. E é o meu mote. Tá no meu brasão: “Nossa única riqueza é ver”…

Então, Miguel, esta será a primeira das minhas homenagens a você, querido amigo. O título deste post é o mote do seu brasão.

À família do Miguel ficam aqui meus sinceros sentimentos. Compartilho com vocês a esperança de que, a esta altura do campeonato, ele esteja cercado de almas da melhor estirpe: Fernando Pessoa, Álvaro Moreyra, Érico Veríssimo… cer-te-za de que está todo mundo tomando um chopinho celestial com os anjos lá em cima!

Ao longo desta semana, vou publicar por aqui alguns dos poemas lindíssimos do Miguel, que descobri web afora. E vou relembrar alguns comentários deliciosos que ele deixou por aqui pelo caldeirão.

É, meu amigo… agora você está ao ladinho do Alvaro Moreyra e do Fernando Pessoa… desfrute dessa companhia!

Quando passar minha tristeza pela sua perda, prometo fazer alguma piadinha com sua insubordinação em morrer sem me pedir autorização. Por enquanto, eu ainda estou triste demais pra essas gracinhas… Hoje vou postar dois textos seus. Um poema e um conto. Amei os dois.

O poema. Só não sei quando foi escrito. Mas agora ele soa irônico…

Deus! Ó, Deus! Sou eu…Este aqui, ó,

que acaba de perder o prumo

e veio tateando no escuro

cada palavra do caminho.


Sou este ser de pó, aquele amigo

do efeito lateral das sombras.

Não tenho nome, mas retiro

dos sons a minha substância homem.


Venho desdizer o que não disse:

que você não existia, e, se existisse,

não se importava comigo, o errante.


Este soneto acaba já, mas antes:

eu sei, você existe e, com certeza,

também ama comida japonesa.

O conto. Postado originalmente no blog Os mortos estão no living, homônimo do livro de contos e poemas que Miguel Marvilla lançou e que foi adotado nos vestibulares de 2007 a 2009 da Ufes.

Júlia D.: o banho
Já tinha perdido a escova de dentes e agora era o sabonete quem afluía neve sobre o corpo. A neve cheirava a algo assim como pitanga.
— Me dá um pedaço do teu sorriso?
Poderia. Não queria uma resposta sincera mesmo, queria?
— Deus criou o mundo… o mundo… o mundo…
O padre tinha uma voz tão bonita de sotaque castelhano…
— Doutor, eu queria ver Deus. Ia falar pra Ele das minhas visões. Sabe, sonhei com meu canário pardo, que morreu. Tinha uma esperança de liberdade apregoada em cada pena. Doutor, eu queria ser Deus!
O telefone. Se ao menos tivesse um, tocaria agora. Traria notícias?
— A esperança é sempre natal. Tão-somente haja, esperança é sempre fatal. Já ouviu falar de Cristo? Era um grande sujeito. Morreu de esperança.
— E o padre, doutor, é também um suicida?
Uma lágrima imitou o brilhar da lâmpada, descreveu um arco em torno da narina e trouxe-lhe um sabor de sal. Tudo doía. A mão, adormecida na torneira, esquecia-se de mover-se.
Um punhado de neve desabou de sobre o seio esquerdo.
Tinha todos os sintomas do belo. Não precisava de uma estrela nos cabelos. Não conseguia sequer precisar o momento exato de acionar a vida.
Ela, feto:
— Mamãe, é inadiável que se nasça? É mesmo preciso nascer, mamãe?
— Não sei. A solução apenas homologa a situação.
Outra lágrima tentou trafegar no mesmo sentido que a anterior, mas não chegou a completar a trajetória, por causa de um acidente qualquer da geografia do rosto. Havia uma taruíra no banheiro, porém esqueceu o grito antes mesmo que o forjasse. Era melhor não ter memória. Talvez fosse melhor nem existir.
Via pela janela um pedaço do céu, que era um pedaço do mundo. Toda ela era um pedaço da vida.
— Doutor, o padre…
— A vida…
— … não …
— … não …
— … é …
— … corresponde…
— … um louco!
— … à realidade.
— Doutor, eu quero saber de mim.
— É justo. Todas as crianças têm o dever da credulidade.
— Mas, crendo, adulteram o sentido primário da realidade: passam a ter desejos.
— Está bem. Resta-lhe uma saída: não creia em nada.
Black-out.
Black-out. Esperou a luz voltar e pensou em Deus criando o universo: era só apertar o interruptor.
Subitamente, percebeu que estava coberta de neve recendendo a pitanga e suicidou-se de frio.
Um toca-discos manchava o ar com uma valsa de Strauss.
Ninguém deu pela falta da morta. Então, ela se levantou e lavou toda neve do corpo.
Enquanto isso, foi vista pelo espelho, Deixou-se admirar. De fato, possuía belos seios, belos olhos, bela imaginação. Havia pouco de que se queixar, mas, agora, a vida lhe pesava nos ombros. Quanto tempo ainda de silêncio?
— Doutor, sou grávida por hierarquia. Porque minha mãe, minha avó, minha bisavó, todas as mulheres da minha família eram grávidas.
— A gravidez é um estado masculino de desprezo. Nascer, fazer nascer, são maneiras cômodas de não apresentar razões.
— Mas eu jamais quis ter este ser dentro da minha virgindade!
— Não tenha medo. Nem todas as mulheres geram Cristo. Algumas geram Marx. Quer me fazer crer que o orgasmo não substitui essa frustrada tentativa de não-existir? Então, ancore-se, pare de voar.
Estava nua. Como não se sentir mulher?
— Mamãe, é mesmo irremediável nascer?

Júlia D.: o banho

Já tinha perdido a escova de dentes e agora era o sabonete quem afluía neve sobre o corpo. A neve cheirava a algo assim como pitanga.

— Me dá um pedaço do teu sorriso?

Poderia. Não queria uma resposta sincera mesmo, queria?

— Deus criou o mundo… o mundo… o mundo…

O padre tinha uma voz tão bonita de sotaque castelhano…

— Doutor, eu queria ver Deus. Ia falar pra Ele das minhas visões. Sabe, sonhei com meu canário pardo, que morreu. Tinha uma esperança de liberdade apregoada em cada pena. Doutor, eu queria ser Deus!

O telefone. Se ao menos tivesse um, tocaria agora. Traria notícias?

— A esperança é sempre natal. Tão-somente haja, esperança é sempre fatal. Já ouviu falar de Cristo? Era um grande sujeito. Morreu de esperança.

— E o padre, doutor, é também um suicida?

Uma lágrima imitou o brilhar da lâmpada, descreveu um arco em torno da narina e trouxe-lhe um sabor de sal. Tudo doía. A mão, adormecida na torneira, esquecia-se de mover-se.

Um punhado de neve desabou de sobre o seio esquerdo.

Tinha todos os sintomas do belo. Não precisava de uma estrela nos cabelos. Não conseguia sequer precisar o momento exato de acionar a vida.

Ela, feto:

— Mamãe, é inadiável que se nasça? É mesmo preciso nascer, mamãe?

— Não sei. A solução apenas homologa a situação.

Outra lágrima tentou trafegar no mesmo sentido que a anterior, mas não chegou a completar a trajetória, por causa de um acidente qualquer da geografia do rosto. Havia uma taruíra no banheiro, porém esqueceu o grito antes mesmo que o forjasse. Era melhor não ter memória. Talvez fosse melhor nem existir.

Via pela janela um pedaço do céu, que era um pedaço do mundo. Toda ela era um pedaço da vida.

— Doutor, o padre…

— A vida…

— … não …

— … não …

— … é …

— … corresponde…

— … um louco!

— … à realidade.

— Doutor, eu quero saber de mim.

— É justo. Todas as crianças têm o dever da credulidade.

— Mas, crendo, adulteram o sentido primário da realidade: passam a ter desejos.

— Está bem. Resta-lhe uma saída: não creia em nada.

Black-out.

Black-out. Esperou a luz voltar e pensou em Deus criando o universo: era só apertar o interruptor.

Subitamente, percebeu que estava coberta de neve recendendo a pitanga e suicidou-se de frio.

Um toca-discos manchava o ar com uma valsa de Strauss.

Ninguém deu pela falta da morta. Então, ela se levantou e lavou toda neve do corpo.

Enquanto isso, foi vista pelo espelho, Deixou-se admirar. De fato, possuía belos seios, belos olhos, bela imaginação. Havia pouco de que se queixar, mas, agora, a vida lhe pesava nos ombros. Quanto tempo ainda de silêncio?

— Doutor, sou grávida por hierarquia. Porque minha mãe, minha avó, minha bisavó, todas as mulheres da minha família eram grávidas.

— A gravidez é um estado masculino de desprezo. Nascer, fazer nascer, são maneiras cômodas de não apresentar razões.

— Mas eu jamais quis ter este ser dentro da minha virgindade!

— Não tenha medo. Nem todas as mulheres geram Cristo. Algumas geram Marx. Quer me fazer crer que o orgasmo não substitui essa frustrada tentativa de não-existir? Então, ancore-se, pare de voar.

Estava nua. Como não se sentir mulher?

— Mamãe, é mesmo irremediável nascer?

Share Button

Publicado com o WordPress