O acidente crescido e a escala de agentividade da Folha de SPaulo

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Vocês podem falar o que quiserem da Folha de SPaulo. Só sei que ela sempre vem em meu socorro quando o blog fica parado. Eis que após quase um mês sem ter o que falar, a princesinha da Barão de Limeira me traz esta teteia aqui.

A história é a seguinte: paulistano reclamando da redução da velocidade nas Marginais, imposta pela CET do Haddad. (A velocidade caiu pra 70 Km/h, uma grandeza jamais atingida entre 7 da manhã e nove da noite, quando tem muito carro rodando por lá, mas quem sou eu pra falar disso, né verdade? Deixa isso pra lá).

Dona CET fez um estudo nas vias com velocidade mantida e nas que tiveram a velocidade reduzida. O número de acidentes fatais cresceu pra tudo quanto é lado, mas foi proporcionalmente menor nas vias com velocidade reduzida. O que pode fazer as pessoas concluírem que a redução da velocidade conteve o aumento de acidentes fatais nas vias mensuradas.

Aí chega o adjunto adverbial de tempo, que pode ser trequinho acessório pra dona sintaxe, mas pra dona semântica e Nossoa Senhora do Contexto ele faz uma diferença brutal. Esse estudo foi feito entre 2010 e 2014, e analisou a redução de velocidade implementada [atenção para os adjuntos adverbiais de tempo:] entre 2010 e 2012, durante a gestão Kassab. Ou seja: Haddad tem PORRA NENHUMA a ver com isso.

Mas o melhor de tudo no texto cometido pela Folha é a manchete. Lá em cima eu falei que o aumento foi proporcionalmente menor, né? Pois é. A folha me taca esta manchete:

“Acidente cresce menos onde limite de velocidade foi reduzido”

Cresce menos. Acidente cresce menos.

Agora vem aqui e pensa comigo. O que é mais factível? “O caçador matou o leão” ou “uma laranja matou o leão”?

Qual o poder que uma laranja tem para matar um leão, comparado ao poder de um caçador?

Quem entendeu a minha pergunta entendeu a ideia da escala de agentividade, proposta por Thomas Payne no livro Describing Morphosyntax – livro foda, diga-se de passagem. A escala de Payne nos incentiva a estourar umas boas pipocas quando a gente pensa na frase “acidente cresce menos”. Pensem no poder agentivo que um acidente tem de crescer ou não crescer por si só.

Mas tudo isso, claro, é culpa do Haddad. Como ele mandou reduzir a velocidade das marginais HÁ UMA SEMANA, a culpa é dele, claro. Sempre. Aliás, se chover e esfriar hoje em São Paulo, a culpa é do Haddad.

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