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Objetivando disponibilizar textos terceirizados [2]: Sérgio Leo e o quiproquó de Monteiro Lobato

quinta-feira, novembro 4th, 2010

Eu tava mesmo achando essa história toda de MEC versus Monteiro Lobato muito mal contada. Daí veio o Sérgio Leo e contou tudo direitinho. Obrigada à Maria Frô pelo link enviado via Twitter. \o/

Nada mais me resta senão dar aquela kibada portuguesa: peço autorização ao autor, copio o texto, cito a fonte e dou o link pro texto original.

(até porque uma frase do teor de o texto do MEC mereceria surra com vara de marmelo de tia Nastácia; “olhares com que se olham” e “laços que enlaçam” são de amargar é típica de um dileto ectoplasma suíno a exorcizar texto de ameba escrevente. Tenho que amar, tenho sim! 😀 )

Fiquemos, pois, com a palavra de Sérgio Leo:

*****

Foi tópico de sucesso no Twitter: “MEC veta livro de Monteiro Lobato”. E centenas de tweets indignados falavam em obscurantismo, babaquice políticamente correta, exagero.

Suspeito que grande parte sequer leu as obras de Lobato; conheceu o gênio pela adaptação do Sítio do Picapau Amarelo na TV. Perderam as delciiosas ilustrações de André Le Blanc, o texto maravilhoso do autor e… seu mórbido racismo. Na adaptação da obra para a TV, caparam o texto de Lobato para eliminar o racismo (e não só isso), e ninguém reclamou.

O que o MEC diz: o livro distribuído tem até um prefácio alertando para as impropriedades ambientais de Pedrinho, mas nada para alertar sobre o racismo. Só deve ir para as escolas se ese tema for tratado com a atenção que merece. Alguém contra isso por aí? Caramba, essa obra é para educar as crianças!

(Vi depois, claro, os críticos de sempre aproveitando o escândalo para apontar “jequice” no governo. É hilariante ver gente citando o Jeca Tatu de Lobato, outro fruto do preconceito do autor. Esse, Lobato corrigiu ainda em vida: num texto posterior ao Urupês, pede desculpas ao jeca, porque seu texto original e preconceituoso o culpava pelo atraso e, depois, o escritor descobnriu que sua aparente indolência era doença, resultado do péssimo sistema de saúde pública)

Do racismo, falei no post anterior. Vamos falar de outra coisa que mencionaram sem ler, o parecer do MEC. Muito lidas foram as matérias de jornal, que simplificaram ao ponto de desfigurar o parecer. Ele recomendou não incluir o livro “Caçadas de Pedrinho” entre as obras distribuídas à rede escolar, ou, distribuindo, acrescentar textos chamando atenção para o racismo embutido no texto, explicável pelas circunstãncias da época em que foi escrito.

Não é um arrazoado medieval o parecer do MEC, pelo contrário. Está repleto de referências elogiosas ao Lobato, e há comentários sobre como não se trata de banir seus livros das bibliotecas. Diz a nota técnica, segundo o parecer do MEC:

A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro.

Mas tem mais.

O parecer nota, ainda, que a edição bem cuidada do livro incluiu até uma introdução para chamar atenção sobre os avanços da legislação ambiental _ que já não permitiria Pedrinho nem seus fãs sairem caçando animais silvestres por aí. Mas sobre os estereótipos preconceituosos do negro e da África, não há nada. Está no livro:

“Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje. (p. 19).” [OK, nota da Bruxa, porque eu num mi posso com essas coisas: zifio, o Ibama inda nem existia, como é que ele podia proteger da extinção uma espécie que…er… bem… inda num tava em extinção?]

Nota o parecer:

“Todavia, o mesmo cuidado tomado com a inserção de duas notas explicativas e de contextualização da obra não é adotado em relação aos estereótipos raciais presentes na obra, mesmo que estejamos em um contexto no qual têm sido realizados uma série de estudos críticos que analisam o lugar do negro na literatura infantil, sobretudo, na obra de Monteiro Lobato e vivamos um momento de realização de políticas para a Educação das Relações Étnico-Raciais pelo MEC, Secretarias Estaduais e Municipais de Educação.”

Segue o texto:

Não se pode desconsiderar todo um conjunto de estudos e análises sobre a representação do negro na literatura infantil (Gouveia, 2005; Lajolo, 1998; Vasconcelos, 1982; entre outros)1, os quais vêm apontando como as obras literárias e seus autores são produtos do seu próprio tempo e, dessa forma, podem apresentar por meio da narrativa, das personagens e das ilustrações representações e ideologias que, se não forem trabalhadas de maneira crítica pela escola e pelas políticas públicas, acabam por reforçar lugares de subalternização do negro.

A questão foi levantada por um pesquisador da UnB que trata da temática racista em obras literárias. Não duvido que haja exageros na crítica do pesqusiador; reclamar contra o tratamento dado aos “animais da África” nos textos é ir um pouco além do combate ao racismo. Mas o fato é que há, sim, racismo nas obras de Lobato, e o drama do MEC é como lidar com isso. Não se pode simplesmente derramar o racismo de um fazendeiro paulistano genial dos anos 30 sobre a cabeça das crianças negras, brancas e pardas do século XXI.

Pela lei Afosno Arinos, aliás, se Emília dissesse as barbaridades que diz dos “beiços” e da feiúra de “preta” de tia Nastácia, ela iria para a cadeia de Taubaté com a velocidade de quem cheira pó de pirlimpimpim. (Aliás, o bom senso impediu até hoje que se perseguissem os livros de Lobato como incentivadores do uso da droga. mas ninguém reclamou também que a versão da TV tenha expurgado o pó mágico que dá charme à narrativa lobatiana: não tem crianças cheirando nada para viajar nas Reinações de Narizinho televisivas).

Mais parecer:


b) cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor;
c) caso algumas das obras selecionadas pelos especialistas, e que componham o acervo do PNBE, ainda apresentem preconceitos e estereótipos, tais como aqueles que foram denunciados pelo Sr. Antônio Gomes Costa Neto e pela Ouvidoria da SEPPIR, a Coordenação-Geral de Material Didático e a Secretaria de Educação Básica do MEC deverão exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura. Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante.

E, ainda:

“A literatura pode ser vista como uma das arenas mais sensíveis para que tomemos providências a fim de superar essa situação. Portanto, concordando com Marisa Lajolo (1998, p. 33) analisar a representação do negro na obra de Monteiro Lobato, além de contribuir para um conhecimento maior deste grande escritor brasileiro, pode renovar os olhares com que se olham os sempre delicados laços que enlaçam literatura e sociedade, história e literatura, literatura e política e similares binômios que tentam dar conta do que, na página literária, fica entre seu aquém e seu além.

Diante do exposto, constata-se a necessidade de formulação de orientações mais específicas às escolas da Educação Básica e aos sistemas de ensino na implementação da obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos currículos.”

OK, o texto do MEC mereceria surra com vara de marmelo de tia Nastácia; “olhares com que se olham” e “laços que enlaçam” são de amargar [<==== ectoplasma suíno detectado. Meus comentários fazem-se desnecessários ===>]. Mas vejamos o voto da relatora Nilma Lino Gomes:

Nos termos deste parecer, à vista do disposto no Parecer CNE/CP nº 3/2004 e na Resolução CNE/CP nº 1/2004, é essencial considerar o papel da escola no processo de
educação e (re)educação das (e para as) relações raciais, a fim de superar o racismo, a discriminação e o preconceito racial. A despeito do importante caráter literário da obra
de Monteiro Lobato, o qual não se pode negar, é necessário considerar que somos sujeitos da nossa própria época, porém, ao mesmo tempo, somos responsáveis pelos desdobramentos e efeitos das opções e orientações políticas, pedagógicas e literárias assumidas no contexto em que vivemos.

Nesse sentido, a literatura em sintonia com o mundo não está fora dos conflitos, das tensões e das hierarquias sociais e raciais nas quais o trato à diversidade se realiza. São situações que estão presentes nos textos literários, pois estes fazem parte da vida real. A ficção não se constrói em um espaço social vazio.

Em resumo, um pesquisador sensibilizado pela luta anti-racista denunciou o livro como contrário ás diretrizes estabelecidas pelos professores para o livro didático, os especialisats do MEC analisaram a denúncia e tiveram de admitir que a obra tem elementos racistas e concluíram que, do jeito que está, não deve constar da lista de distribuição, a menos que tenha uma orientação ao professor e aos pequenos leitores, mostrando que lá em 1933 havia mais racismo no Brasil e que não se deve tomar como padrão de conduta e valor o tipo de referência depreciativa que Lobato faz a negros.

Quem ainda discorda disso, tente, só por alguns minutos, imaginar-se negro, com um filho negro, ouvindo na escola seus herois personagens dizerem que bonito mesmo é só louro de olhos azuis e cabelos cacheados, e que os negros podem até ter uma bela sintonia com a sabedoria popular, mas a ciência está com a branca Dona Benta e seus netos brancos. Ah, e aqueles grossos lábios negros que você tem não são bem lábios, são beiços. Como os do gado.

A leitura de Lobato não fará de ninguém um racista. Mas seu racismo lido sem crítica em sala de aula não seria nada educativo.

(P.S. NO Globo, um “especialista” em Lobato reclama: “na época dele era diferente; estão lendo o Lobato com olhos de 2010”. É, compadre, são esses os olhos das crianças que recebem os livros didáticos distribuídos pelo MEC. Abra o seu.)

Presidenta – pode mas, por mim, não deveria

quinta-feira, novembro 4th, 2010

Este post já deveria estar pronto, engatilhado pra entrar no ar no domingo, mas quem disse que deu tempo de pesquisar e escrever?

O correto é presidente ou presidenta? E, mais importante que isso, por que eu implico tanto com a palavra presidenta?

Enfim, lamúrias de falta de tempo à parte, toda vez que me pinta uma dúvida crucial dessas deixo pro Manual de Redação do Estado de SPaulo (a melhor coisa já produzida naquele prédio do clã dos Mesquita) resolver tais dilemas existenciais, e só questiono se o argumento deles for muito risível (por exemplo, o jornal dos Mesquita recomenda que a principal cidade dos Estados Unidos seja grafada como Nova York, com Y e k, porque Nova Iorque é uma cidade maranhense. Oi? Se é pra escrever York com ípsilon e cá , usem também o New que vem de brinde e orna com York, como fazem os franceses: Je suis à New York. Vamos combinar que York precedida de Nova é de uma jequice sem par, né? Mas vejam a minha capacidade de dispersão: pra falar do feminino de presidente, fui parar em Nova Iorque!)

Ao voltar de Nova Iorque, com meu Manual do Estadão em mãos, lá fui eu verificar. É presidente ou presidenta? O Manual foi lacônico:

Presidente. Use presidente para homem e mulher: o presidente da República, a presidente da Câmara dos Vereadores.

Mas por que a presidente, se qualquer dicionário da língua portuguesa aceita a grafia presidenta – ainda que alguns a definam como a mulher do presidente, e não aquela que preside?

Fui ter a respeito com a Giovanna Valenza, que entende do assunto de forma razoável, por assim dizer: professora de latim para o direito, bacharel  e mestre em linguística pela Universidade Federal do Paraná (nas horas vagas, mãe do Ulisses, o bebê Odisseu :D, doceira de mão cheia e exímia jogadora de guitar hero, mas deixa isso prá lá. Isso não latte 😉 )

Mas eu estava de prosa com a Giovanna, que revelou um detalhe básico: por sua morfologia, palavras terminadas em -ente podem simplesmente ser entendidas como:

o ente que [faz a ação do prefixo em questão].

em outras palavras (com trocadilho):

agente = o ente que age

ouvinte = o ente que ouve

palestrante = o ente que palestra

e, finalmente (que não vem a ser o ente que termina, fazfavor…)

presidente = o ente que preside.

Mas o que seria o ente, dona Bruxa?

de acordo com tio Antônio:

ente
substantivo masculino
1 o que existe, o que é; ser, coisa, objeto
1.1 o ser humano; pessoa, indivíduo
Ex.: e. querido
2 Derivação: por extensão de sentido.
tudo o que se crê existir
3 Rubrica: capoeira. Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
certo passo de capoeira
4 Rubrica: filosofia.
cada um dos múltiplos seres existentes e concretos da realidade circundante (os seres humanos, os seres vivos, os objetos do pensamento e da natureza etc.) que não se confundem com o ser em si, o Ser ou a realidade absoluta

Ou seja: o ser que preside, não importa seu sexo, é presidentE.

Presidenta é corruptela (o quê, dona bruxa?)

Corruptela

substantivo feminino

(…) 3 pronúncia ou escrita de palavra, expressão etc. distanciada de uma linguagem com maior prestígio social

Pra concluir, a opinião de um site português que (surpresa!) concorda comigo:
Quanto ao termo “presidente” (…) Deverá dizer-se “a presidente”. As palavras terminadas em -ente são comuns de dois. Nem estou a ver nenhuma excepção: a presidente, a consulente, a agente, a cliente, a parente, a regente, a servente, a suplente, a tenente, a combatente, a concorrente, a confidente, a delinquente, a descendente, a indigente, a paciente, a recorrente, a requerente, a adolescente, a sobrevivente, etc. Tal característica decorre do facto de estas palavras serem na generalidade provenientes do particípio presente dos verbos latinos, com o significado primitivo de “aquele ou aquela” que preside, que consulta a respeito de, que age, etc. A terminação da palavra tem que ver com a duração da acção, e não com quem a pratica (masculino ou feminino), que vem identificado apenas no artigo.
Mas boa mesmo é a conclusão no parágrafo anterior:
A língua é dinâmica, e a fortuna de um vocábulo advém do uso que lhe derem os falantes, sobretudo os falantes cultos da língua
Tudo isso pra concluir que minhas divagações de nada prestam, oras!
Se os dicionários aceitam presidenta, zifio, sijoga, faz o que você quiser.
Mas aqui neste caldeirão a Dilma será sempre presidente.
(Como é bom falar de coisas improdutivas que não envolvam o Vaticano, não?)

Objetivando disponibilizar posts terceirizados – Obrigada, Globo Esporte! \o/

domingo, outubro 17th, 2010

Este post daqui foi publicado hoje no site do Globo Esporte.

Mas poderia ter sido feito por esta que vos fala.

Por isso mesmo, limito-me a fornecer o link apenas.

Essas coisas me enchem de orgulho, viu?

Madrasta do Texto Ruim fazendo escola! A-mey! \o/

Obrigada, Globo Esporte!

A puta falta de sacanagem e a safadeza oculta são filhas do salto triplo carpado hermenêutico?

quinta-feira, setembro 23rd, 2010

Gente, estou totalmente inlóvi com essas expressões que pululam Internet afora…

A primeira foi a puta falta de sacanagem. Surgiu num vídeo no qual um grupo de adolescentes aguardava um show de rock que acabou não acontecendo. No vídeo daí de cima, aos 1:35 aparece a menina proferindo a pérola. Puta falta de sacanagem é uma sacanagem exacerbada, né? O fato é que a expressão, por assim dizer, agregou valor (Ok, me crucifiquem) à já combalida sacanagem pura e simples.

Aí chegamos na safadeza oculta.

Tadinha, gente! Um protótipo de Madrasta do Texto Ruim, com hormônios à flor da pele! A menina num aprendeu a relevar os errinhos de dedo que esta que vos fala já ignora. Quer dizer, uma pessoa que escreve esotu em vez de estou não pode falar mal de quem escreve RDB no lugar de RBD, né? Pô, tava querendo ganhar dinheiro em vez de ir a show de banda adolescente, uai…

O fato é que a mocinha daí de cima cunhou uma nova e deliciosa expressão: safadeza oculta (aos 20 segundos). Mais uma vez, agregou valor (meus pulsos, podem cortá-los) à safadeza pura e simples, já tão banalizada neste país e aqui eu interrompo meu raciocínio pra não cair na esparrela do lugar-comum.

Pois então nós saímos do universo adolescente, repleto de hormônios e exageros e exacerbações e coisas do tipo, e após breve planagem sonífera, caímos estatelados por sobre o Supremo Tribunal Federal deste país, cujas paredes ouviram coisa muito mais complexa.

Porque quando você ouve puta falta de sacanagem, ou safadeza oculta, você pode até levar um tempinho pra entender como usar, mas basta dizer em voz alta duas ou três vezes que você já fica íntimo das expressões, e começa a usá-las sem pestanejar.

Mas quando o presidente do Supremo Tribunal Federal, durante sessão plenária pra dizer se, no frigir dos ovos, a lei da Ficha Limpa tá valendo ou não tá, questiona a constitucionalidade por causa de um tempo verbal e ouve do colega Ayres Britto que o argumento dele é um salto triplo carpado hermenêutico, geral se arrepia e fica com medo da coisa, né?

Mas calma que esta bruxa que vos fala vai pedir ajuda ao tio Antônio. Vamos partir do princípio que o togadíssimo magistrado valeu-se de imagens de ginástica artística para construir seu neologismo. Então, todos sabemos que salto triplo é um salto dificílimo de dar.

Daí, vamos pedir ajuda pro tio Antônio explicar o que que acontece se o salto triplo fica carpado:

Carpado

executado com o corpo dobrado nos quadris, pernas esticadas sem flexão dos joelhos e pés distendidos (diz-se, p.ex., de salto ornamental)

Quer dizer, eu já me estrebuchei no chão e quebrei o pescoço. A manobra que já era difícil contraiu ares impossíveis.

E o hermenêutico? É pra travar a língua? Bom, tio Antônio avisa que hermenêutico é tudo o que for relativo à hermenêutica, que, por sua vez, é…

Hermenêutica

ciência, técnica que tem por objeto a interpretação de textos religiosos ou filosóficos, esp. das Sagradas Escrituras

2 interpretação dos textos, do sentido das palavras

3 Rubrica: semiologia.

teoria, ciência voltada à interpretação dos signos e de seu valor simbólico

4 Rubrica: termo jurídico.

conjunto de regras e princípios us. na interpretação do texto legal

Ou seja: é tudo interpretação de textos… (ufa!)

Quer dizer, então, que o salto triplo carpado hermenêutico é um texto cuja interpretação difícil ficou mais difícil ainda?!?!?!  Ou é uma tentativa de complicar o que seria simples?

Ou seria um melangê de jenessequá? (do francês melangé de je ne sais quoi, ou mistura de não-sei-quê – copyright Madrasta do Texto Ruim. Autorizada a reprodução dessa expressão! 😀 )

Ah, desisto de entender. Mas nasceu hoje nesta terra de Cabral mais uma expressão recauchutada, o salto triplo carpado hermenêutico. Que, por sua pompa e circunstância, é pai (talvez avô, bisavô ou trisavô) das irmãs quase gêmeas puta falta de sacanagem e safadeza oculta. Os três adoráveis – ainda que o vôzinho seja meio estranho e de difícil… er… hermenêutica? 😉 Ainda assim, a-moooooooooo!

Mas aprecie com moderação.

Azenha e o lugar-comum

sábado, junho 26th, 2010

Curti muito esse texto do Luiz Carlos Azenha. Foi originalmente publicado aqui. Reproduzo-o no caldeirão, devidamente autorizada (\o/)  pelo autor. Mas vou voltar à questão em outro post. Ainda há muito o que se escrever (e se exorcizar) de e sobre o lugar-comum!

Detonando o lugar comum: Camisa não ganha jogo
por Luiz Carlos Azenha
Minha carreira começou no esporte. Eu ainda era menino quando assinava uma coluna, chamada Síntese, no Jornal da Cidade de Bauru. Era um resumo dos resultados de competições que não cabiam na página principal de esportes: campeonato internacional de xadrez (nos tempos de Karpov e Mequinho), de automobilismo (Carlos Reutemann e Emerson Fittipaldi), de tênis (Martina Navratilova, Thomas Koch e Bjorn Borg). Meu grande prazer, nesta época, era entrar no quarto escuro para revelar as radiofotos que chegavam via United Press International. Era inacreditável ver aquelas imagens feitas algumas horas antes em Nova York, Moscou ou Berlim.
Experimentei na pele o desprezo dos “jornalistas sérios” em relação aos assim chamados “cronistas esportivos”. Voltei a atuar no ramo bem mais tarde, como repórter da Fórmula Indy, viajando o mundo. Reconheço que é uma luta evitar o lugar comum e que me rendi muitas vezes à cobertura esquemática, aquela em que você confunde o esporte com as emoções pessoais dos competidores, um truque conveniente quando se trata de atrair o público. É o que chamo de “personagismo”.
Ao olhar em retrospectiva, no entanto, fico pasmo de ver a longevidade de alguns destes lugares comuns da chamada “crônica esportiva”. Essa história de que camisa ganha jogo, por exemplo. Ouço isso desde a Copa do Mundo do México, em 1970, quando ainda não trabalhava no jornal. Ouvi isso nas copas que cobri pessoal ou indiretamente (1990, na Itália; 1994, nos Estados Unidos; 1998, na França; 2002, com reportagens especiais na Índia, Serra Leoa, El Salvador e Honduras; e 2006, em Gana).
Diz-se que esta ou aquela seleção ganha jogo por conta meramente da tradição. Do peso da camisa. Um lugar comum derrotado espetacularmente na Copa da África do Sul, quando a campeã mundial e a vice foram eliminadas ainda na primeira fase.
Aceito que existam “escolas de futebol” distintas e que a força destas escolas seja maior ou menor, dependendo da geração de jogadores. Há escolas, como a do Uruguai, que às vezes mergulham em sono profundo, para renascer mais adiante. Há escolas que surgem e se consolidam, como parece ser o caso agora dos Estados Unidos e do Japão.
Mas a ideia de que uma simples camisa ganha jogo é tão absurda que deveria pertencer à categoria do “sobrenatural de almeida”, o personagem de Nelson Rodrigues que salvava goleiros, defendia pênaltis e fazia gols no Maracanã. Só aceitamos este absurdo porque estamos anestesiados pela quantidade de idiotices e lugares comuns que nos são servidos cotidianamente sob o rótulo de “jornalismo esportivo”. Pelo menos lá atrás, no tempo do Nelson Rodrigues, os cronistas e narradores edulcoravam suficientemente os jogos a ponto de fazer um Juventus x Noroeste parecer um confronto de titãs na rua Javari.
A televisão acabou com os gols espetaculares, os dribles mágicos e os ataques infernais narrados pelo Fiori Gigliotti (“Conhaque Presidente, uma bebida quente, uma dilícia de conhaque”) e nos deu, em troca, estatísticas sobre quantas vezes o jogador cospe em campo. O lugar comum, este é o mesmo desde quando o Noroeste era escalado assim: Roque, China, Tecão, Araújo e Dé; Lorico e Zé Mário; Jáder, Zé Rubens, Rodrigues e Julinho. Se tradição ganhasse jogo o Noroeste, que é de 1910, seria campeão brasileiro.


The funhanhation

quarta-feira, junho 16th, 2010

Dominada e rendida que estou com caixas de mudança em minha nova residência, agora no Planalto Central, eu meique deixo amebas escreventes e ectoplasmas suínos se digladiando por aí sem minha intermediação, porque como vocês já sabem, meus poderes limitam-se apenas ao exorcismo do português meia-boca. Quisera eu ser uma Samantha Stevens, mexer meu nariz e ter minha casa limpa, arrumada e em ordem. [Suspiro].

Mas deixemos divagações de mudança de lado, porque eu a-mei a expressão que a candidata do PT à presidência da República, Dilma Roussef, abiscoitou do locutor da Rádio Planeta Diário, de São José dos Campos. Como você podem ver neste link aqui (da folha, malzaê…), por inspiração do locutor da rádio (Planeta Diário, já é uma piada pronta…), dona ex-ministra disse que o presidente Lula assumiu um país funhanhado.

A sonoridade da palavra é deliciosa.  Bem brasileira mesmo. Mas que diabos esse troço significa? Tio Antônio fez cara de ué (outra expressão deliciosa e irretocável, também abiscoitada por dona ex-ministra do locutor da rádio) pra mim. Quem resolveu o dilema foi o senhor Google, que me forneceu este link.

Então, se funhanhado significa leso, estragado ou amasiado (Fulano está funhanhado com fulana), essa expressão é prima do trubisco e do fuzilico, lembram?

Daí que eu sou obrigada a defender dona Dilma neste meu caldeirão. Estou desde o início do ano torcendo por uma derrapada de dona candidata com a Língua Portuguesa, pra que ninguém me acuse de ser contra o Serra. Não tenho culpa se quando o candidato do PSDB fala ou ele é defendido por jornalistas smartões ou ele dá detalhe com a Flor do Lácio…

Por isso, tenho que discordar do Augusto Nunes, que afirmou que a “Dilma não domina nenhum nível do idioma”. Naonde que ele concluiu isso? Olha, a Dilma sabe, sim, falar português fluentemente… Não tenho provas contra ela, e olha que eu tô atrás, viu?

No mais, antes de falar mal do português dos outros, legal mesmo é fazer um título mais claro e com menos palavras, né não?

Porque o título

UOL explica que Dilma disse ‘funhanhado’ e Celso Arnaldo desvenda mais um mistério

Embaixo da “seção direto ao ponto” nada mais é que uma piada pronta… a notícia é sobre quem, zifio? UOL, Dilma, Celso Arnaldo, funhunhação, declaração  ou mistério? Escolhe, pô!

Título mais funhanhado, credo…. 😀

Ectoplasma mesmítico não tem vez em Brasília

quarta-feira, maio 5th, 2010

Sói qeria dizer isso pra vocês, tá?

É que aqui, no Planalto Central (Tô de mudança. Não queiram saber o porquê.), tudo quanto é tipo de assombração e de encosto pode ter vez, menos o ectoplasma mesmítico (sabem o mesmo, que encontra-se parado no andar quando você chama o elevador? É ele… mesmo! 😀 ).

Porque nesta cidade os caboclos podem não respeitar uma série de normas ou de leis, mas o bom texto pelo menos ainda tem vez na Capital Federal.

Ó só como ficou o aviso da plaquinha dos elevadores:

Viu? Não precisa usar o mesmo porque é feio – e errado. Para estes casos, os pronomes pessoais do caso reto (mais precisamente o ele da plaquinha daí de cima)  atendem perfeitamente às necessidades do cliente, como dizem algumas amebas por aí…

CQD – como queríamos demonstrar (o comando pra criar link não tá funcionando no wordpress. quando ele voltar a funcionar, eu arrumo o post. Por enquanto, basta clicar no link ao lado. Grata. http://www.objetivandodisponibilizar.com.br/?p=53).

Antes que falem: o pronome reflexivo se está muito bem à frente do encontra. A frase em questão está exatamente como os brasileiros falam no dia-a-dia. Pelas normas cultas, pode ser questionável – mas pelo uso cotidiano, está mais que natural.

E rezem pra que a minha mudança seja rápida e sem traumas. Ninguém merece mudança interestadual a toque de caixa, com um bebê de nove meses e um cachorro vira-latas a tiracolo (não perguntem. Apenas rezem. Obrigada.)

Suco de maracujá

terça-feira, abril 27th, 2010

Letra genial de João Donato e Martinho da Vila:

Pra me casar com você
Eu vou ter que me cuidar
Contratar um personal
Treiner pra me acelerar
Também vou ter de fazer
Uma dieta alimentar
Catuaba no almoço e ostras antes do jantar
Quando a gente for deitar
Um bom pó de guaraná
Se a quentura tiver morna
Come um ovo de codorna
E se a noite for infinda
Aí só Pau de Cabinda
Se ela quiser bis no fim
Pimenta no amendoim
E depois pra me acalmar
Suco de maracujá

Frase do dia

sábado, abril 3rd, 2010

Cabei de ouvir essa frase genial do Ruy Castro:

Ler é a segunda melhor coisa do mundo. A primeira é escrever.
Aquela que você está pensando agora é hors-concours.

“Um texto que era um diamante…”

segunda-feira, março 29th, 2010
Fique com Deus, mestre!

Fique com Deus, mestre!

Estava eu web afora a fuçar textos escritos pelo Armando Nogueira, para homenageá-lo agora que ele se foi. Encontrei essa frase magistral do William Bonner no site do Jornal Nacional, e aproveito essa definição na cara dura para intitular este post. Bonner, te devo uma!

Eu não gosto de futebol. Não curto, nunca curti. Acho um saco. às vezes sento e até assisto um pouco, mas não raro uso os 90 minutos da pelota no gramado para tirar um cochilo. Isso vale para jogos da seleção em copas do mundo.

O que essa informação tem a ver com Armando Nogueira? Tudo! Os textos de futebol escritos por ele eram tão deliciosos e tão agradáveis que, quando os lia, imaginava a bola a correr no campo como se aquilo me deleitasse. O Armando Nogueira tinha dessas manhas. Era um operário das palavras, e dominava as ferramentas de seu métier com maestria tamanha que, não raro, eram as palavras que se curvavam a ele.

Só mesmo ele para cunhar tão espetacular frase:

A palavra é um ser vivo: nasce, cresce, morre. Com a diferença que, ao contrário de nós, ela ressuscita

Não vou aqui me perder com a biografia dele. Se você estiver curioso, clica aqui que você vai encontrar a informação que você procura.

Eu só fiz questão de deixar aqui no caldeirão minha homenagem a este mestre das palavras, que sempre soube muito bem o que fazer com elas, e lamentar que este mundo tenha perdido um pouco de seu brilhantismo.

O texto a seguir foi escrito por ele em 1970. Descreve o tricampeonato brasileiro. Foi extraído deste site aqui, a cujos autores eu agradeço. Nesse mesmo link, a definição do Armando Nogueira está óóótima:

Armando Nogueira é um estilista, na medida em que escreve sobre futebol a partir de uma consciência artesanal que envolve suas crônicas de um grau de literaridade tal, que elas, hoje, constituem páginas realmente literárias com toda a força imagística, poética, carga épica e dramática, que costumam envolver tais criações. Tem dois livros lançados, “Bola na rede”, e “A chama que não se apaga”, sobre as cinco olimpíadas que cobriu como jornalista. (…)

Deleitem-se, pois, com o texto do link

México 70
Armando Nogueira
México 70 – E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.
Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.
E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.
O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria.
Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros.
Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74.
Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.
Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.
Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo.
Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.
Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância.
A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho.
Até que os deuses do futebol inventem outra.
Armando Nogueira é um estilista, na medida em que escreve sobre futebol a partir de uma consciência artesanal que envolve suas crônicas de um grau de literaridade tal, que elas, hoje, constituem páginas realmente literárias com toda a força imagística, poética, carga épica e dramática, que costumam envolver tais criações. Tem dois livros lançados, “Bola na rede”, e “A chama que não se apaga”, sobre as cinco olimpíadas que cobriu como jornalista. Hoje colabora com diversos jornais, que publicam suas crônicas esportivas, e mantêm programa em um emissora de televisão.
Texto extraído do livro “O melhor da crônica brasileira”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997, pág. 26.

México 70

Armando Nogueira

México 70 – E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.

Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.

E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.

O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria.

Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros.

Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74.

Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.

Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.

Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo.

Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.

Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância.

A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho.

Até que os deuses do futebol inventem outra.

Texto extraído do livro O melhor da crônica brasileira, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997, pág. 26.

Atualização das 21:55

Não resisto. Vou colar outro texto. Este peguei daqui, do blog do Ancelmo Góis. A redação é igualmente irresistível!

A alegria de um coroa

Acordou bem cedinho. Estava louco para rever a sua cidade. Abriu a janela do apartamento e deu de cara com uma colossal manhã de sol, dessas que só mesmo o Rio de Janeiro é capaz de aprontar em pleno inverno. Pois a história que agora te conto, leitor, passou-se no recente mês de agosto.

Para não perder tempo, que as férias eram brevíssimas, o nosso amigo tomou uma xicrinha de café preto, enfiou no bolso uma pera, pra mais tarde, e saiu pelo Aterro do Flamengo, feliz da vida, de bermudas e tênis “Conga”.

Caminhava e distribuía seu contentamento entre as árvores do Aterro, boas amigas que ele já não via há dez anos, quando deixou o Rio para ir cuidar de uma fazendola no interior de Minas.

Pelas tantas, quis tomar sol. Despiu a camisa de malha, deitou na arquibancada do campinho de futebol de salão e assim ficou um tempão, entregue ao regozijo de merecido repouso. Tamanho era o sossego que até chegou a tirar uma soneca.

– Ei, moço! bom-dia!

Era a voz de um dos três garotos que chegavam com uma indisfarçável secura de bola.

– Quer fazer um racha com a gente? A gente joga dois-contra-dois.

Deitado estava e deitado respondeu, no embalo:

– Vamos lá, pelada é comigo mesmo!

Resoluto, levantou-se, sacudiu as pernas e foi logo entrando no campo. Um campo de barro. O dono da bola, um menino de seus quinze anos, fez a apresentação da turma:

– Eu sou o Marcio, esse aí é o Dico e aquele é o Leo.

Nem esperou que o coroa se identificasse. Queria mais era começar logo o racha.

– Olha aqui, vai ser eu e o Dico contra o senhor e o Leo.

Pela rapidez da escalação, o coroa sentiu que devia estar entrando numa fria: o bom de bola, ali, devia ser o Dico. Discretamente, deu uma olhada e viu que o Leo não tinha a menor pinta. De qualquer modo, chamou de lado o Leo e propôs uma chave: o Leo lá na frente, ele mais atrás. Antes, porém, um teste sem aparentar outra intenção a não ser aquecer o corpo: na verdade, queria mesmo era saber se o Leo era de bola, ou não. Tocou a bola na direção do Leo para ver que bicho dava. A bola beliscou a canela do Leo. O coroa chegou a pensar em desistir. Um sujeito de 61 anos, meio barrigudo, cheio de cabelos brancos:

– Meu Deus, o que é que estou fazendo aqui no meio desses meninos; uns meninões de quinze anos?

O diabo é que ele já tinha aceito o desafio. Não ficava bem correr da raia. Afinal de contas, não era a primeira, nem seria a última vez que a vida metia o nosso coroa em batalhas decisivas.

No meio do campo, o dono da bola vai cantando as regras do jogo: a partida é de cinco. Quem fizer cinco primeiro, ganha. Não vale gol direto. Não pode pegar a bola com a mão, só se já começar no gol de saída.

E como ninguém sequer pensou em jogar no gol, a partida começa com os quatro na linha. No centro do campo de terra batida, a bola de futebol de salão, por sinal que um tanto surrada.

A saída, lógico, é do Marcio. Marcio pro Dico, Dico pro Marcio, que tenta um drible. O coroa, vigilante, rouba a bola e contra-ataca. Procura o Leo. O Leo ficou lá atrás, paradão, sem saber pra que lado ir. O coroa então chuta do meio do campo. Gol!

– Não vale – grita o Marcio – eu avisei ao senhor que não vale gol direto. O senhor tem que passar a bola pro Leo! Ou o Leo pro senhor!

Gol anulado, começa tudo de novo. Saída com o Marcio. O coroa pede tempo. Cochicha uma tática no ouvido do Leo.

Bola em jogo. O Leo dispara e vai ficar plantado bem juntinho da baliza, como pediu o coroa.

Em dez minutos, o time do coroa já está ganhando de três a zero, três gols do Leo. O esquema funciona bem, mas o jogo é incessante, lá e cá. Agora mesmo, o Dico acaba de fazer o dele: três a um. E o Marcio delira com a reação.

Nova saída. O coroa arranca pelo meio dos dois, parece um foguete; vai em frente e entrega, mais uma vez, embaixo dos paus para o Leo fazer o quarto gol.

A essa altura, o coroa já passeia pelo campo, absoluto. Por sua vez, o time adversário já esta literalmente descadeirado.

– Vai, pereba – berra o Marcio, colérico, para o Dico – Vai nele! Você não disse que o coroa não é de nada? Toma a bola dele, palhaço!

A dissensão nas hostes inimigas é profunda. O Marcio e o Dico vão acabar saindo na porrada. Pelo menos é o que pressente o coroa, achando, por isso, que o melhor é liquidar logo essa conta.

Vamos, então, mais que depressa ao quinto e derradeiro gol dessa inesquecível partida. Porque inesquecível, leitor, já, já saberemos.

O Marcio faz um passe longo para o Dico. O demônio do coroa, como sempre, adivinha a jogada, corta o centro com o peito em pleno ar e, antes que a bola caia no chão, amortece na coxa direita. Da coxa, a bola escorre para o peito do pé e pronto: uma, duas, três… o homem começa uma sucessão de embaixadas; faz nove em plena corrida. Na décima, depõe a bola na linha do gol, bem em cima da linha:

– Taí, Leo, faz o quinto e acaba logo o jogo.

– O Marcio, uma fera, vai apanhar a bola e nem volta para dizer até logo. O Dico sai de fininho, mal dá um tchau. O Leo, não, o Leo dá um abraço legal no companheiro de time.

O coroa senta de novo na arquibancada, tira do bolso a pera, dá uma mordida triunfal e fica ruminando, em silêncio, o bendito fruto de uma bela vitória.

Os três meninos foram embora sem saber que deram uma certa alegria ao coroa Nilton Santos, também chamado “A Enciclopédia do Futebol”

Texto extraído do livro O Vôo das Gazelas, de autoria do próprio Armando, publicado em 1991 pela Editora Civilização Brasileira.

Manual do Estadão disponível na Web

sexta-feira, março 26th, 2010

Gente,

Descobri há um tempinho que o Manual de Redação do Estado de SPaulo está disponível na Web. Aqui você consulta on-line as eventuais dúvidas com relação à lingua do Manoel e do Joaquim (/português). E o melhor: tá tudo ni órdi arfabética.

Não sei se na web já foi atualizado para a nova ortografia, mas ainda assim vale correr pra ele na hora do perrengue. Esse Manual foi a melhor coisa já produzida pelo clã dos Mesquita, acredite…

E não se preocupem em perder este post, porque eu vou pôr o link pro Manual do Estadão aí no menu direito, sob a alcunha “isso é útil”.

Outras máximas e mínimas do Barão de Itararé

quarta-feira, março 10th, 2010

Já que as amebas foram dormir, vamos de bons exemplos, né?

Mais algumas frases de efeito de Aparício Torelly, o Barão de Itararé:

  • Dinheiro é a causa de todas as desgraças, quando não se lh’o tem.
  • Anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças e crimes que ele mesmo cometeu.
  • Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.
  • Se levares para casa um cachorro morto de fome e lhe deres comida e conforto, ele não te morderá. Esta é a principal diferença entre o cachorro e o homem.
  • Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.
  • Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mais vivos.
  • a promissória e uma questão “de…vida”. O pagamento é de morte.

Chute com as mãos (?!?!)

segunda-feira, março 1st, 2010

Não é à toa que Luis Fernando (/Verissimo) me surpreende a cada dia que passa.

Na crônica publicada hoje no blog do Noblat, mais precisamente aqui, Luis Fernando fala de futebol americano, e diz que nesse esporte os jogadores chutam a bola com os pés.

E avisou aos chatos de plantão (o/) que por acaso tenham estranhado a expressão (mas chutar não é com os pés? Isso é redundância, oras!):

A bola deles é oval (mais ou menos) e só é chutada com o pé em ocasiões especiais. Por sinal, antes que reclamem: “chutada com o pé” não é redundância, no basquete se chuta a bola com as mãos.

Quase caí dura. Primeiro pela sensação de que Luis Fernando falara diretamente a esta pouco humilde bruxinha.

Segundo, porque sempre associei o chute ao pé. Fui ter com tio Antônio:

Chute
s.m. (1908) 1  futb impulso enérgico dado com o pé para movimentar a bola 2  golpe com a ponta ou com o peito do pé; pontapé 3  B infrm. tentativa de acertar uma resposta sobre assunto que se desconhece ou conhece pouco 4  basq B m.q. arremesso ² c. de letra futb B  chute aplicado com o pé passando por trás do outro, este us. como apoio  • no c. B infrm.  às cegas, confiando na sorte por ignorar o assunto <responder no c.>  ¤ etim ing. shoot ‘lançamento, arremesso’ ¤ hom chute(fl.chutar)

Chute

s.m. (1908) 1  futb impulso enérgico dado com o pé para movimentar a bola
2  golpe com a ponta ou com o peito do pé; pontapé
3  B infrm. tentativa de acertar uma resposta sobre assunto que se desconhece ou conhece pouco
4  basq B m.q. arremesso
c. de letra futb B  chute aplicado com o pé passando por trás do outro, este us. como apoio
• no c. B infrm.  às cegas, confiando na sorte por ignorar o assunto <responder no c.>

E Tio Antônio elucidou de vez por que chute não tem a ver com os pés:

etimologia –  inglês shoot ‘lançamento, arremesso’

Tô beeeeege!

A bênção de Deus e de Dona Gramática

quarta-feira, fevereiro 17th, 2010

Esta bruxa que vos fala fica cada vez mais prosa com os e-mails que recebe, viu?

Posso ser uma bruxa, mas Deus me envia os Seus para falar comigo. E são gente da mais fina estirpe, tá bom? Pessoas gentis, finas, educadas e que querem estar nas bênçãos d’O Cara Lá de Cima sem deixar de lado a sintonia com Dona Gramática.

Olha só que e-mail batuta que eu recebi do Thiago Lamartin:

Caros Amigos (as),
Sempre quando oro à Deus, tenho um monte de dúvidas. Uma delas vocês podem responder. Quando faço um pedido ou ordeno algo, tenho que usar o modo imperativo. Portanto, seria errado dizer: Senhor, abençoa a minha família. O correto seria: Senhor, abençoe a minha família. Agora, se eu quiser trocar “a minha família” por um pronome, será “Senhor, abençoe a”. Isso parece estranho ao ouvido. Por exemplo: Abençoe ao Maurício ou Abençoe a Maurício? Abençoe-lhe ou Abençoe-o?
Esclareçam-me, por favor.
Abençoa tu
Abençoe você (é equivalente a abençoe ele?)
Abençoemos nós
Abençoas vós
Abençoem você

Caros Amigos (as),

Sempre quando oro à Deus, tenho um monte de dúvidas. Uma delas vocês podem responder. Quando faço um pedido ou ordeno algo, tenho que usar o modo imperativo. Portanto, seria errado dizer: Senhor, abençoa a minha família. O correto seria: Senhor, abençoe a minha família. Agora, se eu quiser trocar “a minha família” por um pronome, será “Senhor, abençoe a”. Isso parece estranho ao ouvido. Por exemplo: Abençoe ao Maurício ou Abençoe a Maurício? Abençoe-lhe ou Abençoe-o?

Esclareçam-me, por favor.

Abençoado seja, Thiago! Vamos então sanar suas dúvidas. Para começar a prosa, chamo para cá o tio Antônio (Houaiss), que vai nos fornecer as definições do verbo

Abençoar

n verbo
transitivo direto
1 lançar bênção a; abendiçoar
Ex.: o bispo abençoou os fiéis

transitivo direto
2 Derivação: por extensão de sentido.
desejar bem a, bem-fadar
Ex.: era capaz de amar e abençoar qualquer um, sem distinção

transitivo direto
3 Derivação: por extensão de sentido.
exaltar ou louvar (algo ou alguém)
Ex.: abençoou o jovem por seu ato de bravura

transitivo direto
4 Derivação: por extensão de sentido
conceder proteção a ou tornar próspero; amparar, auxiliar
Ex.: as pessoas de bem abençoam os que lutam pela justiça

Se você reparou aí em cima, em todas as definições do verbo abençoar, ele é transitivo direto. Verbos transitivos diretos são auto-suficientes, não precisam de preposição para se ligar ao resto do predicado. Traduzindo: não importa quem vai abençoar, o que importa é que vai abençoar alguém ou alguma coisa. E não abençoar a alguém ou a alguma coisa.

Para ser mais prática: Pede pra Deus abençoar o Gilmar, a Maricota, o Biro-Biro, o Maurício, a Giselda, sua casa, minha rua. Assim é o certo.

Nunca peça pra Deus abençoar ao Gilmar, à Maricota, ao Biro-Biro, ao Maurício, porque é errado.

Quanto à conjugação do verbo abençoar no modo Imperativo afirmativo, vamos falar de novo com tio Antônio, porque havia algumas incorreções na conjugação que você me enviou no e-mail (certeza que foi erro de digitação, porque você escreve muito bem, viu? Parabéns! Vou fazer uma ressalvinha porque ninguém é de ferro e eu estou aqui pra informar corretamente, né? Mas deixa isso pro final, peraí!) Humm… eu falava de… ah, sim! A conjugação do verbo abençoar! Faz favor, tio Antônio:

Abençoa            tu
Abençoe            ele (ou você)
Abençoemos    nós
Abençoai          vós
Abençoem       eles (ou vocês)

Isto posto, vamos primeiro escolher como vamos tratar o Todo-Poderoso.

Há quem O considere Pai, Filho e Espírito Santo. Para essas pessoas, Deus (e Jesus Cristo e o Espírito Santo, os outros dois da Santíssima Trindade) é um ser plural, portanto é tratado na segunda pessoa do plural (Vós que estais à direita do Pai, só Vós sois o santo, etc, etc, etc.).

Há os que têm mais intimidade com O Cara, e o tratam por Tu.

Outros (eu me incluo nessa) acham meio estranho ficar falando vós pra cá, vós prá lá, porque esse pronome não é muito usado no Brasil. Mas não se sentem tão à vontade pra tratar o Hômi por Tu. Então, chamam Ele de Senhor – e usam a conjugação da terceira pessoa do singular (ele), que é mais facinha.

Portanto, fica a seu critério. Se você acha que Deus é digno de um vós, peça: “Abençoai o Pedrinho” (ou, se trocar por pronomes, abençoai-o; abençoai-os; abençoai-a; abençoai-as“.
Se você acordar num daqueles dias de profunda intimidade, ore: “Abençoa o Pedrinho“. (ou, se trocar por pronomes, abençoa-o; abençoa-os; abençoa-a; abençoa-as)
E, finalmente, se você quiser facilitar as coisas pro seu lado na hora da oração, é só dizer: “Senhor, abençoe o Pedrinho”. (ou abençoe-o; abençoe-a; abençoe-os; abençoe-as).

Ou seja: tanto faz você dizer “abençoa a minha família” quanto “abençoe a minha família“. Os dois modos estão corretos.

Só peço a você uma coisa, Thiago (eis a ressalvinha de que lhe falei agora há pouco): ore sempre a Deus, nunca ore à Deus.

É que essa crase (à) dá a entender que Deus é mulher, e Dona Gramática prefere tratar Deus como homem… então, não use a crase na frase “Orar a Deus“, OK?

Olha, espero ter esclarecido todas as suas dúvidas! Fique à vontade para me consultar mais vezes, sim? Foi, é e sempre será o maior prazer lhe atender!

E se esse papo da crase lhe trouxe ainda mais dúvidas, confira o que eu escrevi há quase um ano aqui).

Abração, e volte sempre! E que Deus abençôe você!

E a Deus eu agradeço por sempre colocar gente inteligente no caminho do meu caldeirão!

A balha de Marco Aurélio Mello

sexta-feira, fevereiro 12th, 2010

Quase tive um troço. Tava lanchando quando vi, no Jornal Nacional, agora há pouco, a sentença do ministro do STF Marco Aurélio Mello em que ele negava o pedido de libertação do governador do distrito Federal, Zé Roberto Arruda.

A imagem destacou, em arte, partes da liminar do ministro. e eu me deparei com um “à balha”. putz! Só conhecia a expressão “à baila”. Mas aí fui ter com tio Antônio, que me esclareceu:

Balha

substantivo feminino Diacronismo: antigo.

1 teia que dividia a liça nos torneios de cavalaria

2 espaço cercado onde se travavam justas e torneios de cavalaria

Locuções:

vir à b.

Diacronismo: antigo.

m.q. vir à baila

substantivo feminino
Diacronismo: antigo.
1 teia que dividia a liça nos torneios de cavalaria
2 espaço cercado onde se travavam justas e torneios de cavalar

Ufa! é a mesma coisa, só que um é mais antigo que o outro! Pensei que o Meritíssimo se houvesse equivocado acerca da locução adequada ao bom entendimento e expressão de suas interpretações e….

Vamos curtir só esse parágrafo Aureliano? Juro que é só um cadim:

Eis os tempos novos vivenciados nesta sofrida República. As instituições funcionam atuando a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário. Se, de um lado, o período revela abandono a princípios, perda de parâmetros, inversão de valores, o dito pelo não dito, o certo pelo errado e vice-versa, de outro, nota-se que certas práticas – repudiadas, a mais não poder, pelos contribuintes, pela sociedade – não são mais escamoteadas, elas vêm à balha para ensejar a correção de rumos, expungida a impunidade. Então, o momento é alvissareiro

3. Indefiro a liminar. Outrora houve dias natalinos. Hoje avizinha-se a festa pagã do carnaval. Que não se repita a autofagia.

E vamos combinar que o estilo (e a interpretação) aureliano é muito mais agradável do que o do xerife Gigi.

Mas chega com estilos e rococós! Vai pra festa (ou pro descanso), mizifio! É carnaval!

Kibe português: Dicionário de eufemismos corporativos

sexta-feira, fevereiro 12th, 2010
Dicionário Cultura de Boteco de Eufemismos (2)
Postado por Owski em Filosofia de Bar, Piadas – 11/02/10 | 0 Pitaco
Os eufemismos, além de se sentirem à vontade no domínio das relações (quase) afetivas, também se infiltram com naturalidade no ambiente de trabalho. Nesses lugares infectados por formalidade em excesso, às vezes fica difícil encontrar um jeito bonito de dizer algo tenebroso. Na maioria das vezes, mal dá pra enganar.
EUFEMISMOS USADOS NO TRABALHO
1) Frases:
– “Vou ao toalete e já volto”
Tradução: “Vou dar uma cagada e vou demorar”
– “Você tem que entender que o foco da nossa empresa está nos resultados”
Tradução: “Não nos importamos com o que você fizer, desde que resulte em dinheiro”
– “Você é competente dentro do que se propõe”
Tradução: “Você é um medíocre sem ambição”
– “Nós despertamos os desejos dos nossos clientes”
Tradução: “Nós criamos necessidades supérfluas e fazemos com que nossos clientes pensem que não podem viver sem elas”
– “Temos que trabalhar com mais sinergia”
Tradução: (na verdade, ninguém sabe o que isso quer dizer, embora seja ponto comum que sinergia é algo bom)
– “Você não tem tido comprometimento com a empresa”
Tradução: “Ok, você trabalha três horas a mais por dia e redige relatórios nos finais de semana, mas cadê aquele boquete que eu pedi?”
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2) Termos
– “Brainstorm”
Tradução: Reunião em que várias pessoas apresentam as ideias que farão a fama e a fortuna de uma só
– “Vestir a camiseta”
Tradução: Confundir os interesses da empresa com os seus, trabalhar em regime escravocrata e achar a melhor coisa do mundo
– “Dinâmica de grupo”
Tradução: Vários adultos entretidos em brincadeiras infantis. A regra é simples: vence o mais cínico
– “Empreendedor”
Tradução: Chato com senso de humor duvidoso e mantenedor do mercado de livros de auto-ajuda (obras como Crepúsculo para executivos estão entre as mais apreciadas)
– “Organizacional”
Tradução: Nada
-“Desenvolvimento organizacional”
Tradução: É quando os executivos fazem uma caríssima pesquisa de clima, mudam os nomes de todos os cargos e deixam tudo o mais como antes
– “Pró-ativo”
Tradução: Que ou aquele que se mete onde não é chamado e faz aquilo que não lhe solicitaram
– “Colaborador / associado”
Tradução: Empregado igual aos de antes, mas agora sem todos aqueles direitos trabalhistas
– “Exercer liderança”
Tradução: Pegar uma lista de tarefas a serem cumpridas e delegar todas elas; exceto a nobre tarefa de delegar

Eu até cheguei a pensar em fazer um troço parecido pra publicar aqui no caldeirão. um texto sobre as firulas inventadas pelos gerentelhos e companhia para falar bonito e empolado no ambiente de trabalho – muito embora eles provavelmente não tenham a mais vaga idéia do que estejam a falar. Mas nem tchuns pra pensar no conteúdo do texto.

Daí o povo do Cultura de Boteco fez o serviço completo: teve a idéia, pensou no texto e publicou lá na mesa do bar deles.

Então, eu aproveito que estou sem tempo nem inspiração e faço minha kibada portuguesa: copio, dou o link original, cito a fonte e ainda peço permissão pro dono do texto pra publicar aqui no blog!

O texto original está aqui. E a autorização tá aqui:

botecult

Os eufemismos, além de se sentirem à vontade no domínio das relações (quase) afetivas, também se infiltram com naturalidade no ambiente de trabalho. Nesses lugares infectados por formalidade em excesso, às vezes fica difícil encontrar um jeito bonito de dizer algo tenebroso. Na maioria das vezes, mal dá pra enganar.

EUFEMISMOS USADOS NO TRABALHO

1) Frases:

– “Vou ao toalete e já volto”

Tradução: “Vou dar uma cagada e vou demorar”

– “Você tem que entender que o foco da nossa empresa está nos resultados”

Tradução: “Não nos importamos com o que você fizer, desde que resulte em dinheiro”

– “Você é competente dentro do que se propõe”

Tradução: “Você é um medíocre sem ambição”

– “Nós despertamos os desejos dos nossos clientes”

Tradução: “Nós criamos necessidades supérfluas e fazemos com que nossos clientes pensem que não podem viver sem elas”

– “Temos que trabalhar com mais sinergia”

Tradução: (na verdade, ninguém sabe o que isso quer dizer, embora seja ponto comum que sinergia é algo bom)

– “Você não tem tido comprometimento com a empresa”

Tradução: “Ok, você trabalha três horas a mais por dia e redige relatórios nos finais de semana, mas cadê aquele boquete que eu pedi?”

*********************************************************************************************

2) Termos

– “Brainstorm”

Tradução: Reunião em que várias pessoas apresentam as ideias que farão a fama e a fortuna de uma só

– “Vestir a camiseta”

Tradução: Confundir os interesses da empresa com os seus, trabalhar em regime escravocrata e achar a melhor coisa do mundo

– “Dinâmica de grupo”

Tradução: Vários adultos entretidos em brincadeiras infantis. A regra é simples: vence o mais cínico

– “Empreendedor”

Tradução: Chato com senso de humor duvidoso e mantenedor do mercado de livros de auto-ajuda (obras como Crepúsculo para executivos estão entre as mais apreciadas)

– “Organizacional”

Tradução: Nada

-“Desenvolvimento organizacional”

Tradução: É quando os executivos fazem uma caríssima pesquisa de clima, mudam os nomes de todos os cargos e deixam tudo o mais como antes

– “Pró-ativo”

Tradução: Que ou aquele que se mete onde não é chamado e faz aquilo que não lhe solicitaram

– “Colaborador / associado”

Tradução: Empregado igual aos de antes, mas agora sem todos aqueles direitos trabalhistas

– “Exercer liderança”

Tradução: Pegar uma lista de tarefas a serem cumpridas e delegar todas elas; exceto a nobre tarefa de delegar

Vinícius escatológico

segunda-feira, janeiro 11th, 2010

Não conhecia esse soneto do Poetinha (Vinícius de Moraes). Mas ele foi usado na prova de ontem da Unicamp.

Ele é a prova definitiva de que até pra falar de estrume e xixi é necessário ter um mínimo de domínio de português e redação.

Em tempo:  esse soneto está em: Antologia Poética – Cia. das Letras, 2001, p. 86.

Soneto da intimidade

Nas tardes da fazenda há muito azul demais

Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora

Mastigando um capim, o peito nu de fora

No pijama irreal de há três anos atrás.


Desço o rio no vau dos pequenos canais

Para ir beber na fonte a água fria e sonora

E se encontro no mato o rubro de uma amora

Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.


Fico ali respirando o cheiro bom do estrume

Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme

E quando por acaso uma mijada ferve


Seguida de um olhar não sem malícia e verve

Nos todos, animais, sem comoção nenhuma

Mijamos em comum numa festa de espuma.

Drummond mineiro. Autêntico. Dos bons.

terça-feira, dezembro 29th, 2009

Agora, se você quiser votos de Ano Novo decentes e autênticos de Carlos Drummond de Andrade, copio aqui a sugestão da Jussara Simões.

Reparem no texto, no estilo, na escolha das palavras. Isso sim é Drummond! O resto é zenélico.

RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?)


Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.

Entendeu o que é texto bem escrito?

Feliz Ano Novo!

Vejam como eu sou boazinha!

segunda-feira, dezembro 28th, 2009

Presentinho de Natal atrasado pros leitores do caldeirão. Do grupo Os Melhores do Mundo, o esquete Assalto. Não sei o nome da peça.

Agora vejam vocês. Eu poderia ser assim, viu? Eu poderia estar roubando. Eu poderia estar sequestrando. Eu poderia estar fazendo reféns. Eu poderia matar um refém para cada erro de português cometido nesta Terra. Mas não. Limito-me a exorcizar as amebas neste caldeirão. Carrego muita bondade dentro de meu coração, viu?

Resumo da ópera: um ladrão faz um grupo de reféns e, na negociação com a polícia, a cada erro de português um refém é morto. Muito bom para se ver durante a TPM.

Ah, sim! Se a gente não se encontrar mais, Feliz Ano Novo – sem focar em nada, pelamordedeus!!!

Ruy Castro e o novo olhar sobre o foco

terça-feira, dezembro 22nd, 2009

Aaaaah, finalmente consegui!

Pra vocês terem idéia de quanto tempo faz que eu estou pra postar este troço aqui, só conto que esse áudio foi originalmente ao ar no dia 29 de setembro, na rádio Band News FM. Quase que encomendei ao Ruy Castro um texto para este caldeirão, mas achei muito abuso.

Mas, enfim. O Ruy Castro é cabra (e cobra 🙂 ) escrevente de há muito. E sabe como fazer seu trabalho direitinho.

Como vocês poderão ouvir no link aí em cima, eu não sou a única a ter ojeriza do foco.

E se a Band News FM não gostar de eu ter postado aqui o áudio da programação deles, me avise que eu tiro na hora! Só me dêem um tempinho pra transcrever a bagaça, OK?

Clica aí em cima no link pra ouvir a coluna do Ruy Castro de 29 de setembro na Band News FM

Futebol abençoado por Lalá

segunda-feira, dezembro 7th, 2009

Segundona de ressaca de Campeonato Brasileiro, o hino do Flamengo executado a cada cinco minutos no rádio e na TV, não posso me furtar a me lembrar de um detalhe que diz respeito a este caldeirão. Os hinos dos clubes cariocas têm um ponto em comum: foram todos compostos pelo saudoso Lamartine Babo, o Lalá, um dos mais importantes compositores brasileiros do século XX.

Eu sabia de algumas historinhas meio que por alto, então, fui atrás de dona Viquipídia, que me contou o causo: em 1949, Lalá compôs os hinos dos 11 participantes do Campeonato Carioca de Futebol daquele ano, com patrocínio do programa de rádio Trem da Alegria, que lançou LPs (joga no Google, joga no Google!) de cada um dos clubes.

Em um só dia, ele compôs os famosos hinos dos considerados seis maiores e mais tradicionais times de futebol do Rio de Janeiro. O primeiríssimo a ser composto, e o mais bonito de todos, foi o do time de seu coração, o América FC (Lalá era tão fanático que, quando o América foi campeão carioca em 1960, ele desfilou pelas ruas do Rio em carro aberto, fantasiado de diabo). Depois, compôs os hinos do Vasco da Gama, Fluminense, Flamengo, Botafogo e Bangu.

Triste é pensar que letras desse naipe dificilmente seriam compostas hoje em dia…

O Hino do América é tão gostoso que você tem vontade de aprender a letra rapidinho pra sair cantarolando por aí. Há quem diga que a melodia do hino é plágio de uma das canções do show da Broadway Zigfield follies of 1912, de James V. Monaco e Willilam Jerome. Se isso é verdade, dona métrica trabalhou lindinha ao lado de Lalá. Confiram, na voz de Tim Maia:

Hino do América Futebol Clube RJ (Popular)
Hinos
Composição: Lamartine Babo
Hei de torcer, torcer, torcer
Hei de torcer até morrer, morrer, morrer
Pois a torcida americana é toda assim
A começar por mim
A cor do pavilhão
É a cor do nosso coração
Em nossos dias de emoção
Toda a torcida cantará esta canção
Tra-la-la-la-la-la
Tra-la-la-la-la-la
Tra-la-la-la-la-la
Campeões de 13, 16 e 22
Tra-la-la
Temos muitas glórias
Surgirão outras depois
Tra-la-la
Campeões com a pelota nos pés
Fabricamos aos montes aos dez
Nós ainda queremos muito mais
América unido vencerás

Hino do América Futebol Clube RJ

Hei de torcer, torcer, torcer
Hei de torcer até morrer, morrer, morrer
Pois a torcida americana é toda assim
A começar por mim
A cor do pavilhão
É a cor do nosso coração

Em nossos dias de emoção
Toda a torcida cantará esta canção
Tra-la-la-la-la-la
Tra-la-la-la-la-la
Tra-la-la-la-la-la

Campeões de 13, 16 e 22
Tra-la-la
Temos muitas glórias
Surgirão outras depois
Tra-la-la

Campeões com a pelota nos pés
Fabricamos aos montes aos dez
Nós ainda queremos muito mais
América unido vencerás

Agora, o hino do meu Fluzão:

Hino do Fluminense

Sou tricolor de coração.
Sou do clube tantas vezes campeão.
Fascina pela sua disciplina,
O Fluminense me domina.
Eu tenho amor ao tricolor!

Salve o querido pavilhão,
Das três cores que traduzem tradição:
A paz, a esperança e o vigor.
Unido e forte pelo esporte,
Eu sou é tricolor!

Vence o fluminense
Com o verde da esperança,
Pois quem espera sempre alcança.
Clube que orgulha o brasil,
Retumbante de glórias e vitórias mil!

Vence o fluminense
Com sangue do encarnado,
Com amor e com vigor.
Faz a torcida querida
Vibrar com a emoção do tricampeão!

Vence o fluminense,
Usando a fidalguia.
Branco é paz e harmonia.
Brilha com o sol da manhã,
Qual luz de um refletor.
Salve o tricolor!!!

O hino do campeão Brasileiro de 2009, um tal de Flamengo:

Hino do Flamengo

Uma Vez Flamengo
Sempre Flamengo
Flamengo sempre eu hei de ser
É o meu maior prazer, vê-lo brilhar
Seja na terra, seja no mar
Vencer, vencer, vencer
Uma vez Flamengo,
Flamengo até morrer

Na regata ele me mata,
me maltrata,
me arrebata de emoção no coração

Consagrado no gramado
Sempre amado
Mais cotado nos Fla-Flus
É o ai Jesus

Eu teria um desgosto profundo
Se faltasse
O Flamengo no mundo

Ele vibra, ele é fibra, muita libra,
já pesou
Flamengo até morrer, eu sou.

O Hino do Vasco da Gama, campeão brasileiro da série B de 2009:
(Obs.: conheci primeiro a versão alternativa da letra, que diz assim: Tens o nome de um viado português, Vasco da Gama tua fama é ser freguês… ;o)

Hino do Vasco

Vamos todos cantar de coração
A cruz de malta é o teu pendão
Tens o nome do heróico português
Vasco da Gama… tua fama assim se fez

Tua imensa torcida é bem feliz
Norte-Sul, Norte-Sul deste Brasil
Tua estrela, na terra a brilhar
Ilumina o mar

No atletismo és um braço
No remo és imortal
No futebol és um traço
De união Brasil-Portugal

E, por fim, o hino do Botafogo que, assim como o Fluminense, escapou heroicamente (e palmeirensemente) do rebaixamento ontem à tarde:

(Essa letra deu uma confusãozinha: Há quem diga que a letra original dizia Campeão de 1910. Os botafoguenses reclamaram, e Lalá se defendeu: “não, vocês entenderam errado! É Campeão desde 1910!” Um pândego, esse Lalá, um pândego!)

Hino do Botafogo

Botafogo, Botafogo,
campeão desde 1910
És herói em cada jogo,
Botafogo, por isso que tu és

e hás de ser nosso imenso prazer
Tradições aos milhões tens também
Tu és o glorioso,
não podes perder,
perder para ninguém!

Em outros esportes,
tua fibra está presente,
honrando as cores do Brasil e da nossa gente
Na estrada dos louros, um facho de luz
Tua estrela solitária te conduz!

Compadre Aulete também tem puxadinho no UOL

terça-feira, outubro 27th, 2009

Ah, uma boa notícia pra variar! Xô, nuvem negra!

Mais um dicionário está disponível online – e com puxadinho no UOL, que é pro pessoal daquele portal se matar ainda mais de vergonha quando cometer algum erro imperdoável.

O compadre Aulete está no endereço http://aulete.uol.com.br

E não se preocupem, que já, já tem link pro compadre no cantinho direito do caldeirão, sob o chapéu “isto é útil”.

Miguel Marvilla, o arcanjo faxineiro

segunda-feira, outubro 26th, 2009

É, meu amigo… agora você está ao ladinho do Alvaro Moreyra e do Fernando Pessoa… desfrute dessa companhia!

Quando passar minha tristeza pela sua perda, prometo fazer alguma piadinha com sua insubordinação em morrer sem me pedir autorização. Por enquanto, eu ainda estou triste demais pra essas gracinhas… Hoje vou postar dois textos seus. Um poema e um conto. Amei os dois.

O poema. Só não sei quando foi escrito. Mas agora ele soa irônico…

Deus! Ó, Deus! Sou eu…Este aqui, ó,

que acaba de perder o prumo

e veio tateando no escuro

cada palavra do caminho.


Sou este ser de pó, aquele amigo

do efeito lateral das sombras.

Não tenho nome, mas retiro

dos sons a minha substância homem.


Venho desdizer o que não disse:

que você não existia, e, se existisse,

não se importava comigo, o errante.


Este soneto acaba já, mas antes:

eu sei, você existe e, com certeza,

também ama comida japonesa.

O conto. Postado originalmente no blog Os mortos estão no living, homônimo do livro de contos e poemas que Miguel Marvilla lançou e que foi adotado nos vestibulares de 2007 a 2009 da Ufes.

Júlia D.: o banho
Já tinha perdido a escova de dentes e agora era o sabonete quem afluía neve sobre o corpo. A neve cheirava a algo assim como pitanga.
— Me dá um pedaço do teu sorriso?
Poderia. Não queria uma resposta sincera mesmo, queria?
— Deus criou o mundo… o mundo… o mundo…
O padre tinha uma voz tão bonita de sotaque castelhano…
— Doutor, eu queria ver Deus. Ia falar pra Ele das minhas visões. Sabe, sonhei com meu canário pardo, que morreu. Tinha uma esperança de liberdade apregoada em cada pena. Doutor, eu queria ser Deus!
O telefone. Se ao menos tivesse um, tocaria agora. Traria notícias?
— A esperança é sempre natal. Tão-somente haja, esperança é sempre fatal. Já ouviu falar de Cristo? Era um grande sujeito. Morreu de esperança.
— E o padre, doutor, é também um suicida?
Uma lágrima imitou o brilhar da lâmpada, descreveu um arco em torno da narina e trouxe-lhe um sabor de sal. Tudo doía. A mão, adormecida na torneira, esquecia-se de mover-se.
Um punhado de neve desabou de sobre o seio esquerdo.
Tinha todos os sintomas do belo. Não precisava de uma estrela nos cabelos. Não conseguia sequer precisar o momento exato de acionar a vida.
Ela, feto:
— Mamãe, é inadiável que se nasça? É mesmo preciso nascer, mamãe?
— Não sei. A solução apenas homologa a situação.
Outra lágrima tentou trafegar no mesmo sentido que a anterior, mas não chegou a completar a trajetória, por causa de um acidente qualquer da geografia do rosto. Havia uma taruíra no banheiro, porém esqueceu o grito antes mesmo que o forjasse. Era melhor não ter memória. Talvez fosse melhor nem existir.
Via pela janela um pedaço do céu, que era um pedaço do mundo. Toda ela era um pedaço da vida.
— Doutor, o padre…
— A vida…
— … não …
— … não …
— … é …
— … corresponde…
— … um louco!
— … à realidade.
— Doutor, eu quero saber de mim.
— É justo. Todas as crianças têm o dever da credulidade.
— Mas, crendo, adulteram o sentido primário da realidade: passam a ter desejos.
— Está bem. Resta-lhe uma saída: não creia em nada.
Black-out.
Black-out. Esperou a luz voltar e pensou em Deus criando o universo: era só apertar o interruptor.
Subitamente, percebeu que estava coberta de neve recendendo a pitanga e suicidou-se de frio.
Um toca-discos manchava o ar com uma valsa de Strauss.
Ninguém deu pela falta da morta. Então, ela se levantou e lavou toda neve do corpo.
Enquanto isso, foi vista pelo espelho, Deixou-se admirar. De fato, possuía belos seios, belos olhos, bela imaginação. Havia pouco de que se queixar, mas, agora, a vida lhe pesava nos ombros. Quanto tempo ainda de silêncio?
— Doutor, sou grávida por hierarquia. Porque minha mãe, minha avó, minha bisavó, todas as mulheres da minha família eram grávidas.
— A gravidez é um estado masculino de desprezo. Nascer, fazer nascer, são maneiras cômodas de não apresentar razões.
— Mas eu jamais quis ter este ser dentro da minha virgindade!
— Não tenha medo. Nem todas as mulheres geram Cristo. Algumas geram Marx. Quer me fazer crer que o orgasmo não substitui essa frustrada tentativa de não-existir? Então, ancore-se, pare de voar.
Estava nua. Como não se sentir mulher?
— Mamãe, é mesmo irremediável nascer?

Júlia D.: o banho

Já tinha perdido a escova de dentes e agora era o sabonete quem afluía neve sobre o corpo. A neve cheirava a algo assim como pitanga.

— Me dá um pedaço do teu sorriso?

Poderia. Não queria uma resposta sincera mesmo, queria?

— Deus criou o mundo… o mundo… o mundo…

O padre tinha uma voz tão bonita de sotaque castelhano…

— Doutor, eu queria ver Deus. Ia falar pra Ele das minhas visões. Sabe, sonhei com meu canário pardo, que morreu. Tinha uma esperança de liberdade apregoada em cada pena. Doutor, eu queria ser Deus!

O telefone. Se ao menos tivesse um, tocaria agora. Traria notícias?

— A esperança é sempre natal. Tão-somente haja, esperança é sempre fatal. Já ouviu falar de Cristo? Era um grande sujeito. Morreu de esperança.

— E o padre, doutor, é também um suicida?

Uma lágrima imitou o brilhar da lâmpada, descreveu um arco em torno da narina e trouxe-lhe um sabor de sal. Tudo doía. A mão, adormecida na torneira, esquecia-se de mover-se.

Um punhado de neve desabou de sobre o seio esquerdo.

Tinha todos os sintomas do belo. Não precisava de uma estrela nos cabelos. Não conseguia sequer precisar o momento exato de acionar a vida.

Ela, feto:

— Mamãe, é inadiável que se nasça? É mesmo preciso nascer, mamãe?

— Não sei. A solução apenas homologa a situação.

Outra lágrima tentou trafegar no mesmo sentido que a anterior, mas não chegou a completar a trajetória, por causa de um acidente qualquer da geografia do rosto. Havia uma taruíra no banheiro, porém esqueceu o grito antes mesmo que o forjasse. Era melhor não ter memória. Talvez fosse melhor nem existir.

Via pela janela um pedaço do céu, que era um pedaço do mundo. Toda ela era um pedaço da vida.

— Doutor, o padre…

— A vida…

— … não …

— … não …

— … é …

— … corresponde…

— … um louco!

— … à realidade.

— Doutor, eu quero saber de mim.

— É justo. Todas as crianças têm o dever da credulidade.

— Mas, crendo, adulteram o sentido primário da realidade: passam a ter desejos.

— Está bem. Resta-lhe uma saída: não creia em nada.

Black-out.

Black-out. Esperou a luz voltar e pensou em Deus criando o universo: era só apertar o interruptor.

Subitamente, percebeu que estava coberta de neve recendendo a pitanga e suicidou-se de frio.

Um toca-discos manchava o ar com uma valsa de Strauss.

Ninguém deu pela falta da morta. Então, ela se levantou e lavou toda neve do corpo.

Enquanto isso, foi vista pelo espelho, Deixou-se admirar. De fato, possuía belos seios, belos olhos, bela imaginação. Havia pouco de que se queixar, mas, agora, a vida lhe pesava nos ombros. Quanto tempo ainda de silêncio?

— Doutor, sou grávida por hierarquia. Porque minha mãe, minha avó, minha bisavó, todas as mulheres da minha família eram grávidas.

— A gravidez é um estado masculino de desprezo. Nascer, fazer nascer, são maneiras cômodas de não apresentar razões.

— Mas eu jamais quis ter este ser dentro da minha virgindade!

— Não tenha medo. Nem todas as mulheres geram Cristo. Algumas geram Marx. Quer me fazer crer que o orgasmo não substitui essa frustrada tentativa de não-existir? Então, ancore-se, pare de voar.

Estava nua. Como não se sentir mulher?

— Mamãe, é mesmo irremediável nascer?

“Nossa única riqueza é ver”

domingo, outubro 25th, 2009
Miguel Marvilla de Oliveira

Miguel Marvilla de Oliveira

Engraçado o que acontece comigo, seja com o meu lado bruxa ou com meu eu verdadeiro. Sempre me dei bem na Internet. Por aqui conheci gente legal, inteligente e agradável. Um dos que eu conheci neste mafuá digital de conhecimento e besteira mais tarde veio a se tornar meu marido, o Fernando. E, dentre as várias outras pessoas reais que conheci aqui neste campo virtual, o Miguel foi estranhamente especial. Passou feito um rojão, e me marcou de forma agridoce.

Tomei conhecimento dele exatamente no dia 29 de julho, quando ele comentou este post. Já chegou descendo o sarrafo, mas pegou o espírito destas bandas: uma vez que o estrago já tá feito e não vai ser um comentário de blog que vai consertar um texto ruim lá na sua origem, então que se leve tudo na base da brincadeira. Até mesmo o fato de eu me apresentar como uma bruxa. Nesse mesmo post do Pasto bão, ele virou o anjo faxineiro. Botei ele pra espanar toda a sujeira da casa!

Ele gostou da alcunha, e passou a se divertir a rodo (com trocadilho, por favor! 😉 ) com o cargo conquistado. Desde então, não me deixava em paz. E eu me amarrava nos comentários dele – sim, porque ele fazia questão de comentar T-O-D-O-S os meus posts – e, após apertar o botão publicar do meu wordpress, ficava imaginando: que será que o Arcanjo vai comentar dessa vez?

Sabia que ele era rapaz do Espírito Santo, chegado a esta ou aquela poesia, porque já havia comentado comigo. Mas não sabia exatamente qual a verdadeira identidade do meu angelical e preferido faxineiro. E já estava estranhando o silêncio dele. Tudo bem que eu estava sem postar há algum tempo, mas até isso ele me cobrava.

Foi quando eu recebi este comentário aqui, da Priscila:


Enviado em 20/10/2009 às 23:03

Olá, moça.
Aqui é a esposa do Miguel. Não se ele te contou, mas ele era um escritor muito famoso aqui no nosso estado. Infelizmente ele faleceu no dia 10 de outubro e não teve tempo de te responder.
Ele gostava muito das suas críticas no blog. Passei por aqui para te avisar.
Abraços,

Olá, moça.

Aqui é a esposa do Miguel. Não sei se ele te contou, mas ele era um escritor muito famoso aqui no nosso estado. Infelizmente ele faleceu no dia 10 de outubro e não teve tempo de te responder.

Ele gostava muito das suas críticas no blog. Passei por aqui para te avisar.

Abraços,

Fiquei arrasada. E joguei no oráculo, que era como ele se referia ao Google. Descobri quem era meu faxineiro preferido, e o que aconteceu com ele neste link aqui:

Morreu na madrugada deste sábado (10) o escritor Miguel Marvilla de Oliveira, de 50 anos. Poeta,  contista e membro da Academia Espírito-santense de Letras, Miguel estava internado desde a última segunda-feira, quando começou a apresentar sintomas de meningite, o que, segundo os médicos, o levou a uma infecção generalizada. Durante o velório, na manhã deste sábado, amigos do escritor fizeram homenagens com leituras de poemas dele. Marvilla foi sepultado às 11h, no Cemitério Cruzeiro do Sul, em Cariacica

Lembro muito bem de quando a minha mãe estava aqui, antes de meu filho nascer. Nós nos divertimos a rodo com os comentários do Miguel. Ela chegou inclusive a cogitar que o Miguel fosse um amigo de juventude (mas não era).

Poderia ter intitulado este post com algo como …e o anjo foi pro céu. Mas me recuso a sujar tão brilhante memória com o mais reles do lugar-comum.

Daí eu reparei que no dia 12 de agosto ele passou por aqui, recitou Alberto Caeiro (um dos vários codinomes de Fernando Pessoa) e concluiu com esta observação:

O último verso é lapidar. E é o meu mote. Tá no meu brasão: “Nossa única riqueza é ver”…

Então, Miguel, esta será a primeira das minhas homenagens a você, querido amigo. O título deste post é o mote do seu brasão.

À família do Miguel ficam aqui meus sinceros sentimentos. Compartilho com vocês a esperança de que, a esta altura do campeonato, ele esteja cercado de almas da melhor estirpe: Fernando Pessoa, Álvaro Moreyra, Érico Veríssimo… cer-te-za de que está todo mundo tomando um chopinho celestial com os anjos lá em cima!

Ao longo desta semana, vou publicar por aqui alguns dos poemas lindíssimos do Miguel, que descobri web afora. E vou relembrar alguns comentários deliciosos que ele deixou por aqui pelo caldeirão.

Quatro esdrúxulos

quarta-feira, setembro 9th, 2009

A noite esdrúxula rendeu, viu? A Deborah Leão passou nos comentários pra dizer que tem outra poesia esdrúxula perambulando por aí.

Gosto deste caldeirão por causa disso. Troco informação e conhecimento, e ainda me divirto com os frequentadores destas bandas (com duplo sentido, por favor! 🙂 )

Mas, Débora, eu concedo a licença poética ao Samuel Rosa, viu? Depois dessa letra toda bem estruturada, deixa o menino falar rúbrica, uai? 🙂

E muito obrigada pela dica!

Mas a Débora referiu-se a esta música:

Formato Mínimo
Skank
Composição: Samuel Rosa – Rodrigo F. Leão
Começou de súbito
A festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe
Ele procurava a próxima
Ele reparou nos óculos
Ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo o máximo
Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido
Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida
O medo redigiu-se ínfimo
E ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito
Desenhou-se a história trágica
Ele, enfim, dormiu apático
Na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida
Feita do desejo, a vítima
Fugiu dali tão rápido
Caminhando passos tétricos
Amor em sua mente épico
Transformado em jogo cínico
Para ele, uma transa típica
O amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico
Da triste solidão, a rúbrica

Formato Mínimo

Skank

Composição: Samuel Rosa – Rodrigo F. Leão


Começou de súbito

A festa estava mesmo ótima

Ela procurava um príncipe

Ele procurava a próxima


Ele reparou nos óculos

Ela reparou nas vírgulas

Ele ofereceu-lhe um ácido

E ela achou aquilo o máximo


Os lábios se tocaram ásperos

Em beijos de tirar o fôlego

Tímidos, transaram trôpegos

E ávidos, gozaram rápido


Ele procurava álibis

Ela flutuava lépida

Ele sucumbia ao pânico

E ela descansava lívida


O medo redigiu-se ínfimo

E ele percebeu a dádiva

Declarou-se dela, o súdito

Desenhou-se a história trágica


Ele, enfim, dormiu apático

Na noite segredosa e cálida

Ela despertou-se tímida

Feita do desejo, a vítima


Fugiu dali tão rápido

Caminhando passos tétricos

Amor em sua mente épico

Transformado em jogo cínico


Para ele, uma transa típica

O amor em seu formato mínimo

O corpo se expressando clínico

Da triste solidão, a rúbrica

O que você disse? Pooonto negativooooo!!!!

sexta-feira, setembro 4th, 2009

Tá. Esse vídeo não tem lá muito porquê de estar aqui. Deixa eu arranjar uma desculpa que não seja tão malcriada quanto O caldeirão é meu e aqui eu publico o que eu quiser, seu mala!

Hummm… Ah! Já sei! O cabra daí de cima dá bons exemplos de forma pouco ortodoxa, que nem esta bruxa que vos fala! O quê? Não gostou da desculpa do parágrafo anterior? Então, sirva-se do conteúdo do primeiro parágrafo, faz favor!

Na verdade, o motivo de eu publicar esse vídeo daí de cima aqui é pra poder prestar uma homenagem ao meu lindo avatar adaptado pelo Paulo de Loyola, a professora Cudi Ampola, da Turma do Fudêncio.

Gosto muito quando ela chama o Conrado e diz:

#prontofalei!

Crônica de uma noite esdrúxula

domingo, agosto 30th, 2009

Miacaaaaaaaaaabo com o meu arcanjo faxineiro.

Miguel não gostou da música do Victor e Léo pela qual estou a me desmanchar, e ainda me acusou de estar melosa demais com a chegada do feiticeirinho. Por cometer tamanho insulto contra esta bruxa que vos fala, eu mandei ele lustrar todas as pratas da casa. Ele fez tudo – tá uma beleza a prataria, precisa ver só.

O problema é que ele executou o trabalho-castigo resmungando o tempo todo que gostava mesmo era de coisa esdrúxula, como Alvarenga e Ranchinho. E toca a falar do drama da Angélica.

Abespinhada com o sofrimento da esposa de Luciano, corri ao Te dou um dado? para ver o que exatamente havia acontecido com a família do narigudo que não sabe crasear. E nada descobri. Que drama de Angélica era esse, afinal?

Foi então que tio Antônio veio em meu socorro, ao lembrar do significado primeiro de esdrúxulo (não sei se aí acontece disso, mas aqui de vez em quando a gente tem que correr pra decifrar as palavras dos serviçais, sabe?):

n adjetivo e substantivo masculino

1 Rubrica: gramática. Diacronismo: obsoleto.

m.q. proparoxítono

2 Rubrica: versificação.

diz-se de ou verso que termina em palavra proparoxítona

n adjetivo

Derivação: por extensão de sentido. Uso: informal.

3 fora dos padrões comuns e que causa espanto ou riso; esquisito, extravagante, excêntrico

Aaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhh…. então todos os versos terminados em proparoxítonas são esdrúxulos?!?!!? Ora, o primeiro poema esdrúxulo que me vem à cabeça é a boa e velha Construção, do Franscisquinho.

Em segundo lugar, vem outra letra de música que, a meu ver, é genial. E ainda mais genial ficou para mim quando eu descobri que ela foi composta em questão de minutos, dentro de um fusquinha, a caminho de um show da banda que mais tarde veio a interpretá-la. (E ai do meu faxineiro se ele resolver discordar de mim e achar que essa letra é uma bosta! Transformo ele em sapo pra ficar coaxando ao lado de Victor e Léo!)

Mas eu não sabia que havia uma terceira canção esdrúxula. Que revelou-se a primeira no quesito. Descobri a benedita ao jogar no Google, por recomendação de meu resmungante faxineiro, o Drama de Angélica.

Miacabeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei com o dama da pobre moça. E a bosta da música não me sai da cabeça! Acompanhem a seguir o Drama de Angélica, Construção e Robocop Gay, três esdrúxulos deliciosos. Com direito a youtube e tudio!

Esse post pode até acabar por aqui. Mas ele não se encerra, não senhor. Acompanhem o desenrolar dessa noite esdrúxula…


n adjetivo e substantivo masculino
1 Rubrica: gramática. Diacronismo: obsoleto.
m.q. proparoxítono
2 Rubrica: versificação.
diz-se de ou verso que termina em palavra proparoxítona
n adjetivo
Derivação: por extensão de sentido. Uso: informal.
3 fora dos padrões comuns e que causa espanto ou riso; esquisito, extravagante, excêntri

Um esdrúxulo

domingo, agosto 30th, 2009

O Drama de Angelica
Alvarenga e Ranchinho
Composição: Alvarenga e M. G. Barreto
Ouve meu cântico quase sem ritmo
Que a voz de um tísico magro esquelético…
Poesia épica em forma esdrúxula
Feita sem métrica com rima rápida…
Amei Angélica mulher anêmica
De cores pálidas e gestos tímidos…
Era maligna e tinha ímpetos
De fazer cócegas no meu esôfago…
Em noite frígida fomos ao Lírico
Ouvir o músico pianista célebre…
Soprava o zéfiro ventinho úmido
Então Angélica ficou asmática…
Fomos ao médico de muita clínica
Com muita prática e preço módico…
Depois do inquérito descobre o clínico
O mal atávico mal sifilítico…
Mandou-me célere comprar noz vômica
E ácido cítrico para o seu fígado…
O farmacêutico mocinho estúpido
Errou na fórmula ez despropósito…
Não tendo escrúpulo deu-me sem rótulo
Ácido fênico e ácido prússico…
Corri mui lépido mais de um quilômetro
Num bonde elétrico de força múltipla…
O dia cálido deixou-me tépido
Achei Angélica já toda trêmula…
A terapêutica dose alopática
Lhe dei em xícara de ferro ágate…
Tomou num folego triste e bucólica
Esta estrambólica droga fatídica…
Caiu no esôfago deixou-a lívida
Dando-lhe cólica e morte trágica…
O pai de Angélica chefe do tráfego
Homem carnívoro ficou perplexo…
Por ser estrábico usava óculos:
Um vidro côncavo o outro convexo…
Morreu Angélica de um modo lúgubre
Moléstia crônica levou-a ao túmulo…
Foi feita a autópsia todos os médicos
Foram unânimes no diagnóstico…
Fiz-lhe um sarcófago assaz artístico
Todo de mármore da cor do ébano…
E sobre o túmulo uma estatística
Coisa metódica como Os Lusíadas…
E numa lápide paralelepípedo
Pus esse dístico terno e simbólico:
“Cá jaz Angélica
Moça hiperbólica
Beleza Helênica
Morreu de cólica!”

O Drama de Angelica

Alvarenga e Ranchinho

Composição: Alvarenga e M. G. Barreto


Ouve meu cântico quase sem ritmo

Que a voz de um tísico magro esquelético…

Poesia épica em forma esdrúxula

Feita sem métrica com rima rápida…


Amei Angélica mulher anêmica

De cores pálidas e gestos tímidos…

Era maligna e tinha ímpetos

De fazer cócegas no meu esôfago…


Em noite frígida fomos ao Lírico

Ouvir o músico pianista célebre…

Soprava o zéfiro ventinho úmido

Então Angélica ficou asmática…


Fomos ao médico de muita clínica

Com muita prática e preço módico…

Depois do inquérito descobre o clínico

O mal atávico mal sifilítico…


Mandou-me célere comprar noz vômica

E ácido cítrico para o seu fígado…

O farmacêutico mocinho estúpido

Errou na fórmula ez despropósito…


Não tendo escrúpulo deu-me sem rótulo

Ácido fênico e ácido prússico…

Corri mui lépido mais de um quilômetro

Num bonde elétrico de força múltipla…


O dia cálido deixou-me tépido

Achei Angélica já toda trêmula…

A terapêutica dose alopática

Lhe dei em xícara de ferro ágate…


Tomou num folego triste e bucólica

Esta estrambólica droga fatídica…

Caiu no esôfago deixou-a lívida

Dando-lhe cólica e morte trágica…


O pai de Angélica chefe do tráfego

Homem carnívoro ficou perplexo…

Por ser estrábico usava óculos:

Um vidro côncavo o outro convexo…


Morreu Angélica de um modo lúgubre

Moléstia crônica levou-a ao túmulo…


Foi feita a autópsia todos os médicos

Foram unânimes no diagnóstico…

Fiz-lhe um sarcófago assaz artístico

Todo de mármore da cor do ébano…


E sobre o túmulo uma estatística

Coisa metódica como Os Lusíadas…

E numa lápide paralelepípedo

Pus esse dístico terno e simbólico:


“Cá jaz Angélica

Moça hiperbólica

Beleza Helênica

Morreu de cólica!”

Dois esdrúxulos

domingo, agosto 30th, 2009

Robocop Gay

Mamonas Assassinas
Composição: Dinho / Júlio Rasec
Um tanto quanto másculo
Ai, e com M maiúsculo
Vejam só os meus músculos
Que com amor cultivei
Minha pistola é de plástico (quero chupar-pa)
Em formato cilíndrico (quero chupar-pa)
Sempre me chamam de cínico (quero chupaar…)
Mas o porquê eu não sei (quero chupar-pa)
O meu bumbum era flácido
Mas esse assunto é tão místico
Devido a um ato cirúrgico
Hoje eu me transformei
O meu andar é erótico (silicone yeah! yeah!)
Com movimentos atômicos (silicone yeah! yeah!)
Sou um amante robótico (silicone yeeah…)
Com direito a replay (silicone yeah!)
Um ser humano fantástico
Com poderes titânicos
Foi um moreno simpático
Por quem me apaixonei
E hoje estou tão eufórico (doce, doce, amor)
Com mil pedaços biônicos (doce, doce, Amor)
Ontem eu era católico (doce, doce, amoor…)
Ai, hoje eu sou um GAY!!!
Abra sua mente
Gay também é gente
Baiano fala “oxente”
E come vatapá
Você pode ser gótico
Ser punk ou skinhead
Tem gay que é Mohamed
Tentando camuflar:
Allah, meu bom Allah!
Faça bem a barba
Arranque seu bigode
Gaúcho também pode
Não tem que disfarçar
Faça uma plástica
Aí entre na ginástica
Boneca cibernética
Um robocop gay…
Um robocop gay,
Um robocop gay.
Ai… eu sei,
Eu sei
Meu robocop gay…
Ai como dói!

Mamonas Assassinas

Composição: Dinho / Júlio Rasec


Um tanto quanto másculo

Ai, e com M maiúsculo

Vejam só os meus músculos

Que com amor cultivei

Minha pistola é de plástico (quero chupar-pa)

Em formato cilíndrico (quero chupar-pa)

Sempre me chamam de cínico (quero chupaar…)

Mas o porquê eu não sei (quero chupar-pa)

O meu bumbum era flácido

Mas esse assunto é tão místico

Devido a um ato cirúrgico

Hoje eu me transformei

O meu andar é erótico (silicone yeah! yeah!)

Com movimentos atômicos (silicone yeah! yeah!)

Sou um amante robótico (silicone yeeah…)

Com direito a replay (silicone yeah!)

Um ser humano fantástico

Com poderes titânicos

Foi um moreno simpático

Por quem me apaixonei

E hoje estou tão eufórico (doce, doce, amor)

Com mil pedaços biônicos (doce, doce, Amor)

Ontem eu era católico (doce, doce, amoor…)

Ai, hoje eu sou um GAY!!!

Abra sua mente

Gay também é gente

Baiano fala “oxente”

E come vatapá

Você pode ser gótico

Ser punk ou skinhead

Tem gay que é Mohamed

Tentando camuflar:

Allah, meu bom Allah!

Faça bem a barba

Arranque seu bigode

Gaúcho também pode

Não tem que disfarçar

Faça uma plástica

Aí entre na ginástica

Boneca cibernética

Um robocop gay…

Um robocop gay,

Um robocop gay.

Ai… eu sei,

Eu sei

Meu robocop gay…

Ai como dói!


Três esdrúxulos

domingo, agosto 30th, 2009
Construção
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

Construção

Composição: Chico Buarque

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir,

Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir

Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,

Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir

E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir

E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,

Deus lhe pague

Por que ninguém me conta essas coisas?

quarta-feira, agosto 26th, 2009

Pô, tem dupla caipira que presta! Victor e Leo! E ainda por cima, gravaram o tema de abertura da novela das seis!!!! Acreditem: a música é maravilhosaaaaaa!!!!!

Eu precisei amamentar meu feiticeirinho assistindo à novela das seis pra descobrir isso!!! Gente, a música é realmente linda demais ou sou eu que estou sensível?

A letra é simples, gostosa, bonita e, quando você se dá conta, você está lá, junto com o cantor, sentado perto do fogão de lenha, no meio da cantoria e admirando o céu da noite do sertão. Coisa marlinda do mundo, gente!

E o cabra inda usa o gerúndio direitinho! (“Trabalho cantando“)

Ah, quer saber? Gostei!  Acompanhem a letra:

Deus e eu no sertão

Victor e Leo
Composição: Victor Chaves
Nunca vi ninguém
Viver tão feliz
Como eu no sertão
Perto de uma mata
E de um ribeirão
Deus e eu no sertão
Casa simplesinha
Rede pra dormir
De noite um show no céu
Deito pra assistir
Deus e eu no sertão
Das horas não sei
Mas vejo o clarão
Lá vou eu cuidar do chão
Trabalho cantando
A terra é a inspiração
Deus e eu no sertão
Não há solidão
Tem festa lá na vila
Depois da missa vou
Ver minha menina
De volta pra casa
Queima a lenha no fogão
E junto ao som da mata
Vou eu e um violão
Deus e eu no sertão

Composição: Victor Chaves


Nunca vi ninguém

Viver tão feliz

Como eu no sertão


Perto de uma mata

E de um ribeirão

Deus e eu no sertão


Casa simplesinha

Rede pra dormir

De noite um show no céu

Deito pra assistir


Deus e eu no sertão


Das horas não sei

Mas vejo o clarão

Lá vou eu cuidar do chão


Trabalho cantando

A terra é a inspiração

Deus e eu no sertão


Não há solidão

Tem festa lá na vila

Depois da missa vou

Ver minha menina


De volta pra casa

Queima a lenha no fogão

E junto ao som da mata

Vou eu e um violão


Deus e eu no sertão

Do Alvaro para o José Luiz

sexta-feira, agosto 21st, 2009

Esse texto foi publicado aqui no caldeirão no dia 7 de maio.

Mas, como meu feiticeirinho tá chegando agora, achei por bem trazer tal publicação aqui pra cima. Esse texto é purdimais dilindo. Confiram:

****

Fui tirar o Havia uma oliveira no Jardim do Alvaro Moreyra da estante pra fazer o post de ontem, e comecei a reler o livro. Eu não me canso de reler o Alvaro. Falo como se fosse íntima de um homem que jamais conheci, nem sequer me lembro de haver visto foto. Mas é assim que você se sente ao ler o Alvaro. É muito gostoso, aconchegante, e especial.

Por falar em especial, dois posts… (iihh! Lá vem a Bruxa blogueira falando! Não é post, ô anta, é um pensamento do livro!) enfim, dois trechos que me chamaram a atenção… é quando ele fala pro bisnetinho dele que acabara de nascer:

Você chegou há poucos dias a este mundo e é um homem feliz. Toda gente que o conhece lhe quer bem. Veio antes do Natal, o Ano Novo surgirá absolutamente novo para você.

Da sua tribo quem nasceu primeiro fui eu. Mais tarde lhe dirão o meu nome na escala dos antepassados: “o bisavô”. Sou o seu bisavô, José Luiz. Desejo-lhe, desde já, o mesmo exagero, lá para os 2000 e tantos da graça de Nosso Senhor.”

*********

Muito, muito mais guardei para lhe oferecer. Em palavras com realidade. Que a terra da vida que vai viver seja bela sempre, e boa, e serena, e amiga. Que você nunca precise perdoar. Que você nunca precise esquecer. Que possa sorrir para tudo, agradecido e contente, e pôr nas paisagens, nas coisas, nas criaturas, os olhos sem fadiga e sem tristeza. Que o homem feliz de agora continue assim até o fim, vendo em volta amor, doçura, encantamento. Que o menino cresça no corpo, mas a alma continue tal qual no instante de acordar, com a idade da surpresa, não sabida, de ter voltado. O céu, então, estará com outras estrelas. Talvez você faça uma também, das muitas que brilharão lá em cima.

Aqui lhe trago, com o coração que usei de mais e não gastei, a minha esperança e a minha ternura.

Boa viagem, José Luiz!

Detalhe: o Alvaro escreveu isso pro José Luiz quando o menino nasceu, em 1958. Gostaria, sinceramente, de saber como vai e por onde anda o José Luiz Moreyra agora, aos 51 anos… o que será que ele traz dessas palavras no coração dele?

As minhas mãos estão com saudades das tuas

quinta-feira, agosto 13th, 2009

O marido encontrou a poesia que a bruxa-mãe catava em seus alfarrábios analógicos! Copiei daqui. Mas a bruxa-mãe deu umas canetadas, porque, ao ler, ela se lembrou do soneto.

Guilherme de Almeida. In Cartas que eu não mandei. Ed. Guanabara, 1932.

As minhas mãos estão com saudade das tuas…

Elas eram tão frias:frias como duas
conchas em que o meu beijo lento parecia
uma pérola quente, e onde eu, tímido, ouvia
o eco do coração que vinha se quebrar
em ti, como se escuta o soluço do mar
nas conchas exiladas….
Ainda há pouco,quando
eu deixei minha mão pensativa sonhando
sobre esta folha branca em que te escrevo, tive
a impressão de que ela não era um pássaro que vive
morrendo numa folha – a última folha…Em breve
o vento a levará como um esquife leve
onde o pássaro há de ir gelado, imóvel, mudo,
de azas fechadas, como um anjo morte…E tudo
por ele há de cantar – e os ventos outonais
e as cigarras… – por ele que não soube mais
cantar o canto azul da sua mocidade…
As minhas mãos estão chorando de saudade….
Elas estão lembrando aquele adeus calado
que está lá atras,gesticulando no passado
como um traço de seda
Ainda me lembro: eu tinha
tão diluida e apertada a tua mão na minha,
que,como os fios de uma seda que se esgarce,
nossos dedos custaram tanto a separar-se!
Foi uma vida que esse adeus rasgou em duas…
As minhas mãos estão com saudade das tuas
Almeida,Guilherme. Cartas que eu não mandei. Ed. Guanabara, 1932

Elas eram tão frias: frias como duas

conchas em que o meu beijo lento parecia

uma pérola quente, e onde eu, temido, ouvia

o eco do coração que se vinha quebrar

em ti, como se escuta o soluço do mar

nas conchas exiladas….


Ainda há pouco, quando

eu deixei minha mão pensativa sonhando

sobre esta folha branca em que te escrevo, tive

a impressão de que ela era um pássaro que vive

morrendo numa folha – a última folha… Em breve

o vento a levará como um esquife leve


onde o pássaro há de ir gelado, imóvel e mudo,

de asas fechadas, como um anjo da morte… E tudo

por ele há de cantar – e os ventos outonais

e as cigarras… – por ele que não soube mais

cantar o canto azul da sua mocidade…


As minhas mãos estão chorando de saudade….

Elas estão lembrando aquele adeus calado

que está lá atrás, gesticulando no passado

como um rasgo de seda


Ainda me lembro: eu tinha

tão diluída e apertada a tua mão na minha,

que, como os fios de uma seda que se esgarce,

nossos dedos custaram tanto a separar-se!

Foi uma vida que esse adeus rasgou em duas…


As minhas mãos estão com saudade das tuas

Por que me ufano de Chico Bento

quinta-feira, agosto 13th, 2009
"Creidi? Quem é essa sirigaita?" Miacaaaaabo!!

"Creidi? Quem é essa sirigaita?" Miacaaaaabo!!

Miacaaaaaaaaaabo com o Chico Bento!

Esse quadrinho está na página 18 da revistinha dele, edição deste mês. Aliás, se você quiser manter o bom nível de suas leituras, recomendo veementemente que troque revista Veja por Chico Bento.

Na historinha de abertura, Zeca, o primo do Chico Bento que mora na cidade, foi com a namoradinha Denise pra roça, fazer uma festa rave de aniversário.

Nesse quadrinho, o Chico, totalmente envolvido com os preparativos para o evento que “causou na roça”, recomenda à Rosinha que faça um upgrade. E a Rosinha fica doida pra saber “quem é essa sirigaita dessa Creidi”.

Amo quem destrói com tanta classe e deboche as macaquices dos anglicismos que, de tão incorporados ao nosso dia-a-dia (com hífen, pelamordedeus!) já nem incomodam mais aos nossos ouvidos conformados.

E não pensem vocês que o Chico Bento é o meu personagem favorito. Prefiro o Zé Lelé.

Porque é linda e porque hoje é dia dela

terça-feira, agosto 11th, 2009

Santa Clara, clareai / Estes ares / Dai-nos ventos regulares, / de feição.
Estes mares, estes ares / Clareai.
Santa Clara, dai-nos sol. / Se baixar a cerração, / Alumiai
Meus olhos na cerração. / Estes montes e horizontes / Clareai.
Santa Clara, no mau tempo / Sustentai / Nossas asas.
A salvo de árvores, casas, / E penedos, nossas asas / Governai.
Santa Clara, clareai. / Afastai / Todo risco. / Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai, / Santa Clara, todo risco / Dissipai.
Santa Clara, clareai

sta_clara

Oração para aviadores (Manuel Bandeira)


Santa Clara, clareai / Estes ares / Dai-nos ventos regulares, / de feição.

Estes mares, estes ares / Clareai.


Santa Clara, dai-nos sol. / Se baixar a cerração, / Alumiai

Meus olhos na cerração. / Estes montes e horizontes / Clareai.


Santa Clara, no mau tempo / Sustentai / Nossas asas.

A salvo de árvores, casas, / E penedos, nossas asas / Governai.


Santa Clara, clareai. / Afastai / Todo risco. / Por amor de S. Francisco,

Vosso mestre, nosso pai, / Santa Clara, todo risco / Dissipai.


Santa Clara, clareai

Esse menino é um pândego…

domingo, agosto 9th, 2009
Esse menino é um pândego…
Arquivado em: Aprenda, estúpido!, Bons exemplos, Conjunto da obra, Ectoplasma suíno, Tio Antônio falou — Madrasta do texto ruim @ 0:39 Editar
Esse post é especialmente dedicado (/rádio brega) à tradutora Jussara Simões, que acha que eu não gosto de expressões antigas. Tudo porque eu, num momento de síndrome de abstinência de Twitter, resolvi implicar com o vírus de linguagem da Mosca que pousou na minha sopa…
Mas não é bem assim… acredito que, bem empregada, qualquer expressão é bem-vinda (à moda antiga, por favor. Abaixo a reforma ortográfica!). E, fora de contexto, uma expressão legal pode perder seu sentido – ou mesmo sua graça e charme próprios. Comparar Twitter com coqueluche, por exemplo, como foi o caso do post em questão, foi banalizar a coqueluche. Uma coqueluche fica muito mais… coqueluche     em outros contextos (o bambolê foi uma coqueluche, por exemplo). Em textos de informática e internet, acho meio forçado. Não há essa necessidade. Existem tantas comparações legais pra se fazer com o Twitter…
Mas não é sobre isso que eu quero falar aqui. (vocês já devem ter notado que eu sou prolixa demais, né?) É sobre outra coisa. Um causo, pra ser mais precisa…
Pois estou eu e o suporte técnico (a quem eu chamo de meu marido) deste caldeirão a fazer a migração para um domínio próprio. Deve estar pronto no final desta semana. E, como boa bruxa capitalista que sou, resolvi instalar o Google AdSense na versão domínio próprio do OD. Marido que fez isso.
Daí que esse menino traquinas que é o Google AdSense entrou no meu blogue, fuçou as palavras mais usadas, viu os últimos posts e, aplicando seu estilo inabalável e critério próprio, decidiu qual perfil de publicidade seria digno deste caldeirão.
O post sobre a repatriação do Valdívia mais a categoria ectoplasma suíno me renderam publicidades de… vendas de camisas do Palmeiras e de suinocultura!!
Miacaaaabo com o AdSense!!!
E foi aí que eu me lembrei da Jussara Simões. Soltei uma gargalhada ao ver os anúncios do Google e falei com o marido: é um pândego esse Ad Sense, não?
Tio Antônio, explica por favor…
pândego
adj.s.m. (1881)  que ou aquele que é dado a pândegas; alegre, engraçado ¤ etim regr. de pandegar ¤ sin/var ver sinonímia de brincalhão ¤ par pandego(fl.pandegar)

Esse post é especialmente dedicado (/rádio brega) à tradutora Jussara Simões, que acha que eu não gosto de expressões antigas. Tudo porque eu, num momento de síndrome de abstinência de Twitter, resolvi implicar com o vírus de linguagem da Mosca que pousou na minha sopa…

Mas não é bem assim… acredito que, bem empregada, qualquer expressão é bem-vinda (à moda antiga, por favor. Abaixo a reforma ortográfica!). E, fora de contexto, uma expressão legal pode perder seu sentido – ou mesmo sua graça e charme próprios. Comparar Twitter com coqueluche, por exemplo, como foi o caso do post em questão, foi banalizar a coqueluche. Uma coqueluche fica muito mais… coqueluche     em outros contextos (o bambolê foi uma coqueluche, por exemplo). Em textos de informática e internet, acho meio forçado. Não há essa necessidade. Existem tantas comparações legais pra se fazer com o Twitter…

Mas não é sobre isso que eu quero falar aqui. (vocês já devem ter notado que eu sou prolixa demais, né?) É sobre outra coisa. Um causo, pra ser mais precisa…

Pois estou eu e o suporte técnico (a quem eu chamo de meu marido) deste caldeirão a fazer a migração para um domínio próprio. Deve estar pronto no final desta semana. E, como boa bruxa capitalista que sou, resolvi instalar o Google AdSense na versão domínio próprio do OD. Marido que fez isso.

Daí que esse menino traquinas que é o Google AdSense entrou no meu blogue, fuçou as palavras mais usadas, viu os últimos posts e, aplicando seu estilo inabalável e critério próprio, decidiu qual perfil de publicidade seria digno deste caldeirão.

O post sobre a repatriação do Valdívia mais a categoria ectoplasma suíno me renderam publicidades de… vendas de camisas do Palmeiras e de suinocultura!!

Miacaaaabo com o AdSense!!!

E foi aí que eu me lembrei da Jussara Simões. Soltei uma gargalhada ao ver os anúncios do Google e falei com o marido: é um pândego esse Ad Sense, não?

Tio Antônio, explica por favor…

pândego

adj.s.m. (1881)  que ou aquele que é dado a pândegas; alegre, engraçado ¤ etim regr. de pandegar ¤ sin/var ver sinonímia de brincalhão ¤ par pandego(fl.pandegar)

Vem, Álvaro! Eu suplico!

sábado, agosto 8th, 2009

Semaninha safada essa! As amebas surtaram geral!

‘Bora desinfetar o caldeirão. O melhor espírito de luz para fazê-lo é o meu querido Alvaro Moreyra.

Já citei ele aqui, aqui, aqui e aqui. (Não percam, porque vale a pena.)

Então, Álvaro, o caldeirão é todo teu! Desfila a beleza de tuas palavras, de teu estilo!

Os discos não tocavam como antes. Veio um técnico:

– É a agulha.

– Que é que tem?

– Precisa ser mudada.

– Mas disseram que essa agulha era eterna!

– E o senhor acredita na eternidade?

***

Agora, a noite veio, sentado junto da janela, a minha mão esquerda pousa na minha mão direita como se uma quisesse que a outra sentisse que as duas não estão sozinhas…

[suspiro.]

Mais uma vez, os trechos foram retirados do livro Havia uma Oliveira no Jardim. E foram retirados mesmo, porque eu digitei tudinho agora.

Boa noite! Até segunda!

Tio Antônio chegou!

quarta-feira, agosto 5th, 2009
Tio antônio tá bonito!

Tio Antônio tá bonito!

Este post é um patrocínio da Editora Objetiva. Que, gentilmente, enviou a esta bruxa que vos fala um exemplar em CD-ROM (e pelamor, não leia cedê-rúm! Leia cedê- rôm!) de Tio Antônio (/Novo Houaiss). Versão atualizada, dentro dos padrões da nova ortografia! Olha que lindinho que ficou!!!

E, por mais bruxa que eu seja, eu sei como ser educada: Muito obrigada, Editora Objetiva!!

Por que ninguém entende o uso dos porquês numa frase? Porque, embora pareça complicado, é simples. Uai, mas existe um porquê? Por quê?

sexta-feira, julho 31st, 2009

Este post foi motivado pela FAQ 35 do mais novo blog do Cardoso. Como lidar com separações, uniões e enchapelações dos porquês.

O troço é purdimais de simples. E é o tipo de errinho que é tão bobinho que a gente nem percebe, simplesmente deixa passar batido. E, como não é nada gritante ou escandaloso, como um seje bem-vindo, por exemplo, a gente deixa prá lá no meio da frase sem fazer maiores estragos – e quem disse que esses estragos são de grande porte?

Mas vamos à explicação. Baseio-me no Manual de Redação e Estilo do Estadão, a única coisa razoavelmente prestável produzida pelo clã dos Mesquita.

Por que – Usado em perguntas, ou em frases com efeito de pergunta:

Ô vovó, por que essa boca tão grande? / Puxa vida, a vovó ainda não me explicou por que ela tem uma boca tão grande.

Porque – Usado em respostas, ou em frases com efeito de resposta:

Tenho esta boca grande porque fui mordida por um marimbondo, ó netinha salsinhenta. / Expliquei à salsinhenta da minha neta que estou com  a boca grande porque fui mordida por um marimbondo.

Por quê – sem maiores explicações. O por que é separado e tem valor de pergunta? Ótemo. Tá no final da frase? Então, não enche o saco, taca o chapeuzinho (se vc quiser que ele seja vermelho, o problema é seu. Mas eu tinha que enfiar esse trocadilho aqui em algum lugar, já que minhas frases de exemplos são ilustradaspor…. ah, vá! Não vou ficar explicando trocadilho! Credocruz, fico meio amebenta nas noites de sexta-feira….), parte pro abraço e não enche, oras!

Ô vovó, você está com a boca tão grande…. por quê?

Porquê – Esta toba daí do lado é a única palavra que não é conjunção, mas substantivo. Ou seja:  se, na frase, o porquê puder ser substituído pelas palavras motivo, razão ou circunstância (lembre-se do professor Girafales, mas considere que, na frase do link em questão, seria melhor a expressão por qual causa (…) ), ele vai junto e com acento. Diquinha básica: se ele levar um artiguinho o ou um antes, então é batata – e chapeuzinho. Se levar o artiguinho os ou uns antes, daí ele vai pro plural e vira porquês.

Minha netinha não entendeu o porquê de eu estar com a boca grande.

Agora, se você chegou até aqui e sabe falar inglês não maravilhosamente, mas razoavelmente bem (pode até traduzir West Bank por Margem Direita), agora é que você não erra mais:

Pegue a frase original em português com o porque enfiado, e traduza a dita pro inglês. Se, na tradução, seu por que virou why, então separa o benedito; se o porque virou because, gruda o dito cujo. E, se virou reason – junta e taca o acento – e beijomeliga.

Pasto bom, sô!

terça-feira, julho 28th, 2009
Simples, preciso, conciso, objetivo e direto. Como uma boa prosa no interior.

Simples, preciso, conciso, objetivo e direto. Como uma boa prosa no interior.

Texto de banco escrito para o queridocliente é tão ruim que, quando eu vejo um bom exemplo, chego até a me emocionar. Isso depois de conferir se eu estou delirando, claro.

O banco em questão tem uma considerável clientela no setor rural, e resolveu fazer um chameguinho com o queridocliente. Tá na home deles, que eu não vou lincar aqui porque, por mais emotiva que esteja, não vou gerar tráfego gratuito pra banqueiro. Mas o textinho acima é irretocável.

Começa com o porque junto no início da frase. Pooonto positivo! Ou milagre, sei lá.

Mas o texto deixa evidente que quem o escreveu não é ameba. Uma ameba autêntica teria colocado vírgula entre país e merece (quarta linha), para de vez assassinar a regra de que sujeito e predicado não se separam por vírgula em língua nenhuma do mundo. Não, não senhor: o texto acima foi escrito por um autêntico ectoplasma suíno! Ectoplasmas suínos deixam sua (boa) marca registrada por onde passam!

Embora seja meio longuinha, a primeira frase do segundo parágrafo tem ritmo, tem cadência. Tanto é que, mesmo sem a vírgula na quarta linha, você sabe que dá pra dar uma paradinha pra respirar ali mesmo. E o verbo merece, repetido na frase seguinte, reforça o ritmo e a cadência iniciados na frase anterior, e arremata a ideia do “vem cá, meu rei, que eu te dou um chamego”. E o que é melhor: não ficou piegas!

Como um cafezinho daqueles passados no coador, que regam as melhores prosas do interior.

Ai, eu estou ficando muito emotiva, viu? Mas a imagenzinha acima me prova que ainda existe esperança na humanidade!!

Carlito Maia, sempre genial

sexta-feira, julho 24th, 2009

Sei que estou meio sumida deste caldeirão, mas tenho assuntos de feiticeirinho a tratar. Enquanto semana que vem não chega e me libera dessas questãs, deixo vocês com algumas frases geniais do idem Carlito Maia. Se você não sabe quem foi Carlito Maia, não se dê ao trabalho de jogar no Google. Clica aqui, e confira a homenagem que os filhos fizeram a ele.

E foi do link “carlitadas, carlitices, cartolices” que eu tirei essas frases lapidares do Carlito Maia. Divirtam-se com elas, mas antes permitam-me agradecer ao @luizcebola e ao @inagaki, por postarem esse link no Twitter. Agira sim, vamos às frases:

O PT não é do Lula, o Lula é do PT.
São Paulo separa os amigos e junta os inimigos.
Amo São Paulo com todo ódio.
Não pode haver democracia onde os democratas são minoria.
Evite acidentes, faça tudo de propósito.
Brasil? fraude explica!
Homem está em falta, machão tem a dar com pau.
Vim ao mundo a passeio, não em viagem de negócios.
Se o PT não existisse, eu o inventaria.
O PT está dividido entre xiitas e chaatos.
A esquerda, quando começa a contar dinheiro, vira direita.
Poderia chamar-se Vanity Fairnando Henrique, o egonomista.
Collorido pela própria natureza, o tucano é aquele que tem vergonha de ser PFL e não tem coragem de ser petista.
Acordem e Progresso!
Deixei de usar gravata porque sentia um nó na garganta.
Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito.
O PT é composto por seres humanos, com todos os defeitos e virtudes: xiitas e xaatos, xiiques e xuucros, xaaropes e xeeretas.
Pela privatização da privada pública! Ou pela estatização da Privada!
PT, estrela vermelha, astral azul, a luz no fim do túnel, Puta Tesão!
A verdade deve ter escravos e não donos.
Nós não precisamos de muita coisa. Só precisamos uns dos outros.
  • O PT não é do Lula, o Lula é do PT.
  • São Paulo separa os amigos e junta os inimigos.
  • Amo São Paulo com todo ódio.
  • Não pode haver democracia onde os democratas são minoria.
  • Evite acidentes, faça tudo de propósito.
  • Brasil? fraude explica!
  • Homem está em falta, machão tem a dar com pau.
  • Vim ao mundo a passeio, não em viagem de negócios.
  • Se o PT não existisse, eu o inventaria.
  • O PT está dividido entre xiitas e chaatos.
  • A esquerda, quando começa a contar dinheiro, vira direita.
  • Poderia chamar-se Vanity Fairnando Henrique, o egonomista.
  • Collorido pela própria natureza, o tucano é aquele que tem vergonha de ser PFL e não tem coragem de ser petista.
  • Acordem e Progresso!
  • Deixei de usar gravata porque sentia um nó na garganta.
  • Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito.
  • O PT é composto por seres humanos, com todos os defeitos e virtudes: xiitas e xaatos, xiiques e xuucros, xaaropes e xeeretas.
  • Pela privatização da privada pública! Ou pela estatização da Privada!
  • PT, estrela vermelha, astral azul, a luz no fim do túnel, Puta Tesão!
  • A verdade deve ter escravos e não donos.
  • Nós não precisamos de muita coisa. Só precisamos uns dos outros.

Né por nada não…

quarta-feira, julho 22nd, 2009
Até o Chrome tá sabendo...

Até o Chrome tá sabendo...

…mas esse aviso quem me deu foi o Chrome, meu navegador fofucho (livre, leve, solto e não-M$. Tuudo de bom!).

E ele ainda me ofereceu ‘informações detalhadas sobre os problemas com os elementos!

As amebas do Ig já são detectadas até por navegadores, impressionante! Resolvi respeitar: não vou navegar por essa página, não…

(E sim, eu sei o que é um malware, e que não tem nada a ver com a qualidade dos textos e etecétera. Mas é que a piadinha tava quicando, eu ti-nha que chutar pro gol!)

Mais máximas e mínimas do Barão de Itararé

sexta-feira, julho 17th, 2009
  • Pato educado come com as patas.
  • Que faz o peixe afinal? Nada…
  • O limão é uma laranja com azia.
  • A balança era, antigamente, o símbolo da justiça. Hoje é a desgraça da freguesia dos armazéns de secos e molhados.
  • Quando pobre come frango é porque um dos dois está doente.
  • O voto deverá ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
  • Cada povo tem o governo que merece – mas não é menos verdade que muitos povos não merecem o governo que têm.
  • A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia ou, então, não funciona, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.
  • Houve um tempo em que os animais falavam. Hoje, eles também escrevem.

Rima melhor quem rima por último

quinta-feira, julho 16th, 2009

Já vou avisando: se clicares aí em cima estarás por tua conta e risco!

Esse troço aí em cima é o “funk do Twitter”. Tá circulando… pelo Twitter, claro!

Recebi isso em vários pios, mas sempre me recusei a ouvir. Até que o Cardoso apontou para este link aqui. Em seu blog, o Eden Wiedemann falou sobre a… obra.

Nos comentários, o…. autor da obra reclamou, e desafiou o Eden a fazer melhor. E ele fez:

Douglas, meu amigo
Seu desafio foi aceito
E aqui eu vou reafirmar
que sua rima tem defeito
e é usando de rima
que vou mostrar seu malfeito
“Uns que pensam que é”
é ruim de doer
Usou “estatuto” a toa
isso devo lhe dizer
“Idiota” com “Bateu as bota”
Esqueceu o S sem perceber?
“Meus amigo saber”
Concordância nem pensar
E você quer me dizer
que ainda sabe Rimar?
Quem rima faz bonito
pra qualquer merda não publicar
O seu vídeo não é ruim
ele é até engraçado
Mas se critica lhe incomoda
não devia ter publicado
Podia ter mostrado só pros amigos
E não teria se estressado
Acho que esclareci
o porque de ter falado
que sua rima não é boa
e de ter sacaneado
Dizendo que é coisa de funkeiro
o negócio de rimar errado
Eu também não rimo bem
Como pode perceber
Mas nem precisa muito esforço
pra rimar como você
Se ainda acha ruim
Então…

Douglas, meu amigo
Seu desafio foi aceito
E aqui eu vou reafirmar
que sua rima tem defeito
e é usando de rima
que vou mostrar seu malfeito

“Uns que pensam que é”
é ruim de doer
Usou “estatuto” a toa
isso devo lhe dizer
“Idiota” com “Bateu as bota”
Esqueceu o S sem perceber?

“Meus amigo saber”
Concordância nem pensar
E você quer me dizer
que ainda sabe Rimar?
Quem rima faz bonito
pra qualquer merda não publicar

O seu vídeo não é ruim
ele é até engraçado
Mas se critica lhe incomoda
não devia ter publicado
Podia ter mostrado só pros amigos
E não teria se estressado

Acho que esclareci
o porque de ter falado
que sua rima não é boa
e de ter sacaneado
Dizendo que é coisa de funkeiro
o negócio de rimar errado

Eu também não rimo bem
Como pode perceber
Mas nem precisa muito esforço
pra rimar como você
Se ainda acha ruim
Então…

Em tempo: depois desses singelos versinhos, me senti na obrigação de ouvir o tal do funk. Aguentei por 1 minuto e 20 segundos. Depois fui tomar um Dramin pra não vomitar.

Veríssimo e o trema

quarta-feira, julho 15th, 2009

O texto de hoje é dedicado (/rádio brega) à Rafaela, que adora freqüentar com trema os lugares de sua preferência, mas fica com a consciência pesada por causa dos pinguinhos do ü.  rafaela, tededico. Na hora em que li sua observação me lembrei desse texto de Luis Fernando, que li no Blog do Noblat ainda em dezembro. Repare que você está em boa companhia com seu apego pelo trema. Esse texto também foi publicado no Jornal “Zero Hora” nº. 15806, de 1/12/2008. Mas eu o copiei deste blog aqui.

Müller e Anais
Esta pode ser a última oportunidade que terei para usar o trema e compensar todas as vezes que o omiti por pura implicância.
Luis Fernando Verissimo
Estou me sentindo culpado. Nunca usei o trema. Desde que aprendi a escrever – sem piadas, por favor –, ignorei o trema. Quando comecei a escrever, por assim dizer, em público, continuei a ignorá-lo. Os revisores, se quisessem, que acrescentassem os tremas onde cabiam. Por vontade própria, nunca botei olhos de cobra em cima de nenhum “u”. Nem mesmo quando o computador, com sua conhecida aversão à informalidade gramatical, sublinhava a palavra em vermelho para me avisar que estava faltando o trema, burro! Se dependesse de mim, o trema não existiria.
Mas com a nova reforma ortográfica, o trema vai desaparecer. E eu fiquei com remorso. Talvez tenha sido injusto com ele. O trema, afinal, tinha uma história. Tinha uma razão para existir, mesmo modesta. Tinha uma função, mesmo dispensável. E eu o desdenhara sem dó, coitadinho. Como me penitenciar?
Esta pode ser a última oportunidade que terei para usar o trema e compensar todas as vezes que o omiti por pura implicância. A reforma já está sendo implantada, os pontinhos marcham, dois a dois, para o esquecimento, tenho pouco tempo para me reabilitar. Mas como?
Quase todas as matérias que li sobre o fim do trema citavam que ele só continuará sendo usado em nomes estrangeiros como Müller e Anaïs. Müller e Anaïs! Uma história para Müller e Anaïs, rápido.
Uma história com seqüência, conseqüência, eloqüência…
Talvez uma história policial: a dupla Müller e Anaïs atrás de delinqüentes.
Ou uma história de excessos eqüestres levando ao uso freqüente de ungüentos.
Ou uma simples cena doméstica. Müller e Anaïs na cozinha do seu apartamento, eqüidistantes de um pingüim em cima da geladeira. Müller acaba de chegar da rua.
— Anaïs, esse pingüim…
— Quêqui tem?
— Eu não agüento esse pingüim, Anaïs.
— Ele está aí há cinqüenta anos e só agora você nota?
— Cinqüenta anos, Anaïs?
— Está bem, cinco. Um qüinqüênio.
— Um qüinqüênio?
— Um qüinqüênio. E vai ficar aí outro qüinqüênio.
– Não se usa mais pingüim em geladeira, Anaïs. É uma coisa do passado. Como a crase.
— Pois eu gosto e está acabado. Trouxe a lingüiça?
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 15806, 1/12/2008.

Müller e Anaïs

Estou me sentindo culpado. Nunca usei o trema. Desde que aprendi a escrever – sem piadas, por favor –, ignorei o trema. Quando comecei a escrever, por assim dizer, em público, continuei a ignorá-lo. Os revisores, se quisessem, que acrescentassem os tremas onde cabiam. Por vontade própria, nunca botei olhos de cobra em cima de nenhum “u”. Nem mesmo quando o computador, com sua conhecida aversão à informalidade gramatical, sublinhava a palavra em vermelho para me avisar que estava faltando o trema, burro! Se dependesse de mim, o trema não existiria.

Mas com a nova reforma ortográfica, o trema vai desaparecer. E eu fiquei com remorso. Talvez tenha sido injusto com ele. O trema, afinal, tinha uma história. Tinha uma razão para existir, mesmo modesta. Tinha uma função, mesmo dispensável. E eu o desdenhara sem dó, coitadinho. Como me penitenciar?

Esta pode ser a última oportunidade que terei para usar o trema e compensar todas as vezes que o omiti por pura implicância. A reforma já está sendo implantada, os pontinhos marcham, dois a dois, para o esquecimento, tenho pouco tempo para me reabilitar. Mas como?

Quase todas as matérias que li sobre o fim do trema citavam que ele só continuará sendo usado em nomes estrangeiros como Müller e Anaïs. Müller e Anaïs! Uma história para Müller e Anaïs, rápido.

Uma história com seqüência, conseqüência, eloqüência…

Talvez uma história policial: a dupla Müller e Anaïs atrás de delinqüentes.

Ou uma história de excessos eqüestres levando ao uso freqüente de ungüentos.

Ou uma simples cena doméstica. Müller e Anaïs na cozinha do seu apartamento, eqüidistantes de um pingüim em cima da geladeira. Müller acaba de chegar da rua.

— Anaïs, esse pingüim…

— Quêqui tem?

— Eu não agüento esse pingüim, Anaïs.

— Ele está aí há cinqüenta anos e só agora você nota?

— Cinqüenta anos, Anaïs?

— Está bem, cinco. Um qüinqüênio.

— Um qüinqüênio?

— Um qüinqüênio. E vai ficar aí outro qüinqüênio.

– Não se usa mais pingüim em geladeira, Anaïs. É uma coisa do passado. Como a crase.

— Pois eu gosto e está acabado. Trouxe a lingüiça?

E não se iludam…

domingo, julho 12th, 2009
Primo Michaelis também é honesto, viu?

Primo Michaelis também é honesto, viu?

Custe o que custar, este caldeirão aqui irá assegurar, sempre, a integridade e a credibilidade de todos os dicionários.

Quem for assinante UOL pode conferir aqui. Quem não for, confere na figura acima.

No dicionário Michaelis, não existe a palavra reciprocitar.

Portanto, o ectoplasma suíno (/espírito de porco) que tentou falsificar a página do Michaelis vai se ver é com dona reciprocação – aquela que enche o Chuck Norris de sopapos…

De tautologias e pleonasmos

sábado, julho 11th, 2009

Esse vídeo faz parte da comédia Nóis na Fita, com Leandro Hassum e Marcius Melhem. Miacabeeeeeei de rir aqui!

Para que fique bem claro que amebas que falam em novo lançamento, elo de ligação ou encarar de frente são risíveis e irritantes.

(E tente não reparar na orelha horizontal do Marcius Melhem. 😀 )

Uma letrinha só…

quinta-feira, julho 9th, 2009

umaletrinha… e olha a diferença na informação!

Enviado pelo falso Professor Pasquale, via Twitter.

Frase do dia

quarta-feira, julho 8th, 2009

Ao comentar um pio do falso professor Pasquale, em que o catedrático explica que o correto é dizer  Fulano corre risco de morte (e não risco de vida), o André Moreno foi perfeito em sua observação, que será nossa frase do dia:

Os únicos riscos de vida que eu conheço são camisinha furada e pílula de farinha.

Máximas e Mínimas do Barão de Itararé

quarta-feira, julho 8th, 2009

Alguns exemplos das Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, frases de rodapé que era publicadas em seu jornal, A Manha (bisavô da turma do Casseta) e, mais tarde, no AlMANHAque, o almanaque d’A Manha:

  • A solidez de um negócio se mede pelo seu lucro líquido.
  • De onde menos se espera, daí é que não sai nada, mesmo.
  • Dize-me com quem andas, e dir-te-ei se vou contigo.
  • Tempo é dinheiro. Vamos, então, fazer a experiência de pagar nossas dívidas com o tempo.
  • Peço desculpas pelo meu inglês, porque faz muito tempo que eu nunca fui à Inglaterra.
  • O fígado faz muito mal à bebida.
  • A conversa prejudica o trabalho. Deixe, portanto, de trabalhar sempre que quiser conversar.
  • O homem que se vende recebe sempre mais do que vale.
  • Se você tem uma dívida, não se preocupe, pois preocupações não pagam dívidas. Nesse caso, é melhor deixar que o credor se preocupe por você.
  • Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.
  • Banco é uma instituição que empresta dinheiro pra gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa do dinheiro.
  • Em toda parte do mundo, há homens ateus e mulheres à toa.
  • O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta.
  • O burro é um cavalo com ideias próprias e convicções inabaláveis.

Publicado com o WordPress