O incrível caso do gerúndio que virou preposição

Mark Twain já dizia (e a tradução se aplica bem ao Português, já que ele falava Inglês) que, se ele ganhava para escrever por palavras, não via por que escrever metrópole (nove caracteres) se ele podia escrever cidade (seis caracteres) pelo mesmo preço.

Pensemos. (Ai, não desiste de ler este post só porque eu pedi pra você pensar, ameba escrevente! Fique até o final. Vamos, tente resistir!) Qual o objetivo de se usar num texto um verbo polissílabo, no gerúndio, de 11 caracteres (sem espaços), se ele pode ser substituído por uma singela preposição de apenas quatro caracteres?

Sim, refiro-me ao famigerado objetivando. Prá quê uma frase com ele, em qualquer canto? Ele é grande, feio, longo, esquisitão, e dá ao seu interlocutor a estranha sensação de que você vai enrolá-lo (o seu interlocutor) com alguma história…

Me joguei no Google à cata de maus exemplos de frases com este verbo, e encontrei algumas tchutchucas. Espiem só:

 [o documento XYZ]  vem sendo atualizado e aperfeiçoado pela empresa Tal, objetivando disponibilizar aos profissionais de marketing e planejamento informações atualizadas e confiáveis sobre o consumidor brasileiro.

Esse texto fica bem melhor e mais claro assim:

 [o documento XYZ]  é atualizado e aperfeiçoado [anualmente] pela empresa Tal, para fornecer aos profissionais de marketing e planejamento informações atualizadas e confiáveis sobre o consumidor brasileiro.

Ou, então, este aqui:

Objetivando disponibilizar aos exportadores [de determinado estado brasileiro] as vantagens da utilização do mecanismo de drawback, o Centro Tal promove,na sede da Entidade, curso sobre o tema, em parceria com [Fulano].

 Que fica melhor assim:

Para oferecer aos exportadores [de determinado estado brasileiro] as vantagens da utilização do mecanismo de drawback, o Centro Tal promove,na sede da Entidade, curso sobre o tema, em parceria com [Fulano].

Gente, prá quê complicar se dá pra simplificar? Outro caso i-na-cre-di-tá-vel de rococó-empolêixon é o deste texto aqui, de um banco a seus investidores, com os resultados do primeiro semestre de 2001:

Assim, objetivando disponibilizar um ambiente tecnológico que possibilite suportar de forma eficiente a expansão das atividades programadas para os exercícios subsequentes,o [banco] finalizou, no primeiro trimestre, o projeto da Nova Solução de Agências, que irá promover profundas mudanças nos equipamentos e aplicativos utilizados pela rede de dependências, cuja efetiva implantação iniciou-se no mês de abril e foi, praticamente, finalizada no final desse primeiro semestre.

Ai, deixa eu respirar….Eu queria ter cortado o texto antes, mas se vocês repararem, o ponto ocorre depois de quatro linhas inteiras!!! Isso com o recuo da citação… Deixa eu tentar ver o que dá pra fazer aqui:

Por isso, o [banco] finalizou, ainda no primeiro trimestre, o projeto da Nova Solução de Agências. Esse projeto vai promover mudanças profundas nos equipamentos e aplicativos utilizados pela rede de dependências. Sua implantação efetiva iniciou-se em abril, e foi praticamente finalizada no final deste primeiro semestre. A ideia desse projeto é prover aos usuários um ambiente tecnológico capaz de suportar de forma eficiente a expansão das atividades programadas para os exercícios [fiscais] subsequentes.

Botei quatro pontos! Transformei uma em QUATRO frases, e acabei com a macaquice do objetivando disponibilizar.

Se vocês repararam, o objetivando, gerúndio do verbo objetivar (que também é outra macaquice praticamente inútil) foi substituído em duas opções pela preposição para. Não tem necessidade de verbo nesses casos. Verbo indica ação. E preposição é uma palavra invariável (ao contrário do verbo, que varia mais que humor de mulher) que une termos de uma oração, de forma a estabelecer relações entre esses termos. Geralmente, um desses termos da oração que a preposição vai unir é um verbo. Se você usa um verbo para relacionar outro verbo à oração, tem alguma coisa errada com a estrutura que o seu texto começa a tomar ainda no aconchego de seus neurônios…

Apenas pense da seguinte forma: verbo indica ação. Ação indica trabalho. Quanto mais ação, mais trabalho. Portanto, seja econômico com a quantidade de verbos que você usa nos textos do trabalho. Pense no seu salário. Você vai chegar à conclusão de que você não ganha pra agir tanto…

Deixe o seu comentário aqui!

Publicado com o WordPress