Percebe, Ivair, a manipulância do cavalo

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Vamos situar a coisa:

No final dos anos 1990, quando rolou a atualização dos Parâmetros curriculares Nacionais, geral estrebuchou: “como assiiiiiiiimmmm???? Não vamos mais ensinar gramática nazescoooooooolas????????” e deu-se o furdunço geral, porque “assim as nossas crianças não aprendem a falar português direito, e o português é difícil, e os ignorantes que as escolas formam que nada aprendem” e etcetcetc blablabla whiskas sachê pereré pão duro.

O que ninguém se deu ao trabalho de fazer foi ler com cuidado os PCN tudo. A ideia não é mais ensinar gramática como está escrito nos livros do Bechara, por exemplo (ufa! Grazadeus!), mas pegar um uso claro de determinado detalhe sintático pra usar como mote pra dar uma aula.

Querem um bom exemplo disso? Manda na lata agora: O que é conjunção?

Tô vendo seus neurônios Tico e Teco jogando nozinha pra lá e pra cá pra tentarem se lembrar do que se trata. Aí, eles vão produzir algo como “ah, é aquele negócio de oração subordinada e oração coordenada, né?”

Tá. Aí, em vez de te dar meio certo e te chamar de burro, vou mostrar pra você como se dar uma aula de conjunção.

Peguemos como exemplo o seguinte texto da Folha (sempre ela, sempre ela!). Vou destacar umas palavras em negrito, e vocês me dizem o que que elas estão fazendo na cadência e nos dados semânticos do texto, OK?

 

Para ‘Financial Times’, impeachment pode jogar país ‘no caos’

O jornal britânico Financial Times diz acreditar que o impeachment da presidente Dilma Rousseff pode ser apenas o começo de mais problemas para o Brasil.

Em reportagem publicada nesta quinta-feira (14), o correspondente do jornal no país, Joe Leahy, explica o complexo cenário político que marcará a votação do processo na Câmara neste domingo (17).

Em formato de perguntas e repostas, o texto chama a atenção para o que chama de “julgamento político” de Dilma, embora ressalte as acusações relacionadas às pedaladas fiscais, que baseiam o pedido de afastamento.

“O impeachment é, essencialmente, um voto de desconfiança. Rousseff se tornou uma das mais impopulares líderes da história democrática do Brasil”, escreveu Leahy.

O FT afirma que há a possibilidade de o processo de impeachment trazer mais instabilidade ou mesmo “jogar o país no caos”.[garoto maroto travesso… não continuou a explicar o que o FT entende por “caos”!]

O jornal cita o fato de que o vice-presidente e possível substituto de Dilma, Michel Temer (PMDB), também corre o risco de perda de mandato por causa da investigação sobre o financiamento da campanha eleitoral que, em 2014, reelegeu ambos.

E, apesar de classificar um eventual governo Temer como mais “amigável” para o mercado, aponta o risco que ele enfrentaria ao ter o PT de volta à oposição, sobretudo por causa da tese defendida por Dilma e seus aliados de que o impeachment é um golpe.

“Se, assim como muitos acreditam, ela (Dilma) e o partido (PT) se recusarem a aceitar o resultado do processo de impeachment, o Brasil entrará em território desconhecido”, opinou Leahy.

A publicação britânica ressalta a crise econômica brasileira e vê culpabilidade de Dilma[e aqui o texto marotamente esqueceu-se do adjunto adnominal mais importante, que é a culpa de dilma SOBRE A CRISE ECONÔMICA, e não dos “crimes” de que ela é acusada], além de mencionar que, embora não seja alvo das investigações do escândalo de corrupção da Petrobras, ela foi presidente do Conselho de Administração da estatal entre 2003 e 2010, período em que o esquema operava.[porque o final do parágrafo vai justamente confundir a “culpa” da Dilma na cabeça do leitor, já que ele joga tudo junto ao mesmo tempo agora no mesmo molho. Percebe, Ivair, a manipulância do cavalo?]

O FT, porém, menciona as pesquisas de opinião que mostram um grande número de brasileiros (58%) como também favoráveis ao impeachment de Temer.

O texto inclui uma comparação com os eventos que levaram ao afastamento de Fernando Collor de Mello da Presidência da República em 1992, em que Leahy observa o fato de que tanto ele à época quanto Dilma terem uma popularidade baixíssima.

Mas o FT observa que, ao contrário de Collor, Dilma tem o apoio de um partido forte no Congresso.

 

 

com o texto acima, um bom professor de português demonstra:

a) o uso de palavras que conduzem a opinião e o raciocínio do leitor (nesse texto, destacam-se as expressões ressalta, observa – e nessa hora a gente sempre mostra o que está sendo observado – tese defendida em vez de alegação/acusação, etcetcetcetc)

b) a escolha precisa dos destaques do texto do Financial Times pra refutar a tese da Folha

c) o uso e o emprego prático de palavras invariáveis que efetuam a conexão sintática entre duas orações, e com essa conexão conferem algum sentido extra à ligação (taí a definição de conjunção que você não soube fazer lá em cima, mas se tivesse uma aula com um texto deste naipe, você saberia recitar a definição porque aprendeu direito, e não porque decorou)

(E eu ainda chamava o professor de inglês pra traduzir o texto original e conferir se o teor dele bate com o que a Folha publicou…)

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