Semântica e machismo: tudo a ver

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Nota da Bruxa: este post foi encomendado por dona Lola. Rendeu altos papos lá pelos cantos dela.

Tava eu conversando com Lola no Twitter e saiu a ideia desse guest post. A intersecção entre a língua e o machismo. “Ah, para, Bruxa, isso não existe!”, dirá você. Mas eu vou provar que o troço existe e a gente nem percebe.

Não, não vou falar sobre o presidentA. Esse assunto já torrou, e pode ser resumido da seguinte forma: é tudo uma questão de acostumar os ouvidos. Antes que você me diga que essa palavra não existe, eu digo que morfologicamente ela pode existir, sim. É só trocar o E pelo A, e pronto. Tá certinha! E pra você parar de encher o saco, só lembro do governante e da governanta. Duas palavras existentes e possíveis. Agora pense direitinho e responda por que uma mulher prefere ser governante a ser governanta. Peça ajuda ao dicionário, se for necessário, pra entender a carga de preconceito da palavra governanta.

Mas eu estou aqui lolamente a fugir do assunto(= fazendo parágrafos enormes, deliciosos e pertinentes, mas sem falar do assunto propriamente dito). Quero mostrar aqui como a sintaxe e a semântica trabalham maquiavelicamente a favor do machismo.

Antes de começar os trabalhos, vamos nomear alhos e bugalhos. Sintaxe é o estudo das funções das palavras numa frase, e semântica é o estudo do sentido dessas palavras na frase. E pra que você entenda de uma vez por todas a diferença entre as duas e nunca mais faça confusão, imagine-as como duas gêmeas xifópagas (pronto, leitores da Lola! Corrigi a palavra aqui! Obrigada pelo puxão de orelha!) que compartilham o mesmo corpo, mas com duas cabeças diferentes. Pois a sintaxe é uma gêmea abobalhadinha, e a semântica é a que manja mais dos paranauê. Aí, eu apresento à sintaxe duas frases:

Eu quero ver barraco armado no Big Brother

e

Eu quero ver barraca armada no Big Brother

A Sintaxe vai me dizer que as duas frases são muito semelhantes: o sujeito é eu, barraco armado/barraca armada são objeto direto e no Big Brother é adjunto adverbial de lugar. E se questionada qual a diferença entre barraco armado e barraca armada, vai simplesmente dizer: gênero. Um sintagma está no masculino, e outro no feminino. E dona sintaxe ainda vai lembrar que adjunto adverbial é função de segunda grandeza, não é tão importante quanto um objeto. (guardem essa informação para mais tarde, porque ela é importante!)

Já dona Semântica vai ler as duas frases, soltar uma sonora gargalhada e entender que na primeira, barraco armado é sinônimo de confusão, briga; e barraca armada é uma alusão ao membro masculino em posição erétil. E ainda vai tirar sarro da minha cara: Ê, Bruxa tarada! Tá querendo ver os homens com o bilau em pé, é? (ah, quando se enfia sacanagem no meio fica mais fácil de entender, né? De nada! :D)

Isto posto, vamos aqui pensar nas aulinhas de merda em que você aprendeu a diferença entre voz passiva e voz ativa. Vamos relembrar voz verbal com a seguinte frase:

 João e Pedro estupraram Maria.

É, é pra chocar mesmo.

Dona Sintaxe analisa essa frase friamente: João e Pedro são sujeito, pois regem o verbo (duas pessoas agindo, o verbo foi para o plural, se o sujeito fosse apenas João, o verbo usado seria estuprou, no singular.); Maria é objeto direto, pois o verbo estuprar é transitivo direto.

E tá certinho.

Na voz ativa, o sujeito é também o agente da ação, e, mais do que isso, aquele que altera o estado final do complemento verbal (no caso, o objeto direto).

Essa noção fica pouco clara na frase João deu uma caneta a Maria, ainda que Maria tenha começado a frase sem caneta e a tenha terminado com uma caneta na mão. Mas na frase João e Pedro estupraram Maria, essa noção fica claríssima, pois o estado final de Maria foi totalmente alterado – e pra pior.

O que acontece se passarmos essa frase pra voz passiva? Aliás, pra que diabos serve uma voz passiva?

Vamos fazer a análise sintática e depois a semântica da frase do estupro na voz passiva, daí eu digo qual a finalidade e mostro um vídeo estupefaciante a respeito disso.

Então, nossa frase estupradora fica assim na voz passiva:

 Maria foi estuprada por João e Pedro

E aí, o que aconteceu?

Ah, Bruxa, eu aprendi que na voz passiva o que era sujeito vira objeto, e o que era objeto vira sujeito!

Pois eu vou conter o pescotapa que eu quero lhe dar. Vou apenas mostrar que:

1-    De fato, o que era objeto direto em João e Pedro estupraram Maria virou sujeito em Maria foi estuprada por João e Pedro. Mas a recíproca não é verdadeira! Pois é, segura o queixo que dona sintaxe, mais uma vez de forma fria, explica:

Na primeira frase, o objeto direto é complemento obrigatório para o entendimento da frase. Não se pode dizer apenas João e Pedro estupraram sem que seja apresentado um objeto direto, um complemento.

Mas na segunda frase, João e Pedro não viraram objeto indireto, como nos faz supor erroneamente a preposição. Eles viraram adjunto adverbial. Lembra que eu falei lá em cima que adjunto adverbial é função de segunda grandeza? Então… a frase Maria foi estuprada por João e Pedro pode acabar depois do verbo:

Maria foi estuprada.

Por quem? Não importa, essa informação é supérflua numa construção passiva.

Isto posto, vamos pensar direitinho no que aconteceu com o verbo de uma voz para outra. O estupraram da ativa virou foi estuprada  na passiva.

Mais uma vez, o verbo concorda com o sujeito, Maria. (que, como vocês já repararam, só se fode nessa merda, coitada…) Mas agora ele se vestiu de locução verbal, um esconjuro morfossintático no qual um verbo auxiliar começa a mandar na parada, e faz com que o verbo principal tenha um único trabalho: o de emprestar seu significado. Então, o verbo ser fez o trabalho de concordância e de informar o tempo e o modo, e ainda por cima jogou um pouquinho do seu significado no molho final da frase. Ser traz o sentido de estado final, concluído, imutável. Apenas pense na diferença entre as frases eu sou bonita e eu estou bonita. Percebeu, né? Então, Maria foi estuprada. Ela saiu da condição de não-estuprada e ingressou no terrível time das sim-estupradas. E de lá nunca mais sairá. Seu estado final foi alterado por dois caras que lá em cima eram sujeito e agentes, e aqui embaixo foram relegados a segundo plano, perderam a importância sintática, mas não deixaram de alterar o estado final de uma pessoa que deixou de ser objeto e ascendeu sintaticamente a sujeito, mas que, nas duas construções, permanece como vítima.

Mas se você pensar bem, a coisa é mais maquiavélica, porque quando dizemos Maria foi estuprada-ponto, tiramos os holofotes dos estupradores e jogamos as luzes todas na vítima, que se torna a culpada por falta de informação relevante na frase. (ah, ela tava procurando / ah, ela tava vestida feito periguete / ah, quem mandou ficar sozinha com homem enfim, esses discursos mais que manjados).

E é disso que fala Jackson Katz nessa palestra brilhante. Observem o que ele fala, mais ou menos aos 2 minutos e 40 segundos de vídeo.

Tudo isso pra te mostrar que, ao transformar um sujeitão todo-poderoso num reles adjunto adverbial, uma das funções da voz passiva é tirar do foco o agente. E jogar a atenção toda pra quem sofre com a ação. E isso significa, em muitas vezes, ocultar o poder. Essa é uma das funções maquiavélicas de uma língua.

Ah, Bruxa, mas isso só acontece com línguas com estruturas como a do português e do inglês! O que acontece em outras línguas? O que acontece com o agente?

Bom, não vou saber falar de todas as línguas do mundo, mas posso te dizer que no grego, por exemplo, o verbo estuprar é conjugado apenas em voz média – uma voz que, dentre outras funções, expressa ações executadas em proveito próprio.

(P.S.: tive essa aula magistral com o lindo do Dioney Moreira Gomes, que vai orientar meu mestrado. A aula de voz verbal do Dioney é que nem o final do filme Curtindo a vida adoidado: você fica lá, parado, processando todas as informações que você recebeu em duas horas, e mal consegue se levantar da carteira e ir embora.)

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3 comentários sobre “Semântica e machismo: tudo a ver”

  1. Fernando F comentou:

    Sobre quem fala que “presidenta” não existe, é só mandar pegar um “Aurélio” daqueles velhos, em papel, dos anos 80 ou 90 e conferir que presidenta já estava lá, muito antes do lulodilmismo chegar ao poder.

  2.        » Voz passiva: você está fazendo isso errado comentou:

    […] frase e transformar vítima em sujeito comandante do verbo. Se vocês quiserem entender ostremtudo, dêem um pulinho aqui que eu já falei disso. Voz passiva é mais semântica do que sintática. Ideal mesmo seria 6 tudo assistirem à aula do […]

  3. Ivana comentou:

    Na oração : Seremos julgados por quem nos criou é uma oração subordinada substantiva Objetiva indireta?

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