Voz passiva: você está fazendo isso errado

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Na faculdade descobri que as aulas que a gente tem na escola sobre voz passiva são uma bosta. Não explicam nada, nem os motivos para se inverter uma frase e transformar vítima em sujeito comandante do verbo. Se vocês quiserem entender ostremtudo, dêem um pulinho aqui que eu já falei disso. Voz passiva é mais semântica do que sintática. Ideal mesmo seria 6 tudo assistirem à aula do professor Dioney sobre isso, iam todos cair pra trás.

Mas tem um lado sintático que, orasbolas, tem que ser respeitado, né? Vamos lá:

Na voz ativa, dizemos: Joana comeu banana. <– Joana é sujeito e agente, e banana é objeto DIRETO. OK?

Vamos passar a frase para a voz passiva: A banana foi comida por Joana. <– Banana virou sujeito, o verbo deu uma cambalhota morfológica, virou locução verbal, pediu ajuda pro particípio passado, tudo pra transformar a pobre da banana, que começou a frase lá em cima inteira e terminou devorada e destruída, em sujeito comandante do verbo.

Repare que Joana não virou objeto direto. A frase poderia muito bem ser “A banana foi comida” – PONTO. Por quem? Não interessa, tô falando do comido, não do comedor. É, cê tá vendo que o bicho pega, né? Então, se quiser entender mais da bagaça, clicaqui que eu já expliquei tudinho.

Mas se você voltar lá em cima, vai ver que eu enfatizei que, na voz ativa, banana é objeto DIRETO. O que acontece com o objeto indireto nesse caso? Vamos ver outra frase: “Eu gosto de sorvete“. <– passa pra “voz passiva”?

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Nem me venha com “sorvete é gostado”. Faça-me o favor! Desista! O fato é que o objeto indireto não vira agente da passiva. Existe uma explicação quilométrica pra isso. Mas aí eu teria que tergiversar sobre distância do sujeito, a frase em questão não é agentiva mas experienciadora, e a preposição que afasta o verbo do objeto, e hierarquia dos complementos / adjuntos, então vamos combinar que vocês podem acreditar em mim – mas depois eu dou munição pra vocês me desacreditarem.

Mas bruxa, por que você tá falando disso agora?

Ah, sim! É por causa desse meme do Ministério da Justiça. Uma empresa reclamada é uma empresa requisitada, exigida, cuja posse é reivindicada etc. Táqui no tio Houaiss:

 

reclamar

verbo ( sXV)

1 (trans. indireto e intransitivo) [preposição: contra, de, por] opor-se por meio de palavras; fazer reclamação; queixar-se: ‹ r. contra as injustiças › ‹ r. dos preços abusivos › ‹ temos o direito de r. ›

1.1 (trans. indireto) [preposição: de] fazer exposição (de estado físico ou moral); descrever (sofrimentos e agravos) por meio de lamentos; queixar-se, lamentar-se: ‹ reclamava das dores nas juntas, quando chovia › ‹ ela sempre reclama das grosserias do marido ›

1.2 ( trans. indireto ) [preposição: de] fazer reparos a (alguém ou algo); criticar: ‹ vive reclamando da comida ›

2 (trans. direto) exigir oralmente ou por escrito (o que lhe pertence); pedir ou mandar de maneira veemente; reivindicar  (ver GRAM) ‹ r. seus direitos ›

2.1 (trans. direto) reivindicar posse ou autoria de; pleitear  (ver GRAM) ‹ r. os direitos autorais de um livro › ‹ r. um legado ›

2.2 (trans. direto) tentar obter, através de pedido ou exigência; pedir, demandar, (ver GRAM) ‹ muitos reclamam a reforma agrária ›

3 ( trans. Direto e bitransitivo) [preposição: a] suplicar, pedir insistentemente; invocar, implorar, clamar: ‹ r. assistência › ‹ o filho reclamou perdão aos pais ›

4 (transitivo indireto) [prep.: por] exigir a presença ou a ação de (alguém), com urgência; clamar ‹ vários deveres reclamam por mim ›

Gramática as acepções. 2, 2.1 e 2.2 foram consideradas galicismo pelos puristas, que sugeriram em seus lugares: pedir, demandar.

 

Ou seja: no texto da arte ao lado, o ministério da Justiça diz que as empresas estão sendo exigidas, e não recebendon queixas. Dona Norma Culta tá aqui do meu lado tendo síncopes, coitada…

 

Mas tem UM caso em que a regência indireta de um verbo não o impede de ir pra voz passiva – dona Norma Culta não reconhece esse filho bastardo, mas ele já é celebridade no português brasileiro. Alguém arrisca a chutar que verbo é esse? (Atualização: o post-spoiler de verbo está aqui)

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8 comentários sobre “Voz passiva: você está fazendo isso errado”

  1. Marcos comentou:

    Vou chutar: é o copiar (em “Fulana foi copiada no e-mail”).

  2. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    errou! 😀 Dica: pensa em ver futebol e ver tV… 😉

  3. Marlena comentou:

    Vou chutar também: obedecer (Toninho não obedeceu ao pedido do policial para encostar no meio-fio/ O pedido do policial para encostar no meio-fio não foi obedecido por Toninho).

  4. Luiz Prata comentou:

    Hã… “Assistir”?

  5. andre i souza comentou:

    Bom, a partir da sua dica, quebrei a cabeça, madrasta, e cheguei à conclusão de que é possível só nos casos dos verbos não pronominais. Aí cabe o verbo assistir, mas só quando se refere a ver, como na sua dica: Caso em que é transitivo indireto e não pronominal. 🙁

    Assistiu AO jogo;
    O jogo foi assistido.

  6. Marcos comentou:

    Acompanho o voto do Luiz e do André.

  7. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Crionças, eis a explicação sobre o verbo que não pode mas faz passiva: http://www.objetivandodisponibilizar.com.br/o-verbo-assistir-e-a-voz-passiva/

  8.        » O verbo assistir e a voz passiva comentou:

    […] Pois bem. Vocês se lembram que eu larguei cêistudo com a pulga atrás da orelha, com a história de verbo que não pode ir pra voz passiva mas vai? […]

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