Objetivando Disponibilizar





As palavras pelas línguas afora (#poção de morfologia nº 2)

Ideograms_3aDepois de lhe provar que esstrem de palavra não é assim tão simples de definir, vou lhe mostrar que o modo como as palavras se formam é ainda mais doido, e varia de língua para língua. Dois alemães, coincidentemente Augustos, um poeta e outro linguista   (senhor Schlegel e senhor Schleicher, respectivamente), começaram a tentar entender as línguas a partir de uma tipologia morfológica, ou seja, a partir da forma como as palavras /vocábulos vão se formando de língua para língua. E o negócio começou a…. eu ia dizer tomar forma, mas vou fugir do trocadilho fácil 😉

Vamos começar com as línguas que se valem de ideogramas, como o japonês. Já pensaram que um desenhinho só significa uma palavra ou conceito abstrato (daí o nome ideograma)?

Eis alguns exemplos de ideogramas chineses (de acordo com este site daqui, vamos partir do princípio de que essas traduções são confiáveis, e não significam, por exemplo, sorvete de creme, OK?)

 

 

Então, de acordo com a tipologia morfológica, o chinês seria um caso de língua isolante: todas as palavras são raízes, não podem ser segmentadas  ou elementos menores. Pra fazer uma diferenciação maior entre os vocábulos, essas línguas tendem a ser tonais (Reparem como um chinês fala cantando…). Vamos ver um exemplo de frase em chinês (fornecida em aula pela professora Roberta):

wo mai júzi chi zuótian
eu comprar laranjas comer ontem

Ou ontem, eu comprei laranjas para comer.

isoladas

 

Chegamos então no turco, tão em moda por causa da nuóvela Salve Jorge. Pois esse idioma é um caso de língua aglutinante, nas quais as palavras combinam raízes e afixos diferentes para explicar as relações gramaticais. Na língua que não é falada na nuóvela das nove,  podemos citar o exemplo de

kayik

lar

imiz

barco

plural

nosso

Ou nossos barcos.

Em outro caso, o das línguas flexionais ou sintéticas, as raízes das palavras se combinam com elementos gramaticais, que indicam a função das palavras e não podem ser segmentados  na base de um som e um significado ou afixo para cada significado (como é o caso do turco, aí em cima). Isso quer dizer que um pedacinho a mais na palavra traz muitas informações. Exemplo disso? O Latim é um. E o português também, se considerarmos o verbo conjugado cant-á-va-mos , um vocábulo que traz a raiz do verbo, a vogal temática, a desinência modo temporal e a desinência número pessoal (acredite, você já estudou tudo isso do português. Vá tomar um Fosfosol e volte logo! 😀 )

Tudo muito lindo, tudo muito legal. Mas essas definições daí de cima dão conta das línguas europeias. O que fazer com as línguas indígenas (já falei delas aqui, prestenção!), por exemplo?

Humboldt entrou na parada e, em 1836, propôs outra configuração pra coisa toda (idiossincrasias de dona Wikipedia: o link com a biografia de Humboldt diz que ele morreu um ano antes de sua teoria ser formulada!). Para ele, haveria, ainda, as línguas polissintéticas ou incorporantes. São idiomas com morfologia complexa, que juntam numa só palavra  um sem-número de morfemas que, em línguas sintéticas, por exemplo, renderiam uma frase inteira. Exemplinho básico. Língua esquimó. A palavra é: angyaghllangyugtuo.

angya

ghlla

ng

yug

tuo

bote

aumentativo

adquirir

Volitivo
(Indicativo de vontade)

Indicativo de
3ª pess. singular

Ou ele quer adquirir um grande bote. <– ó que lindo! Temos sujeito, verbo e objeto direto numa única palavra!

Donde se conclui que as línguas não indoeuropeias deram um revertério em tudo e obrigaram os linguistas a revisarem o conceito de palavra e os mecanismos para sua identificação.

lhama1

Isso tudo para concluir que aqui nas poções de morfologia vamos falar da palavra e suas unidades mínimas (morfemas) com significados.

Mas não se preocupem: nos intervalos vou continuar a exorcizar os textos mal-escritos!

E antes de eu me despedir, vamos ruminar um pouquinho do que foi dito aqui com essa post delícia que traz uma aula de alemão – ou como aglutinar morfemas (e existem versões dela em inglês). Permitam-me copiar o texto abaixo:

A língua alemã é relativamente fácil. Quem sabe Latim e está habituado com as declinações, pode aprendê-la sem grandes dificuldades — ao menos é o que os professores de Alemão dizem em suas primeiras aulas.

Em seguida, quando começamos a estudar os der, des, den, dem, die, eles dizem que é moleza: tudo é apenas uma questão de lógica. Realmente é muito simples; podemos ver isso no exemplo que passamos a examinar.

Tomemos um honesto livro alemão: um volume magnífico, encadernado em couro, publicado em Dortmund, que descreve os usos e costumes dos hotentotes (em Alemão, hottentotten).

O livro nos conta que os cangurus (Beutelratten) são capturados e colocados em jaulas (Kotter) cobertas de um tecido (Lattengitter), para abrigá-los do mau tempo. Essas jaulas são chamadas, em Alemão, “jaulas cobertas de tecido” (Lattengitterkotter); assim que botam um canguru dentro delas, ele é chamado Lattengitterkotterbeutelratten, “o canguru da jaula coberta de tecido”.

Um dias os hotentotes capturaram um assassino (Attentater), acusado de ter matado uma mãe (Mutter) hotentote – Hottentottermutter -, que tinha um filho tonto e gago (stottertrottel). Essa pobre mãe se chama, em Alemão, Hottentottenstottertrottelmutter, e seu assassino é chamado de Hottentottenstottertrottelmutterattentater. A polícia prendeu o assassino e o enfiou provisoriamente numa gaiola de canguru (Beutelrattenlattengitterkotter), mas o prisioneiro escapou. As buscas mal tinham começado, quando surgiu um guerreiro hotentote, gritando:

— Capturei o assassino! (Attentater).

— Sim? Qual? — perguntou o chefe.

— O Lattengitterkotterbeutelratterattentater! — respondeu o guerreiro.

— Como assim? O assassino que estava na jaula de cangurus coberta de tecido? — perguntou o chefe dos hotentotes.

— É, sim, é o Hottentottenstottertrottelmutteratentater (o assassino da mãe hotentote de um menino tonto e gago) — respondeu o nativo.

– Ora , respondeu o chefe, tu poderias ter dito desde o início que tinhas capturado o Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotter beutelrattenattentater.

Como dá para ver, o Alemão é uma língua fácil; basta a gente se interessar um pouquinho..

 

Até breve! \o/



9 comentários sobre “As palavras pelas línguas afora (#poção de morfologia nº 2)”

  1. Luiz Prata comentou:

    Após a 1ª leitura do post (esse é pra ler mais algumas vezes para assimilar tudo), duas coisas me vieram à mente na parte da língua alemã:
    1- A palavra “palavrão” adquiriu um novo significado;
    2- Um oftalmotorrinolaringologista não é nada perto de um Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotter beutelrattenattentater (sim, eu usei Ctrl C/ Ctrl V aqui).

  2. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA

  3. Luiz Prata comentou:

    Fui tentar LER o trem (não é mineirice, é pelo tamanho da palavra mesmo) em alemão e concluí:
    em algum lugar, um ninho de mafagafos está rindo à toa.

  4. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    hehehehehehhehe

  5. Beatriz comentou:

    Adorei o post. Lembrei das aulas na graduação, crusives das aulas de latim. E o grego é taliqual latim tb, e como o português> todo trabalhado nos afixos. E olha, fui entender no duro (#silviosantos) mesmo a sintaxe do português quando estudei a sintaxe grega, mas isso é outra história.
    Explicação ótima e clara. Parabéns pelo post =o)

    bia_francisco

  6. Fabio Mantovani comentou:

    oi professora da Bruxa dá 10 pra ela porque ela é muito inteligente e não copiou da wikipedia. bjo

  7. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Não tem como não amar Fábio Mantovani. Ectoplasma suíno de primeira!

  8. Jefferson Alves comentou:

    Eu teria desistido de falar quando o canguru entrou na jaula.

  9. David Christian comentou:

    “oi professora da Bruxa dá 10 pra ela porque ela é muito inteligente e não copiou da wikipedia. bjo” Mantovani,Fabio

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