Arquivo pela categoria 'Aprenda, estúpido!'

Já que a ordem é fazer merda, vamos fazer bem feita? PORRA, FOLHA!

sexta-feira, novembro 8th, 2013

Tanto já foi dito por tantos a respeito desta manchete vergonhosa

folha

que eu só vou falar mais uma coisinha que ninguém falou, de tão escandalizado:

PORRA, FOLHA!!! A VONTADE DE FAZER MERDA ERA TÃO GRANDE QUE VOCÊ ENFIOU VÍRGULA ONDE NÃO EXISTE, É?

EXPLICA DIREITINHO ESSA VÍRGULA DEPOIS DE PRESO, EXPLICA?

(OK, eu explico: sem a vírgula, a manchete diria que o fiscal ficou preso em uma gravação. E, COMO DEVE TER SIDO PROIBIDO MEXER NA MERDA DO TEXTO ANTES DESSA PARTE, nego achou melhor botar uma vírgula pra ao menos tentar deixar a coisa menos pior.)

MAS PUTAQUEPARIU, QUE MERDA DE MANCHETE, CACETE!!!

QUER FAZER MERDA, AO MENOS FAZ BEM FEITO, PORRA!

Bom, então vamos fazer uma manchete pra Folha.

Permitam-me manter a indecência e a falta de vergonha do texto original:

Primeiro, vamos contar os caracteres das duas linhas da manchete:

Prefeito sabia de tudo, diz = 27 caracteres

fiscal preso, em gravação = 26 caracteres (mais um espacinho sobrando depois do o de gravação, vamos contar 27 caracteres.

Que tal se trocarmos para

Fiscal acusa em gravação:

prefeito estava a par de tudo

Fiscal acusa em gravação: – (25 caracteres, com uma letra m fica mais recheadinho)

Prefeito estava a par de tudo – (29 caracteres, mas como não tem a letra m, dá pra espremer

PRONTO, FOLHA! QUER FAZER MERDA, FAZ BEM FEITO, PORRA!

Aliás,

PORRA, FOLHA!

PORRA, PORRA, PORRA!

(Eu até diria que o subtítulo termina com “Kassab diz que não sabia de nada” é a cerejinha do bolo da putaria, mas acho que já disseram isso. Não vou gastar teoria de análise do discurso com uma manchete tão torpe, tão vil, tão vergonhosa).

 

Atualização do domingo, com  o texto ÉPICO da Ombudsman (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsman/138267-sujeito-oculto.shtml) a respeito da manchete. Claro, vou comentar:

A manchete de sexta-feira passada da Folha –“Prefeito sabia de tudo, diz fiscal preso, em gravação”– induzia o leitor a erro[AH, CEJURA? Mas por que você afirma isso? Manchete tão honesta….]. O prefeito de São Paulo é Fernando Haddad, mas a referência no grampo era a seu antecessor, Gilberto Kassab. [ah, puxa, que bom que cê sabe disso, né? Fico feliz mesmo! O_o]

O título partiu da transcrição de um telefonema em que o auditor fiscal Ronilson Bezerra Rodrigues dizia que deveriam ser convocados para depor “o secretário e o prefeito com quem trabalhei” [AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH então O PREFEITO COM QUEM ELE TRABALHOU é específico? Tem nome, partido?] , porque “eles tinham ciência de tudo”.

Ronilson foi subsecretário da Receita no governo Kassab e, na atual gestão, foi diretor na SPTrans de fevereiro até junho.[aaaaaaaaaaahhhhhhhhh, então a Folha de SPaulo SABE com quem ele trabalhou?]

O fiscal não cita nominalmente o ex-prefeito, mas é fácil deduzir de quem ele está falando[Cejura? Então, se é fácil deduzir, por que a manchete não “deduziu”?]. Foi na gestão anterior que Ronilson ocupou o cargo de zelar pela arrecadação de impostos, o que lhe teria possibilitado atuar na “máfia do ISS” –esquema de cobrança de propina que pode ter causado um prejuízo de R$ 500 milhões aos cofres da cidade.

“A Folha optou por transcrever a declaração do fiscal de forma literal, já que ele não citou nenhum nome e exerceu funções de confiança tanto na gestão atual como na anterior”[então deixa eu ver se eu entendi: a gestão atual instalou uma corregedoria e tá catando focos de corrupção; demitiu o sujeito assim que descobriu que ele tava mais sujo que pau de galinheiro; a gestão anterior… pera… vamos voltar ao que você, ombudsman, falou lá em cima: é fácil deduzir de quem ele está falando”] , diz a Secretaria de Redação.

O excesso de zelo [Kirida, excesso de zelo é passar protetor solar no rabo. O que a Folha de SPaulo fez não é excesso de zelo, é canalhice, é abrir mão do jornalismo objetivo e preciso e direto para investir em subentendidos, e duplos entendidos. TOME TENTO!] ficou só na manchete, já que a hipótese de que a frase do fiscal pudesse ser uma referência a Haddad não foi explorada na reportagem [OU SEJA: o duplo entendido – que é bem diferente de duplo sentido – ficou restrito à parte do texto que é lida pelos transeuntes, no meio da rua, ou pros leitores de home page, que não clicam no resto da notícia pra ler, né?]]. O “outro lado” foi apenas com Kassab, que classificou as declarações de falsas, mas não cogitou que o fiscal estivesse falando de outra pessoa.[ou seja: NEM O KASSAB TEM CULHÃO DE INSINUAR QUE O FISCAL PODE ESTAR FALANDO DO HADDAD.]

(…)

Lindo, SÓ QUE NÃO!

 

Nós, naõ percisamos de reivsoers revisores capacitados

segunda-feira, outubro 28th, 2013

Imagine-se na seguinte situação: você é o Ministério Público do Estado de Minas Gerais. Seus escritos passam longe do português informal. Você deve seguir a norma culta de forma estrita e indiscutível.

E aí? Como proceder? A prudência recomenda contratar um bom revisor de português (melhor:  mais de um!), né? Afinal de contas, é uma questão de obrigação da formalidade do cargo etc e tal pereré pão duro.

Tá. Aí o Conselho Nacional do Ministério Público se reúne EM PLENÁRIA  para deliberar sobre a contratação ou não de revisores no MP de Minas. E acha por bem não contratar revisores. O argumento poderia até proceder (“nossos funcionários contratados passam por seleção que inclui prova de português, portanto eles têm obrigação de dominar fluentemente o idioma”). Mas ele foi argumentado num texto que deu até dó mentira, soltei boas gargalhadas de ler:

(Vou inserir ao final deste post as imagens do PDF referente ao texto cometido, que é pra vocês não pensarem que isso é invenção minha. Mas aqui embaixo vou copiar na base do CTRL+C/CTRL+V o texto tal qual foi escrito, e vamos às canetadas:)

– A competência para o trato linguístico não constitui atribuição exclusiva dos servidores graduados em letras, [data vênia, meritíssimos, mas eu discordo. A competência para o trato linguístico constitui, sim, atribuição de profissional graduado em Letras, cuja honra venho defender neste tribunal. Tal profissional terá especial atenção para detalhes que passam depercebidos de boa parte dos usuários da norma culta e padrão do português. E provo isso! Querem ver?] nem tampouco [<— PROVA Nº1: as conjunções nem e tampouco são sinônimas. Isto posto, dispensa-se o uso de ambas numa mesma frase. Seguidinhas, assim, então, melhor nem comentar… detalhes desse nível se destacam aos olhos de um bom revisor formado em Letras (cuja honra venho defender neste tribunal). Mas prossigamos com o textoAnalistas. A própria aplicação da língua portuguesa, [APRESENTO-LHES A PROVA Nº2: sujeito e predicado não devem ser separados por vírgula. Embora seja regra apresentada à exaustão no ensino básico, é o tipo de detalhe que qualquer pessoa pode cometer ao redigir um texto – até mesmo revisores. Mas a leitura atenta de um bom revisor, formado em letras, cuja honra venho defender neste tribunal, reconhecerá esse errinho, bobo porém grave segundo as regras da norma padrão.]  mostra-se fundida [<— PROVA N 3: Senhores meritíssimos, pelo amor da Data vênia, mas mostra-se fundida é uma expressão muito feia, por remeter a uma terrível expressão de baixo calão que deve ser sumamente evitada em textos compostos em norma padrão (ai, deu até vergonha)! Mas detalhes desse tipo não passam despercebidos de um bom revisor formado em Letras, cuja honra tá parei] … em toda e qualquer [<— PROVA Nº4A] atividade exercida nas dependências do Ministério Público.

– Concentrar toda e qualquer [<— PROVA Nº4B: a expressão toda e qualquer foi repetida no intervalo de apenas uma linha. Um bom revisor, formado em letras, cuja honra venho defender etcetcetc, presta atenção a firulas como a destacada, e substitui uma das expressões, de forma a manter os mínimos padrões de estilo de um texto que por obrigação segue os preceitos da norma culta] análise de correção de linguagem no universo da produção documental do Ministério Público de Minas Gerais em um número limitado de servidores com formação em letras inviabilizaria por completo [rufar de tambores….] a prestação a prestação [<— PROVA Nº5: queridos e excelsos magistrados. Vou concordar com Vossas Excelências na argumentação (ainda que discorde), só para poder lhes perguntar o seguinte: CARAMBA, ATÉ REVISOR DO WORD DETECTA REPETIÇÃO DE PALAVRAS!!!! COMO VOCÊS PUDERAM DEIXAR PASSAR UM ERRO DESSES?!?!?!?!?!?!?!] dos serviços aos quais se destina.

– No caso vertente não há desvio de função caracterizado, nem cargos de Analista vago[PROVA Nº6: os cargoS de Analistaø (isso aqui é um morfema zero, que indica o singular na língua portuguesa, mas isso Vossas Excelências não precisam saber. Basta um bom revisor…. daqueles, sabe? Isso! Formado em Letras! etcetcetc cuja honra e tudo o mais) mas onde eu tava mesmo? Ah, sim! Segundo a norma culta, a concordância do sintagma destacado deveria ser oS cargoS de analistaø vagoS, pois vagoS concorda em número com cargoS, e não com analistaø, pelo que todos os cargos criados foram devidamente preenchidos.
– Em cumprimento a [<– PROVA Nº7: Ah, Meritíssimos…. ninguém passa incólume a um errinho de crase, né? Basta aplicar a regrinha básica aprendida na escola, e substituir em cumprimento a resolução por em cumprimento ao que foi decidido, e veremos a presença da combinação de artigo mais preposição, motivo pelo qual o a destacado de vosso excelso texto deveria ter sido craseado. Mas, ó: um bom profissional de revisão (daqueles, sabe? Formados em Letras…) entende direitinho a regra da crase, e há muito deixou de usar macetinhos que o cidadão comum usa para fazer prova de vestibular. eles entendem a regra e sua aplicação de acordo com a norma culta. Entenderiam, neste caso, que o a faz uma conexão e uma especificação (especificação das mais especificantes, daquelas que recebem número e tudo o mais!), e essa dupla função lhe garante o acento grave indicador da crase. Mas isso um bom profissional de revisão etcetcetc cuja honra etc saberia etcetcetc]  Resolução CNMP nº 60, já existe PCA específico com vistas a analisar os planos de cargos, carreira e salários com regras claras para cada cargo.

 

MPMG

MPMG2

 

E vou parar por aqui. O documento tem mais 20 páginas, mais ou menos, mas esses paragrafinhos que precisaram de POUQUINHA revisão (olha a quantidade de texto original, em vermelho, e a quantidade de texto em azul, com meus comentários exorcizantes, e vocês perceberão que a revisão foi POUCA. E em CINCO – eu disse CINCO – parágrafos).

Data venia, juro por Deus que eu sou inocente. Não jurei nem rezei esse texto pra ser mal escrito. Ele já chegou ao meu e-mail assim, prontinho.

Mazó: se o MP de MG ai, ficou bonitinho escrito assim, não? Parece cosme e Damião! ♥ precisa de revisor nesse tanto eu não sei (os excelsos meritíssimos mineiros ao menos têm a humildade de aceitar o fato de que dominar as firulas da norma culta não é pra qualquer um). Mas o Conselho Nacional do Ministério Público, esse sim, coitado, tá precisando de um bom revisor profissional com formação em Letras, cuja honra cabei de defender neste tribunal…

(Mais posts desse nível e eu serei obrigada a criar uma nova categoria no blog: Vergonha Alheia)

Cariocas e os trocadilhos

domingo, agosto 25th, 2013

Licença, mas vou compartilhar aqui esse texto delicioso da revista do Globo de hoje.

(Cerejinhas do bolo: o nome do dono da academia Habeas Corpus, o concorrente da loja Harry Plotter, a lanchonete ao lado do estádio João Havelange e o bar vizinho ao Banco Safra e… iiiihhhh, deixa eu parar por aqui!!!)

 

Inventário’ informal de trocadilhos da cidade
mostra vocação do carioca para a piada pronta

As histórias por trás de nomes curiosos dos estabelecimentos comerciais do Rio

MARIANA FILGUEIRAS

Publicado:
Atualizado:
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Rafael Sampaio e Tatiana Abramant, donos do bar Barthodomeu, em Ipanema<br /><br /><br />
Foto: Daniela Dacorso / O Globo
Rafael Sampaio e Tatiana Abramant, donos do bar Barthodomeu, em Ipanema Daniela Dacorso / O Globo

RIO – O sujeito chega do Ceará para tentar uma vida melhor no Rio de Janeiro. Isso lá nos anos 70. Começa carregando madeira, passa a comprá-las para revenda, o negócio vai indo bem, obrigado, e ele abre uma loja em Copacabana. Na hora de batizar o local, pensa: “Eu sou do Ceará… Vim de pau de arara. E a loja é de madeira. Pronto. É Pau de Arara o nome da loja.”

Mas a mulher faz um muxoxo. E como é ela quem manda, o nome da loja fica sendo Pau Mandado.

Parece piada, mas é a história por trás do letreiro de uma madeireira na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana.

— Para o marketing é uma beleza, porque ninguém esquece o nome da loja — justifica o proprietário brincalhão, Augusto Sarmento, de 63 anos.

Tascar um trocadilho em nome de estabelecimento comercial é uma prática tão tupiniquim quanto pendurar santo no retrovisor, levar marmita no fim da festa ou colocar fralda na gaiola do passarinho. Ainda que nenhum Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda ou Câmara Cascudo tenha se aprofundado no fenômeno social, o “trocadilhismo” nos entrega tanto quanto a mestiçagem, a cordialidade ou o curupira. E o Rio, se bobear, é o campeão nacional de letreiros com jogos de palavras. Basta uma volta pelos endereços comerciais da cidade para notar o apreço do carioca pela piada pronta — e começar uma coleção pessoal dos preferidos.

Foi o que fez a Revista O GLOBO: um inventário informal dos trocadilhos cariocas. Só em Copacabana, além da Pau Mandado, há a clínica veterinária Cãopacabana, o botequim BomBARdeio, a loja de bolsas Mala Amada, a livraria Baratos da Ribeiro, a “croassanteria” Croasonho e a creperia Crepe Diem.

Na Tijuca, há o restaurante Umas & Ostras e a lanchonete Faceburger. Em Vila Isabel, na Rua Teodoro da Silva, o nome do motel é… Teadoro. No Flamengo, uma boleira pôs o nome da sua empresa caseira de James Brownie, e uma lavanderia em Botafogo se chama Lava Isso & A Quilo. Em Madureira, há o restaurante Kill Grill, uma clara alusão ao filme de Quentin Tarantino “Kill Bill”. Em Bonsucesso, há uma pizzaria chamada Bonsussexo, acreditem, e em Bangu, uma academia de nome Habeas Corpus.

— Não queria abrir mais uma academia chamada não-se-o-quê-fitness ou body-qualquer-coisa. Fiquei pensando, pensando… E tive a ideia de chamar de Habeas Corpus. É legal, não é? — explica o dono, Celso Cunha.

Ao ouvir o nome, o acadêmico Antônio Carlos Secchin o achou tão legal que fez uma sugestão a Celso: abrir ao lado da academia o botequim Habeas Copus.

— Tecnicamente, o trocadilho é uma figura de linguagem chamada paranomásia. É a junção de palavras de som próximo e sentido distante. Você fala uma coisa e imagina outra. Há uma referência implícita a um segundo sentido. Seu uso deflagra uma relação prazerosa com a língua portuguesa, quando usada como um jogo, uma brincadeira. Ainda mais pelos cariocas, que já criam tantas gírias — explica o imortal, um fã de trocadilhos. — O recurso foi parar no comércio, mas sempre esteve na literatura. Basta lembrarmos do “Manifesto Antropofágico” de Oswald de Andrade, que tinha o trocadilho dos trocadilhos, “Tupi or not tupi”.

Foi esta lógica lúdica que norteou o batismo do Barthodomeu, em Ipanema:

— Antes de abrirmos o bar, este ponto era considerado uma caveira de burro. Mas só podia ser. Quem viria para um lugar chamado Espelunca Chic? Ou o camarada sai de casa para beber numa espelunca ou num lugar chique — espeta o empresário Rafael Sampaio, que escolheu o nome com a mulher, Tatiana Abramante.

O ramo dos bares poderia ter até um concurso informal de trocadilhos, tantos são os exemplos. No Vidigal, há o Barlacubacu. No Anil, o Barbudo. No Flamengo, o Zanzibar. Em Del Castilho, o Zombar. Em Madureira, o Bar Bosa. No Catete, o Bartman.

— Sou fã de quadrinhos e cultura pop desde menino. Quando abri o bar, queria que a decoração fosse inspirada em filmes, mas não sabia o nome que queria dar. Pensei em alguns ruins, como Perdizes no Espaço, e decidi fazer uma votação entre os clientes. Bartman ganhou, com 250 votos — relembra Rogério Cardoso, o proprietário.

O ramo de toldos também merecia um torneio próprio. Em Anchieta, há a Tempra Toldos. No Grajaú, a Toldos Dias. E em Todos os Santos, quem adivinha?

Com as empresas de estética, não é muito diferente. Em toda a cidade, encontram-se filiais da rede Spé (cujo slogan é “o spa do pé”), e toda sorte de derivativos da palavra “pelo”.

— Quando criamos a empresa, quisemos dar um nome que ninguém esquecesse. Vieram inúmeras ideias, e uma das sócias falou: “Pelo menos um desses nomes vai ser o escolhido.” Ficamos em silêncio e percebemos que o nome só podia ser aquele, Pelo Menos. Era perfeito. Todo mundo usa essa expressão todos os dias — diz a empresária Regina Jordão.

Foi a largada para surgirem concorrentes como a Pelo Sim, Pelo Não, presente também em vários lugares do Rio.

— Tive a ideia tomando banho. Ia abrir uma empresa com um sócio que já tinha um nome caretinha para ela, mas ele saiu, e eu quis um mais criativo — conta a publicitária Márcia Amorim, de 42 anos.

Foi passando de carro em frente à filial de Botafogo que o humorista Cláudio Torres Gonzaga, um dos redatores do programa “A Grande Família”, da TV Globo, teve a ideia de uma piada para um stand up comedy que faz com o grupo Comédia em Pé.

— Fiquei pensando: “O que quer dizer Pelo Sim, Pelo Não? Será que eles tiram um pelo sim e um pelo não? E a mulher sai de lá parecendo um código de barras?” — brinca Cláudio. — E aí juntei com outros nomes curiosos de lojas que já tinha visto e montei uma esquete do espetáculo. Tem uma loja de artigos de pesca em Jacarepaguá que se chama Minhoca Feliz. E se tem alguém que não é feliz na pescaria é a minhoca… Em Nova Friburgo, vi uma loja de plotagem chamada Harry Plotter. Deu vontade de abrir uma concorrente, a Senhor dos Painéis!

Quando soube da esquete, a dona da rede de depilação correu para o teatro. Achou tão divertida a propaganda involuntária que propôs uma parceria: em troca da logomarca exposta no cartaz do espetáculo, os humoristas fariam depilação de graça.

— Mas nenhum de nós tinha o hábito de depilar as pernas — lamenta Cláudio, lembrando que as únicas beneficiadas com o patrocínio foram as mulheres dos integrantes.

Nenhum ramo, no entanto, supera o trocadilhismo ostensivo das pet shops. É um fenômeno nacional, que já inspirou até uma crônica do escritor Antônio Prata. Vejamos. Na Barra, há o Au Q Mia. Na Urca, o Urcão. Em Olaria, o Pet Shop.cão.br. Na Pechincha, o Gato pra Cachorro. No Leblon, o Pet Shop Toy, uma referência à dupla pop Pet Shop Boys. Em Nova Iguaçu, o Cãobeleireiro. E em Ipanema, o hors-concours Au Cão Kur — que está com os dias contados.

— Esta loja existe com este nome há 17 anos, mas os novos donos vão mudar em breve para Animaleria — antecipa o gerente, Vinícius Molinaro.

O que é uma pena, como observa o diretor de criação e sócio da empresa de publicidade DM9 Rio, Álvaro Rodrigues. Para ele, o humor “baixa a guarda” do cliente, seja de uma pet shop ou de uma multinacional. Na última campanha que fez, para uma marca de cachaça, pôs o ator John Travolta fingindo ser brasileiro, tentando jogar bola e sambar na praia, no Recreio.

— Na propaganda, o humor tem que ser visto como meio, não como fim. A piada pela piada não funciona. Se eu rio e esqueço o nome da marca, não adianta. Por isso, o recurso da piada, do trocadilho, tem que ter uma estratégia por trás — analisa o publicitário, falando de grandes campanhas.

No comércio de bairro, como os citados nesta reportagem, ele diz que o humor traz muitas vantagens:

— Aumentam as chances de fixação da marca. A “gaveta” da memória emocional é uma das mais certeiras de se abrir no consumidor, e o bom trocadilho faz isso. Além disso, imprime essa “carioquice” na marca, essa maneira peculiar do morador do Rio de enxergar o que acontece sempre com graça. O carioca tem uma miopia bem-humorada da vida.

Uns trocadilhos vêm, outros vão

Alguns trocadilhos antológicos do Rio faliram juntamente com os estabelecimentos comerciais aos quais pertenciam. Mas permanecem na memória. Quem pegava a Rodovia BR-101 com frequência certamente já tinha notado a churrascaria A Novilha Rebelde, um jogo de palavras com a tradução para o português do filme “A noviça rebelde”. Há três anos, no lugar funciona a churrascaria Mano’s Grill. Ao lado do Engenhão, alcunha do Estádio João Havelange, havia uma lanchonete chamada Have Lanches, outro belo exemplo da perspicácia carioca. Em Madureira, na Avenida Edgard Romero, até pouco mais de um ano atrás, na altura do Mercadão, havia um Banco Safra. E, ao lado, o bar Safradão, que foi demolido para virar uma agência do Santander.

Na Barra, o restaurante Filo Porque Quilo também fechou as portas, levando com ele a referência à célebre frase dita pelo ex-presidente Jânio Quadros quando de sua renúncia ao cargo. No Humaitá, quem morreu foi o boi do nome do restaurante Boi Vivant, que há dois meses ganhou nova mobília e letreiros, transformando-se em Espaço Vivant

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Processos morfológicos – ou O kuku do munduruku (poção de morfologia nº6)

segunda-feira, julho 15th, 2013

E chegamos (eu, Elaine Farias e você, querido lheitor) à derradeira e mais gargalhante poção de morfologia.

Estamos cá, eu e Elaine, tomando nossos bons drink de Ginger Ale (poção de morfologia nº3), e gargalhando só de lembrar da aula em que tivemos essa revelação da língua Munduruku. Mas calma que a cerejinha desse bolo só recebe quem chegar ao final do texto! (RÁ!)

munduruku

Relaxar é kuku! \o/

 

Tudo começou na aula de processos morfológicos. Já comecei a falar desstrem aqui, quando falei dos afixos. Os afixos são um processo morfológico de adição.  Vamos relembrar a receitinha da poção de morfologia nº4:

“o lance de sair enfiando morfema numa raiz é conhecido como afixação, ou a arte de enfiar afixos. Como você pode perceber, afixo é um termo genérico que define os pedacinhos enfiados em tudo quanto é canto da palavra, mais especificamente:

– prefixo (antes da raiz)

– sufixo (depois da raiz)

E esses são os lindos dos afixos possíveis na Língua Portuguesa. Pensa que acabou? RÁ! Ainda temos:

– infixo (no meio da raiz): /rkeN/ =  esticado; /rmkeN/ = esticar. Nessa língua, o infixo {-m-} é formador de infinitivo.

– cinrcunfixo (cerca a raiz pelos dois lados): o exemplo a seguir é o circunfixo {u…es}( = muito), usado na língua falada na Geórgia:

u-lamaz-es = muito bonito

u-did-es = muito largo

Pensa que acabou a esquisitice de afixo? Pois eu te apresento o primo mais esquisitão da família, o

– transfixo (é descontínuo, e atua numa raiz descontínua). Acompanhem essa conjugação verbal. Se não me engano, acho que isso aqui é hebraico:

/sagar/ = ele fechou

/esgor/ = eu fecharei

Se você não acompanhou a doideira, repare que a base desse verbo são três consoantes: /s.g.r/, que significam fechar, e suas conjugações são determinadas por transfixos vocálicos. (Sério que você ainda acha crase difícil?)”

Depois da adição, temos a reduplicação (que vamos deixar por último de propósito).

Outro processo morfológico é a alternância. E esse trem tem nas conjugações verbais do português. Trata-se da alteração de segmentos da raiz da palavra de forma a alternar informações na raiz. Se você ainda não ligou o nome à pessoa, te dou uns exemplos:

fui/foi     pude/pôde     pus/pôs     fiz/fez      tive/teve

etcetcetcetc.

O inglês também usa muito a alternância. Além de conjugações verbais, a língua de seu William (Shakespeare) também se vale da alternância pra indicar plural:

singular/plural: goose/geese     tooth/teeth     man/men     woman/women

conjugações verbais: see/saw     run/ran     eat/ate     speak/spoke

O penúltimo processo morfológico que vamos destacar é a subtração.

Não vamos nos demorar muito com isso, não. Basta dar o exemplo do português, no qual alguns femininos são formados por subtração de morfemas do masculino, como em orfão/orfã; anão/anã; campeão/campeã.

lhama26Pronto? Podemos falar da Reduplicação e da nossa gargalhada na aula de morfologia?

Pois então. Há línguas que usam esse processo para avisar alguma coisa. O reduplicado pode estar antes, no meio ou depois da raiz. E pode-se repetir toda a raiz ou parte dela. O mais comum é subentender a informação que em português é passada com a palavra muito.

Por exemplo: no pidgin falado na Nova Guiné, lapun significa ‘velho’ – e lapunpun ‘muito velho’.

Depois desse exemplo eu decreto que muito é a palavra mais broxante e sem graça da Língua Portuguesa. E provo!

Mas é importante destacar que a reduplicação transmite quatro tipos de informação:

– Intensidade (tá valendo o exemplo da Nova Guiné);

– Iteração: nda = ‘andar’;     nda.nda  = ‘perambular’   / fa(la) = ‘falar’ ;  fa.fal = ‘tagarelar’

– Distribuição: dosy = ‘dois’;     do.dosy = ‘ambos’   /   bodo = ‘borda’;     bodo.bodo = ‘costa’

(os dois últimos exemplos do crioulo de base portuguesa da ilha de Ano Bom)

E chegamos ao Munduruku. Eis que nossos índios lá do rio Tapajós, no Pará (ai, por favor, não canse minha beleza falando besteira sobre língua de índio, OK?) usam a reduplicação para expressar graus de intensidade de três tipos: duração, intensificação ou atenuação e pluralização.

Aí a professora, do nada, sem nos alertar nem nada, nos diz que em Munduruku a palavra Ku significa gostoso; e kuku é muito gostoso.

Pedimos perdão a Ferdinand de Saussure, Noam Chomsky, Marcos Bagno, Dioney Moreira Gomes e todos os linguistas do Brasil e do mundo, e caímos na gargalhada. Porque seriedade e critério científico têm limites. O nosso limite foi o kuku do munduruku.

Ai, desculpa, foi mals! (Aceitam um ginger ale?)

Morfema zero – o silêncio que grita (#poção de morfologia Nº 5)

segunda-feira, julho 15th, 2013

Daí que a Elaine Farias, minha colhéga nas aulas de Morfologia, tá juntando o caldeirão dela por aqui pra gente preparar juntas as últimas poções de morfologia. E temos que ter muito cuidado que é agora que nosso angu pode dar caroço.  Mas vamos lá. Recebo um e-mail daquela tratante (tinhamo, Elaine! ♥):

Bruxa! Como é que a gente faz a poção do morfema zero?

Num faz, Elaine! Ela é uma poção invisível, com cheiro e gosto fortes pacaramba! Mas tem receita pra não fazer essa poção! Calma que eu explico!

morfemazero

Mazó, curti aos montes esse patinho perdido, e vou usá-lo pra ilustrar esse post! (Hoje estou infantilóide, me deixem!)

Então, vamos ajudar o patinho a encontrar o pinto morfema perdido?

Porque, né? Como estávamos vendo (oi?) porraqui, a morfologia é uma das poucas áreas do conhecimento humano que gera silêncios escandalosos e significativos.

– Cuméquié, bruxa? Perguntará você. E eu explico:

Vamos comparar as palavras menina e meninas. qual delas está no plural?

– Meninas! – responderá você, lépido e fagueiro.

E eu te pergunto de novo: e como você chegou a essa brilhante conclusão?

– Ah, é por causa do ésse no final! Muito bem!

Então, a morfologia explica que o morfema indicador de plural é o {-s}.

Outra perguntinha: como você sabe que menina  está no singular?

– Ih, ah, é… pô, num tem ésse!

Isso mesmo! Então, qual é o morfema que indica o singular em uma palavra na língua portuguesa?

– [ouve-se o cantar de grilos ao longe, graças ao seu silêncio…]

Mas é facim, facim! A brincadeira é assim: se você tem um morfema que passa uma informação, e comparativamente não encontra outro morfema pra marcar uma informação similar (como feminino X masculino; singular X plural; aspectos numeropessoais e/ou  modotemporais comparados entre duas conjugações verbais diferentes – presente X pretérito, por exemplo – etc.), então essa ausência de morfema é chamada de morfema zero.

Ou, como diria Henry Alan Gleason Jr (armaria, como foi difícil encontrar o nome desse cabra, sô!), de forma bem mais pomposa, no livro Introdução à Linguística Descritiva, de 1961:

“pode-se dizer que há morfema zero somente quando não houver nenhum morfe evidente para o morfema, isto é, quando a ausência de uma expressão numa unidade léxica se opõe à presença de morfema em outra.”

Portanto, na língua portuguesa, uma das marcações do morfema zero é o singular. Não tem nada lá na palavra pra te dizer que ela tá no singular, e esse nada significa (Beijo, Ronnie Von)!

FonFon – ou noções básicas de fonética para leigos / iniciantes / amadores

quarta-feira, junho 5th, 2013
A vibe é essa :D

A vibe é essa 😀

Este post surgiu por três motivos:

1- para eu estudar pra prova de FonFon (Fonética & Fonologia)

2- Pro Luiz Prata matar a curiosidade dele

3- Me divirto só de imaginar você mexendo língua pra cá, e tocando dente assim, e futucando o véu palatino com a língua (EEEEEPPPPAAAAAA!!!), só pra produzir os sons que eu vou descrever. Bem-vindo ao mundo da fonética! \o/ Receba as mais sinceras saudações da lhama linguista! 😀

Então vamos lá!

Fonética é o estudo dos sons da fala humana. E a fonologia estuda os segmentos e unidades de sons de uma determinada língua. Em outras palavras, pra mexer com fonologia, você tem que sacar um cadim de fonética. E é um troço delicioso pra se brincar – depois que você pega o ponto da embreagem e entende o fio da meada.

Pra começar, qual a diferença entre vogais e consoantes, foneticamente falando? Enquanto as consoantes são sons produzidos a partir de alguma forma de impedimento da saída do ar da boca (OK, da região supraglotal do aparelho fonador, mas boca também serve pra entender a bagaça), as vogais são seres livres e desimpedidos, saem da boca (leia o abre parênteses daí de cima, por favor) sem nenhum tipo de obstrução de saída do ar.

 

Isto posto, temos que as consoantes podem ser divididas em (ah, acompanhe com essa imagem aqui pra você entender melhor):

apfonador

Oclusivas (em inglês, plosives): o impedimento da saída do ar é momentâneo, e total. São as consoantes mais consoantes da face da terra. Abaixo segue a lista das consoantes oclusivas, e suas representações de acordo com o padrão da International Phonetics Association, a IPA (aipiêi, é quase um aipim! :D) , nos conformes, dentro de colchetes, e embaixo um exemplo de onde esse som é aplicado. Os sons se dividem em surdos (ou desvozeados), quer dizer, os sons que são produzidos sem muitas ou grandes vibrações das cordas vocais; e sonoros (ou vozeados), que é isso mesmo que você entendeu: produzidos com a vibração das cordas vocais (que, se a legenda da foteenha acima aparecesse, você saberia que estão localizadas mais pra baixo na laringe).

Surdo [p]
pato
[t]
tatu
[k]
casa
(PeTeKa)
sonoro [b]
bola
[d]
dado
[g]
gato
(BoDeGa)

Repare que se o [p] é um som surdo, o [b] é sua versão sonora. E repare também que à medida que você caminha pra direita no quadrinho que eu listei acima, mais dentro da boca o seu som é produzido. [p] e [b] são bilabiais, [t] e [d] são dentais, e [k] e [g] são velares (na foteenha lá em cima, o palato mole também é conhecido como véu palatal. Sons produzidos nessa área, são, portanto, velares!).

Outro tipo de consoantes são as

Nasais (ou oclusivas nasais): há impedimento total na boca, mas o véu palatino está abaixado e o ar sai pelo nariz. Todos são sonoros, por natureza.

[m]
mato
[n]
navio
[ ɲ ]
nhá
[η]
belong

Repare novamente que os sons vão entrando pela boca à medida que você avança para a direita no quadrinho acima.

Bora passar rapidinho pelas consoantes laterais (todas sonoras), porque elas não têm muita graça. São elas:

[l]lata [λ]lhama

A seguir, temos as consoantes

Fricativas: há impedimento parcial da saída do ar. Ou, comparativamente, o ar sofre algum tipo de atrito ao sair da boca. As fricativas são primas do assobio. E são umas fofas. Ponha bastante reparo na tabelinha abaixo:

Surdo [f]
foto
[s]
sapo
[ ʃ ]
chá
[θ]
thanks
  [x]
rato
[h]
hat
Sonoro [v]
voto
[z]
zebra
[ ʒ ]
já
[ ð ]
this
[ ɤ ]
mermo
(r carioca)

[f] e [v] são labiodentais; [s] e [z] são alveolares; [ʃ] e [ʒ] são alveopalatais; [θ] e [ð] são interdentais; [x] e [ɣ] são velares, e [h] é glotal.

Aí chegamos ao calcanhar de Aquiles do preconceito linguístico brasileiro, as consoantes Vibrantes. São elas:

Simples [ ɾ ]
pero
Múltiplo [r ]
perro

(ou, se você preferir, o érre normal fraquinho e o érre Galvão Bueno)

Mas temos também o famoso érre caipira, chamado pela IPA de érre retroflexo. O bichinho é falado com a língua dobrada toda pra trás. Ponha reparo: fale um tarrde, como um bom caipira. E note que, entre o a e o érre retroflexo, sua língua se dobrou (ou flexionou) todinha para trás (movimento retro). O símbolo IPA pro érre retroflexo é um érre de cabeça pra baixo: [taɹde]! E trata-se de um som alveopalatal, né? 😀

Neste vídeo aqui dá pra ver as cordas vocais se mexendo (mas não assista se você estiver comendo, senão dá nojinho. E esqueça o lance de ponte mucosa, que isso só interessa a otorrinolaringologistas e quetais). E se você achar que as cordas vocais se parecem com outra coisa, saiba que você não está só! Mas deixemos nossas mentes imundas de lado, néam?

Só mais uma coisinha: em grande parte do território nacional, as consoantes t e d antes de letra i sofrem uma africada básica. Trocando em miúdos: o aparelho fonador é preguiçoso, e já querendo se preparar pra falar o i, faz com que a língua comece a voltar pra trás antes de acabar de falar o t e o d. Por isso, você mão fala [diɐ] (aviso: esse a de cabeça pra baixo é o a de fim de palavra, um a mais átono), e sim [d͡ʒiɐ]; e também não fala [tiɐ], mas [t͡ʃiɐ]. Quem fala [tiɐ] e [diɐ] é nordestino e curitibano (e isso não é bom nem mau, apenas é!) 😀

Enfim, fiquem ruminando ssascoisatudo aí que depois eu volto com as idiossincrasias da fonologia da língua portuguesa.

Como montar uma palavra ou It’s a kind of magic! (Poção de morfologia nº4)

segunda-feira, junho 3rd, 2013

Passada a vibe podrona (quer dizer, ainda não passou, ela dá uma trégua de noite, mas deixa prá lá) vamos a mais uma poção de morfologia. Como reconhecer os ingredientes de uma palavra. Você vai achar que é bruxaria, e eu terei que concordar contigo… tem um quê de mágica nessa coisa toda! quer ver só?

Vamos pegar as palavras constituição, constitucional e   inconstitucionalíssimamente (escrevi direito? Deixa eu ver…hnhnmmssss tá certo! Ufa!) pra eu defender azidéia aqui

Constituição vem do verbo constituir. Se a gente puser reparo nesse verbo, vamos ver que ele é formado pelos seguintes ingredientes:

constitu i r
RAIZ VT Sufixo de infinitivo

( Onde VT = vogal temática. Coloquei aqui embaixo por questão de espaço)

(Aí você vai dizer: Ih, Madrasta! Você errou! R não é sufixo, não, é desinência, porque verbo só tem desinência e…  kirido, te digo só uma coisa: o dernier-cri da morfologia uspiana já chama desinência de sufixo, tám? Clicali no dernier-cri que você vai ver! Beijomeliga.)

A vogal temática, no caso dos verbos, nos dá a indicação da conjugação do dito. Portanto, temos que constituir é um raro verbo regular de terceira conjugação. A vogal temática se mantém em quase todas as conjugações (né, presente do subjuntivo? Um beijo, seu chato!).

Agora vamos fazer bruxaria. Vamos transformar verbo em substantivo. A poção é a seguinte: é só trocar o sufixo -r pelo sufixo formador de substantivos -ção e Voilà! (Hoje estou propensa a galicismos, me deixem.)

E se quisermos transformar o substantivo constituição  em adjetivo, a poção é um cadim mais elaborada, mas funciona:

1- adicione o sufixo -al

2- pra coisa dar liga direito, mexa na raiz e torne-a constitucion (nada muito drástico, na verdade ela ficou com ares espanhóis). Mas se você reparar, você juntou nessa raiz o sufixo formador de substantivo, e a partir dessa mistureba de morfemas você adicionou mais um sufixo. Então, seu lindo, sua raiz virou RADICAL. (e não estou falando de nenhum membro do PSOL, assossega o facho que issaqui não é post de política!).

Se você ainda não entendeu, enquanto a raiz da palavra é a base primária, o elemento irredutível com informação lexical básica, o radical é uma base secundária,  à qual são acrescentados outros morfemas ( ou seja, são formadas outras palavras).

Daí temos:

constitucion al
RADICAL sufixo

Então, vamos enfiar morfema até não poder mais nesse radical:

(aviso: S.F. = sufixo formador)

In

constitucion

al

issim

a

mente

Prefixo de negação RADICAL S.F. de adjetivo S.F. de superlativo Vogal de ligação S.F. de adv. de modo

E temos essa aberração daí de cima, tida como a maior palavra da língua portuguesa, que significa algo feito de forma exageradamente fora da Constituição. Isto posto,  devo fazer algumas considerações extras:

1- o lance de sair enfiando morfema numa raiz é conhecido como afixação, ou a arte de enfiar afixos. Como você pode perceber, afixo é um termo genérico que define os pedacinhos enfiados em tudo quanto é canto da palavra, mais especificamente:

prefixo (antes da raiz)

sufixo (depois da raiz)

E esses são os lindos dos afixos possíveis na Língua Portuguesa. Pensa que acabou? RÁ! Ainda temos:

infixo (no meio da raiz): /rkeN/ =  esticado; /rmkeN/ = esticar. Nessa língua, o infixo {-m-} é formador de infinitivo.

cinrcunfixo (cerca a raiz pelos dois lados): o exemplo a seguir é o circunfixo {u…es}( = muito), usado na língua falada na Geórgia:

u-lamaz-es = muito bonito

u-did-es = muito largo

Pensa que acabou a esquisitice de afixo? Pois eu te apresento o primo mais esquisitão da família, o

transfixo (é descontínuo, e atua numa raiz descontínua). Acompanhem essa conjugação verbal. Se não me engano, acho que isso aqui é hebraico:

/sagar/ = ele fechou

/esgor/ = eu fecharei

Se você não acompanhou a doideira, repare que a base desse verbo são três consoantes: /s.g.r/, que significam fechar, e suas conjugações são determinadas por transfixos vocálicos. (Sério que você ainda acha crase difícil?)

 

Outra coisa: às vezes é preciso forçar a liga entre a raiz e o afixo. Quem faz esse trabalhinho de forma suave e agradável são as vogais ou consoantes de ligação. Vamos acompanhar:

– como ligar a raiz café  ao sufixo adjetivador –al?  Chama o zê que ele ajuda! cafezal

– como ligar o adjetivo feliz ao sufixo substantivador –idade? Conversa com a raiz, joga fora o z e troca por um c, que é pra manter o fonema surdo (s é som surdo, ou seja, produzido sem vibração das cordas vocais. Fala um s aí, depois fala um z. viu? o z é sonoro! Mas isso já é aula de fonologia, que não vem ao caso aqui!) (mas do que que eu tava falando mesmo? Ah, sim!) e temos felicidade.

Enfim, é tudo uma questão de eufonia, uma moça que atua com o selo de elegância Sandra Annenberg, de forma a deixar todos felizes, contentes e bem falados.

Aí chegamos ao trem chamado alomorfe. E antes que você diga que esse é o 0800 dos morfemas (“Alô, morfe?”) e eu te dê um pescotapa, pense no seguinte: repare que tem morfema que muda de jeitão dependendo do ambiente. Pense no sufixo formador de plural. Ah, é o -s, madrasta! dirá você. E eu vou te mostrar que, se temos

joelho-s

também temos

mar-es e azu-is

Ih! Mudou! Concluirá você, de forma brilhante. E eu te direi que isso é um caso de alomorfe, ou variação de um mesmo morfema.

lhama39Mais uma vez dona eufonia bate ponto aqui, e diz quando e como um morfema vai ter que mudar de roupa pra entrar na palavra. Pense agora no prefixo i-, de negação, que faz i-legal ou in-feliz.

Temos até alomorfia de raiz! Quer ver só? Vamos pegar aqueles verbos safada e desesperadoramente irregulares. Que tal o saber? Qual é a raiz dele? (licença que eu tô rindo aqui).

Você certamente pensou na formulinha raiz + vogal temática + sufixo de inifitivo, pensou em sab+e+r e concluiu que a raiz é sab, né? (licença, mas eu continuo rindo).

Então vamos conjugar no presente do indicativo:

eu sei

tu sab-es

ele sab-e

nós sab-emos

vós sab-eis

eles sab-em

E agora você está pensando que diabos aconteceu com a primeira pessoa do singular. HUAHUAHUAHUAHUAHUA. Vamos continuar a brincadeira? Pretérito perfeito:

eu soub-e

tu soub-este

ele soub-e

nós soub-emos

vós soub-estes

eles soub-eram

E antes que eu me divirta mais e te jogue um presente do subjuntivo (que eu saib-a…) nazidéia, deixa eu parar por aqui e te dizer que verbos irregulares apresentam raízes alomorfas, ou seja, elas mudam com o sabor da conjugação.

Tudo isso pra mostrar pra vocês que essa lhama linguista daí de cima só fez um trocadilho com a expressão there can be only one (só pode haver um), frase clássica do filme Highlander, citada na música-tema do filme, It’s a kind of magic, do Queen. Por que essa frase é clássica eu não posso contar, senão eu te entrego o enredo e o fim do filme.

Pois vamos combinar que, em se tratando de alomorfes, é mais adequado dizer there must be a lot of them! ou tem que haver um montão deles! 😀

Mazó, baixou saudade dessa música do Queen. Fiquem com o clipe da música. Beijo. De nada.

 

Poção de morfologia pra amanhã

sexta-feira, maio 31st, 2013

Deveria fazer este post hoje, mas tô podrona.

Filho vomitando, mãe enjoada e com uma dor de cabeça duzinferno, eu vou é me deitar pra amanhã escrever tudo bonitim aqui procêis tudo.

Vou aproveitar a podridão desse podrona pra falar um cadim sobre afixos e vogais/consoantes temáticas, também vou explicar a diferença entre raiz e radical (não, não estou falando do Tsavkko! 😛 #numpresto), e sobre alomorfia.

lhama39

Aproveito e explico por que essa lhama linguista daí vale mais pelo trocadilho com a frase clássica do filme Highlander do que pelo enunciado.

Mas tudo amanhã, sim?

Malzaê! (Fessora, pode tirar ponto de mim!)

“Um plus a mais”

terça-feira, maio 28th, 2013
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO – O Estado de S.Paulo

Passei por uma loja que vendia roupa “plus size” para mulheres. Levei algum tempo para entender o que era “plus size”. “Plus”, em inglês, é mais. “Size é tamanho. Mais tamanho? Claro: era uma loja de roupas para mulheres grandes e gordas, ou com mais tamanho do que o normal. Só não entendi isto logo porque a loja não ficava em Miami ou em Nova York, ficava no Brasil. Não sei como seria uma versão em português do que ela oferecia, mas o “plus size” presumia 1) que a mulher grande ou gorda saberia que a loja era para ela, 2) que a mulher grande ou gorda se sentiria melhor sendo uma “plus size” do que o seu equivalente em brasileiro, e 3) que ninguém mais estranha que o inglês já seja quase a nossa primeira língua, pelo menos no comércio.

A invasão de americanismos no nosso cotidiano hoje é epidêmica, e chegou a uma espécie de ápice do ridículo quando “entrega” virou “delivery”. Perdemos o último resquício de escrúpulo nacional quando a nossa pizza, em vez de entregue, passou a ser “delivered” na porta. Isto não é xenofobia nem anticolonialismo cultural americano primário, nem eu acho que se deva combater a invasão com legislação, como já foi proposto. O inglês, para muita gente, é a língua da modernidade. Todos queremos ser modernos e, nem que seja só na imaginação, um pouco americanos. E nada contra quem prefere ser “plus” a ser mais e ter “size” em vez de altura ou largura. Só é triste acompanhar esta entrega – ou devo dizer “delivery”? – de identidade de um país com vergonha da própria língua.

 

Imppossível não amar Luis Fernando, gente. impossível.

fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,um-plus-a-mais-,1034748,0.htm

As palavras pelas línguas afora (#poção de morfologia nº 2)

segunda-feira, abril 29th, 2013

Ideograms_3aDepois de lhe provar que esstrem de palavra não é assim tão simples de definir, vou lhe mostrar que o modo como as palavras se formam é ainda mais doido, e varia de língua para língua. Dois alemães, coincidentemente Augustos, um poeta e outro linguista   (senhor Schlegel e senhor Schleicher, respectivamente), começaram a tentar entender as línguas a partir de uma tipologia morfológica, ou seja, a partir da forma como as palavras /vocábulos vão se formando de língua para língua. E o negócio começou a…. eu ia dizer tomar forma, mas vou fugir do trocadilho fácil 😉

Vamos começar com as línguas que se valem de ideogramas, como o japonês. Já pensaram que um desenhinho só significa uma palavra ou conceito abstrato (daí o nome ideograma)?

Eis alguns exemplos de ideogramas chineses (de acordo com este site daqui, vamos partir do princípio de que essas traduções são confiáveis, e não significam, por exemplo, sorvete de creme, OK?)

 

 

Então, de acordo com a tipologia morfológica, o chinês seria um caso de língua isolante: todas as palavras são raízes, não podem ser segmentadas  ou elementos menores. Pra fazer uma diferenciação maior entre os vocábulos, essas línguas tendem a ser tonais (Reparem como um chinês fala cantando…). Vamos ver um exemplo de frase em chinês (fornecida em aula pela professora Roberta):

wo mai júzi chi zuótian
eu comprar laranjas comer ontem

Ou ontem, eu comprei laranjas para comer.

isoladas

 

Chegamos então no turco, tão em moda por causa da nuóvela Salve Jorge. Pois esse idioma é um caso de língua aglutinante, nas quais as palavras combinam raízes e afixos diferentes para explicar as relações gramaticais. Na língua que não é falada na nuóvela das nove,  podemos citar o exemplo de

kayik

lar

imiz

barco

plural

nosso

Ou nossos barcos.

Em outro caso, o das línguas flexionais ou sintéticas, as raízes das palavras se combinam com elementos gramaticais, que indicam a função das palavras e não podem ser segmentados  na base de um som e um significado ou afixo para cada significado (como é o caso do turco, aí em cima). Isso quer dizer que um pedacinho a mais na palavra traz muitas informações. Exemplo disso? O Latim é um. E o português também, se considerarmos o verbo conjugado cant-á-va-mos , um vocábulo que traz a raiz do verbo, a vogal temática, a desinência modo temporal e a desinência número pessoal (acredite, você já estudou tudo isso do português. Vá tomar um Fosfosol e volte logo! 😀 )

Tudo muito lindo, tudo muito legal. Mas essas definições daí de cima dão conta das línguas europeias. O que fazer com as línguas indígenas (já falei delas aqui, prestenção!), por exemplo?

Humboldt entrou na parada e, em 1836, propôs outra configuração pra coisa toda (idiossincrasias de dona Wikipedia: o link com a biografia de Humboldt diz que ele morreu um ano antes de sua teoria ser formulada!). Para ele, haveria, ainda, as línguas polissintéticas ou incorporantes. São idiomas com morfologia complexa, que juntam numa só palavra  um sem-número de morfemas que, em línguas sintéticas, por exemplo, renderiam uma frase inteira. Exemplinho básico. Língua esquimó. A palavra é: angyaghllangyugtuo.

angya

ghlla

ng

yug

tuo

bote

aumentativo

adquirir

Volitivo
(Indicativo de vontade)

Indicativo de
3ª pess. singular

Ou ele quer adquirir um grande bote. <– ó que lindo! Temos sujeito, verbo e objeto direto numa única palavra!

Donde se conclui que as línguas não indoeuropeias deram um revertério em tudo e obrigaram os linguistas a revisarem o conceito de palavra e os mecanismos para sua identificação.

lhama1

Isso tudo para concluir que aqui nas poções de morfologia vamos falar da palavra e suas unidades mínimas (morfemas) com significados.

Mas não se preocupem: nos intervalos vou continuar a exorcizar os textos mal-escritos!

E antes de eu me despedir, vamos ruminar um pouquinho do que foi dito aqui com essa post delícia que traz uma aula de alemão – ou como aglutinar morfemas (e existem versões dela em inglês). Permitam-me copiar o texto abaixo:

A língua alemã é relativamente fácil. Quem sabe Latim e está habituado com as declinações, pode aprendê-la sem grandes dificuldades — ao menos é o que os professores de Alemão dizem em suas primeiras aulas.

Em seguida, quando começamos a estudar os der, des, den, dem, die, eles dizem que é moleza: tudo é apenas uma questão de lógica. Realmente é muito simples; podemos ver isso no exemplo que passamos a examinar.

Tomemos um honesto livro alemão: um volume magnífico, encadernado em couro, publicado em Dortmund, que descreve os usos e costumes dos hotentotes (em Alemão, hottentotten).

O livro nos conta que os cangurus (Beutelratten) são capturados e colocados em jaulas (Kotter) cobertas de um tecido (Lattengitter), para abrigá-los do mau tempo. Essas jaulas são chamadas, em Alemão, “jaulas cobertas de tecido” (Lattengitterkotter); assim que botam um canguru dentro delas, ele é chamado Lattengitterkotterbeutelratten, “o canguru da jaula coberta de tecido”.

Um dias os hotentotes capturaram um assassino (Attentater), acusado de ter matado uma mãe (Mutter) hotentote – Hottentottermutter -, que tinha um filho tonto e gago (stottertrottel). Essa pobre mãe se chama, em Alemão, Hottentottenstottertrottelmutter, e seu assassino é chamado de Hottentottenstottertrottelmutterattentater. A polícia prendeu o assassino e o enfiou provisoriamente numa gaiola de canguru (Beutelrattenlattengitterkotter), mas o prisioneiro escapou. As buscas mal tinham começado, quando surgiu um guerreiro hotentote, gritando:

— Capturei o assassino! (Attentater).

— Sim? Qual? — perguntou o chefe.

— O Lattengitterkotterbeutelratterattentater! — respondeu o guerreiro.

— Como assim? O assassino que estava na jaula de cangurus coberta de tecido? — perguntou o chefe dos hotentotes.

— É, sim, é o Hottentottenstottertrottelmutteratentater (o assassino da mãe hotentote de um menino tonto e gago) — respondeu o nativo.

– Ora , respondeu o chefe, tu poderias ter dito desde o início que tinhas capturado o Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotter beutelrattenattentater.

Como dá para ver, o Alemão é uma língua fácil; basta a gente se interessar um pouquinho..

 

Até breve! \o/

Palavra: que trem é esse? (#poção de morfologia Nº 1)

segunda-feira, abril 29th, 2013

Salve!

palavralhama

Antes de mais nada, eu devo algumas explicações aos encostos de longa data: como vocês já devem saber, estou cursando Letras na UnB. Na cadeira de Morfologia, a professora Roberta Ribeiro (pupila do lindo do Dioney Moreira Gomes, de quem não me canso de falar aqui) propôs como um dos itens de avaliação que cada aluno criasse um Ambiente Virtual Multiletrado, ou AVM. Explicação vai, explicação vem e eu concluí: “Mas bah, que eu tri-faço isso desde 2009!” Então, vou fazer aqui no meu blog-caldeirão os posts sob temas determinados pela professora Roberta, que serão identificados no título como “Poções de Morfologia”. Afinal de contas, isto aqui é um caldeirão, né? Isso tudo pra lhe pedir humildemente que comente, questione e principalmente elogie bastante os textos das poções de morfologia, para que eu não lhe jure hemorroidas 😛 #numpresto #valhonada

Enfim. Vamos abrir os trabalhos falando das palavras.

E aí, como definir esse trem? RÁ!

Meu personagem preferido dos memes de Internet, a Lhama Linguista, aí do lado, já nos apresenta o drama que vai ser (“Tente definir a palavra “palavra” – o cérebro explode).

Valter Kehdi (nota mental: já que vou lincar mondilivro por aqui, ver como fazer pra ganhar uns troquinhos do Submarino ou de outra livraria) aceitou esse rojão (até porque ele não poderia fugir da raia, posto que é Doutor em Letras pela USP).  E olha que ele viu que o trem não ia ser fácil.

No livro acima lincado, doutor Kehdi cita a nomenclatura Gramatical Brasileira para definir

a palavra, considerada, do ponto de vista fonético, constituída de fonemas e sílabas e provida ou não de tonicidade, recebe a designação de vocábulo; palavra é a denominação mais adequada se enfocarmos o ponto de vista semântico. (página 10)

pra depois dizer que essa distinção não faz a menor diferença pra linha de raciocínio dele. A seguir, ele usa alguns critérios para caracterizar a palavra, e mostra, por A mais B, que o trem né fácil, não. Mas ele nos fornece os ingredientes pra nossa primeira poção de morfologia: como preparar  uma palavra. Vamos acompanhar.

– Critério fonético: Ah, a palavra é um conjunto marcado por um só acento tônico. Certo? Er… sim, até porque nesse critério encaixam-se perfeitamente os exemplos xícara, mármore, esôfago (não me perguntem de onde surgiu essa palavra). Mas o que fazer quando, por exemplo, a expressão com as amigas chega na porta da boate e diz que atende aos critérios do convite para a festa? (Agora imagine a expressão acima parada na porta da buátchy berrando com o leão-de-chácara: somos um conjunto marcado por um só acento tônico, e vamos entrar na buátchy! Sai da frente, recalcado! Pronto, de nada! :D) E ao fugir da confusão na porta da buátchy (cuja grafia correta não é essa, e por isso foi marcada em vermelho), vamos ver outro caso em que o critério fonético faz MUITA (eu disse MUITA ) diferença na interpretação de um texto:

Mas adulterados ou adúlteros, voltemos a doutor Valter, que nos oferece outro critério para caracterizar as palavras:

– Critério Semântico (palavra e homonímia): Esse critério é tão lindo, mas tão lindo, que para derrubá-lo Kehdi se vale de uma mesóclise 😀 : (“Os casos de homonímia revelar-se-ão problemáticos”). Se você ainda não entendeu o entrave desse critério, pegue como exemplo a palavra manga. Agora decida se você está falando de uma fruta ou de uma parte de um item de vestuário. Beijinhos. 😀

Só para ilustrar esse critério mais um cadim, como diriam os mineiros,  me lembrei de uma crônica deliciosa de Luis Fernando (O Verissimo, filho de seu Érico), em que ele conta o que um software de tradução automática fez com a letra do Hino Nacional Brasileiro (e se você clicar no link fornecido ainda ganha de brinde a tradução dessa crônica feita por um – adivinha – software de tradução automática! De saída, Jorge Furtado virou The Stolen George. Delícia! 😀 )

Insolência (Crônica publicada no Jornal do Brasil em 1997, e encontrada aqui)

O Jorge Furtado comprou um programa de traduções para o seu computador e fez uma experiência. Digitou toda a letra do nosso Hino Nacional em português e pediu para o computador traduzi-la sucessivamente em inglês, francês, alemão, holandês etc. Do português para o inglês, do inglês para o francês e assim por diante até ser traduzida da última língua de volta para o português. Segundo o Jorge, a única palavra que fez todo o circuito e voltou intacta foi “fúlgidos”. Em inglês, “salve, salve” ficou “hurray, really hurray” e parece que em alemão o texto ficou irreconhecível como hino mas, em compensação, reformula todo o conceito kantiano de transcendentalismo enquanto categoria imanente do ser em si.
Vou sugerir ao Jorge que faça outro teste e peça para o computador traduzir um texto em que conste a expressão “barato estranho”, só para dar boas risadas. Confesso que o meu barato é ver computador ridicularizado. Um pequeno gesto de resistência, à beira da obsolescência. Não posso mais viver sem o computador, mas a antipatia cresce com o convívio. Agora comprei um programa de texto à prova de erro ortográfico. O computador não me deixa errar, por mais que eu tente. Subverte o que eu tenho de mais pessoal e enternecedor e sublinha a palavra errada em vermelho insolente. A palavra “agora”, aí em cima, apareceu na tela sublinhada. Ele está provavelmente sugerindo que talvez eu queira escrever “ágora”, praça das antigas cidades gregas. Não, “ágora” também saiu sublinhada. Sua mensagem é que eu tenho uma escolha entre as duas palavras, sua insinuação é que eu não sei a diferença. E quando não existe opção e o que eu escrevi está irremediavelmente errado – ele corrige sozinho! Eu tento repetir o erro, só para mostrar que alguns dos nossos ainda não se intimidaram, e ele não deixa.
Sei que não demora o programa que corrigirá sintaxe, pontuação e concordância e ainda fará comentários irônicos sobre o estilo. Que venha. Tradução eles não sabem fazer. Rá!

Mas voltemos a Kehdi. ele não desiste, e propõe um terceiro critério. Esse é o menos problemático de todos:

– Critério léxico: Bernard Pottier define lexia como a unidade lexical memorizada.

(Ih, Madrasta, entendi bulhufas!, dirá você. Aí eu lhe digo: pega aquele negóço que você abre pra se proteger da chuva. Agora pensa no nome desse troço. Guarda-chuva, né? Então, temos uma unidade lexical. Guarda-chuva está registrado nos seus neurônios como  a unidade lexical que você usa pra definir esse troço que você sempre esquece dentro do ônibus quando não está mais chovendo. Porque as unidades lexicais podem ser simples (pense naquele negócio que você usa pra tomar chá, a xícara) ou compostas, como é o caso do guarda-chuva).

Mas voltando à nossa unidade lexical. O seu Pottier amigo do doutor Valter explica que qualquer outro vagão que você tente enfiar nesse trem não vai mexer muito na composição final. você pode dizer guarda-chuva novo, ou novo guarda-chuva, que a compreensão vai se manter. E se alguém tentar dizer guarda-novo-chuva você vai entender que o zifio em questão tá falando um troço meio errado….

E mais uma vez a mesóclise entra em campo pra mostrar o calcanhar de aquiles desse critério de definição.

Peguemos, pois, o vocábulo obedecerei. Ao acrescentarmos um pronome oblíquo dentro desse vocábulo (obedecer-TE-ei), vemos a separação de seus elementos constitutivos. Mas seu Pottier dá conta dessa crise rapidinho e separa alhos de bugalhos: obedecerei não é uma lexia, embora seja reconhecido como palavra.

Algo me diz que muito em breve vamos voltar às conjugações verbais aqui nas poções de morfologia pra continuar definindo esstrem de palavra. (Desnecessário dizer que as mesóclises serão as vedétchys das poções de morfologia, né?)

Aí eu fui catar web afora um link pra ilustrar melhor esse post, e encontrei essa coisamalrindadomundo que é essa letra do Teatro Mágico. Não sei se é a TPM, mas eu tô aqui chorando.

 

 

Palavra
Tenho que escolher a mais bonita
Para poder dizer coisas do coração
Da letra e de quem lê
Toda palavra escrita, rabiscada
No joelho, guardanapo, chão
Ponto, pula linha, travessão

E a palavra vem
Pequena
Querendo se esconder no silêncio
Querendo se fazer de oração
Baixinha como a altura da intenção na insegurança
Vírgula, parênteses, exclamação
Ponto, pula linha, travessão

E a palavra vem
Vem sozinha
Que a minha frase invento pra te convencer
Vem sozinha
Se o texto é curto, aumento pra te convencer
Palavra
Simples como qualquer palavra
Que eu já não precise falar
Simples como qualquer palavra
Que de algum modo eu pude mostrar
Simples como qualquer palavra
Como qualquer palavra.

Jogo dos erros – agora com os erros destacados

quinta-feira, abril 11th, 2013

A ordem do dia é reciclar! A ideia é pegar o lixo, o chorume, e transformá-lo em algo útil e proveitoso.

Então, vamos usar essa excrescência (<– atentem para a grafia CORRETA da palavra) desse pastor para ensinar ortografia.

Atualização: desculpem pela demora, mas me enrolei purdimais da conta, vamos lá apontar os erros que o Feliciano cometeu 

Encontrem abaixo os erros de português cometidos pelo sujeito que ousa usar o nome dum cara tão genial quanto Jesus Cristo para… (ah, vocês sabem pra quê!)

 

Mais tarde eu comento aqui os absurdos desse texto – E OLHA QUE EU VOU ME ATER TÃO SOMENTE À GRAMÁTICA E À ORTOGRAFIA, HEIN?!?!

PastorFelicianoBatalha

1- Não existe verbo ensinuar. O que existe são os verbos:

Insinuar

verbo bitransitivo e pronominal
 introduzir(-se) devagar e com cautela
Exs.: insinuou-lhe um sonífero no chá;  insinuava-se entre as árvores para vê-la banhar-se

transitivo direto, bitransitivo e pronominal
fazer penetrar ou penetrar de forma gradual e sutil (no espírito, na mente)
Exs.: i. uma doutrina satânica (na mente das crianças); a dúvida começava a i.-se em sua mente

transitivo direto
deixar que se perceba sem expressar claramente; dar a entender, sugerir Ex.: i. uma acusação

(ui! Tio Antônio só pensa *na-qui-lo*! 😀 )

E

Ensinar

verbo
transitivo direto e bitransitivo
repassar ensinamentos sobre (algo) a; doutrinar, lecionar
Ex.: e. português (a estrangeiros)

transitivo direto e bitransitivo
Derivação: por extensão de sentido.
transmitir (experiência prática) a; instruir (alguém) sobre
Ex.: o trapezista deve e. sua arte (ao filho)

bitransitivo
mostrar com precisão; indicar
Ex.: ensinou-lhes o rumo a tomar

transitivo direto
reinar (animal); adestrar
Ex.: e. um cão

intransitivo
dar aulas
Ex.: nasceu para e.

 

2- Palavras proparoxítonas, ou seja, que têm como tônica a terceira sílaba contando de trás pra frente (também conhecida como antepenúltima), são todas acentuadas, sem exceção. Como a palavra lésbicas. Que não foi acentuada pelo sujeito que cometeu esse texto.

 

3- Vamos aproveitar o chorume daí de cima para algo útil? então, vamos apresentar aqui as regras para hífen definidas no Novo Acordo Ortográfico da Língua portuguesa. O segredo a guardar é: letra igual e agá. Só nesses casos a palavra leva hífen. Mais detalhes neste post aqui.

No caso da palavra composta pelo prefixo bi (dois) + sexual (referente a sexo; praticante de sexo) , o prefixo termina com uma letra diferente da que inicia a palavra à qual ele vai se ligar. Portanto, não há hífen, o prefixo se liga automaticamente à palavra formando um novo vocábulo. Mas note: todos os ajustes necessários, como dobrar érres e ésses quando necessário (CASO DE BISSEXUAL) devem ser aplicados ao novo vocábulo. Ou isso ou você deve ler bisexual como bizequissual). enfim, não.

 

4- A palavra política, proparoxítona, é obrigatoriamente acentuada; família, paroxítona terminada em ditongo decrescente (duas vogais: a primeira muito bem falada, a outra quase sumida na pronúncia) também é acentuada.

 

5- afim escrito assim, junto, significa semelhante, parente, ou qualquer coisa que tenha afinidade (lembra do Big Brother que você nunca mais esquece!); a fim, escrito separado, significa “com o objetivo de“, “com a finalidade de” ou simplesmente “para“.

 

6- O trecho (…) o futuro de nossas igrejas diante deste grande embate, não deixe de participar, traga sua opinião se escrito fosse por alguém com um mínimo de intimidade com os sinais de pontuação, ficaria assim:

(…) o futuro de nossas igrejas diante deste grande embate -PONTO. Não deixe de participar-PONTO DE EXCLAMAÇÃO! Traga sua opinião -PONTO DE EXCLAMAÇÃO!

 

7- ele não deveria ter nascido. <– questão desclassificada, posto que eu prometi me ater apenas às questões ortográficas dessa excrescência em forma de texto.

Conclusão:

foto (7)

 

O advento do último dia de abril

sexta-feira, março 1st, 2013

Queridos encostos,

Vou ensinar um feitiço pra ninguém nunca mais errar a quantidade de dias de cada mês.

 

Façam assim:

1- Fechem a mão direita como se fossem dar um soco em alguém.

2- Agora reparem o “nó” de osso que liga os dedos à mão. e repare que entre dois “nós” de osso tem um “vale”.

3- Comece a contar janeiro a partir do nó do dedo fura-bolo, e fevereiro será contado no “vale” à direita.

4- O “nó” do mindinho é o mês de julho.

5- E agora, Madrasta, cabô a mão, o que eu faço? – volte pro nó do fura-bolo e conte de agosto até dezembro.

6- Todos os meses contados nos nós dos dedos têm 31 dias. Os meses dos vales têm menos de 31 dias (30 ou, no caso de fevereiro, 28 ou 29).

 

Agora, vamos todos fazer esse feitiço juntos pra exorcizarmos o 31 de abril do Correio Braziliense!

(Mas antes eu agradeço ao Constâncio Viana Coutinho, que compartilhou a teteia (sem acento) no Facebook)

abrilCB

Vambora, conta com a ajuda de todos! /o\

Língua de índio – e você reclamando da crase! O_o

segunda-feira, janeiro 21st, 2013

Espero que antes de chegar aqui você tenha entendido, de uma vez por todas, que usar a construção “mim fazer” é gramaticalmente correto. Mim é sujeito do infinitivo, quer o seu professor ignorante de português queira ou não. e todas as outras línguas do mundo estruturadas no esquema sujeito-verbo-objeto aceitam apenas – e tão somente – o pronome objeto como sujeito do infinitivo.

Daí a ameba estufa o peito pra dizer que índio não sabe falar direito, é um ser muito primitivo.

Aham, sei.

Quer ver como as línguas indígenas brasileiras são primitivas (só que não)? Então, passo a palavra ao professor Aryon Dall’igna Rodrigues (jogue no Google e mooooooooorra de vergonha da sua insignificante existência!), no livro “Línguas Brasileiras – para o conhecimento das línguas indígenas”, das Edições Loyola (1994). O trechinho a seguir pode ser encontrado nas páginas 25 e 26. (e você deverá resistir à piadinha fácil com os dois últimos exemplos! É UMA ORDEM!)

Outro exemplo de diferentes organizações gramaticais pode ser observado nos demonstrativos. O Português tem um sistema relativamente complexo (mais complexo, por exemplo, que o do francês, o do inglês ou o do alemão), no qual a escolha do demonstrativo pelo falante é condicionada pela relação de proximidade entre o objeto assinalado e os interlocutores (este, perto do falante; esse, perto do ouvinte; aquele, afastado de ambos); pela especificidade do objeto designado (especificado: quero este mamão ou quero este; não-especificado: quero isto); pela classe gramatical (Gêneros masculino e feminino), do nome do objeto (este mamão; esta maçã); e pelo número (singular ou plural) do mesmo nome (este mamão, estas maçãs).

No Kadiwéu também há, como no Português, dois gêneros e dois números, que determinam a escolha dos demonstrativos, mas não é levada em conta a especificidade do objeto. Fatores adicionais de condicionamento da escolha são, entretanto, a dinamicidade do objeto, distinguindo-se entre objetos em movimento e objetos estáticos; no caso de objetos em movimento, distingue-se a orientação do movimento em relação ao falante: objetos que se aproximam e objetos que se afastam; no caso de objetos estáticos, distingue-se a posição destes: objetos longos em posição vertical ou objetos suspensos, objetos curtos não suspensos e objetos longos em posição horizontal. Exs:

nGida Goneleegiwa, “este homem” (masculino, singular, parado, em pé);
nGini Goneleegiwa “este homem” (masculino, singular, parado, sentado);
nGidi Goneleegiwa “este homem” (masculino, singular, parado, deitado);
nGada iwaalo “esta mulher” (feminino, singular, parada, em pé);
nGadi iwaalo “esta mulher” (feminino, singular, parada, deitada);
nGidiwa Goneleegiwadi  “estes homens” (plural, parado – no plural não se distingue o gênero nem a posição);
nGidjo Goneleegiwa “este homem” (masculino, singular, afastando-se);
nGina Goneleegiwa “este homem” (masculino, singular, aproximando-se);
nGana iwaalo  “esta mulher” (feminino, singular, aproximando-se);
nGinowa iwaalepodi  “estas mulheres” (plural, aproximando-se).

 

E há ainda um sexto valor que se manifesta nos demonstrativos dessa língua, o diminutivo:

nGidi iwooGo “este pau” (masculino, singular, parado, horizontal);
nGidida iwooGo “este pauzinho” (masculino, singular, parado, horizontal, diminutivo.

(RESISTA! EU TÔ MANDANDO!!!)

E você reclamando que não entende crase….

A partir de agora, em vez de dizer mim  não faz porque mim não é índio, complete a frase com mim é ameba preconceituosa!

Mim não faz isso, mas isso pode ser para mim fazer. Calma que eu explico!

segunda-feira, janeiro 21st, 2013

Feliz ano novo, amebas! Tô aqui devendo um post há mais de mês, né? Mas não fiquem tristes, a bruxa voltou! ♥♥♥

E eu volto com propensão a barraco! Vou criar polhêmica (porque eu não sei atacar de DJ).

(E um beijo pro professor Dioney Moreira Gomes, que me deu esta aula! \o/ )

 

E aí? Você é mais um daqueles que sai acorrejeiando os outros por aí dizendo que mim não faz porque mim não é índio?

Então este post será um duplo puxão na sua orelha!

Vamos começar nomeando os bois, digo, os pronomes.

Há dois tipos de pronomes pessoais: os retos e os oblíquos. Vamos escalar os times:

Pronomes retos: eu, tu, ele (ela), nós, vós, eles (elas)

Pronomes oblíquos: me, mim, comigo, te, ti, contigo, o, a, lhe, se, si, consigo, nos, conosco, vos, convosco, os, as, lhes, se, si, consigo.

Agora desarregale esse olhos assustados e abestados, e acompanhe o que eu vou te contar.

– Os pronomes retos acabam por ter uma função bem característica de sujeito da frase: eles mandam no predicado, no verbo, no objeto e se bobear estão aí te mandando sentar direito na cadeira pra não ficar com dor nas costas!

– Os pronomes oblíquos são relegados à função de (e por isso são também conhecidos como) pronomes objetos. Não se metem com o sujeito.

Isto posto, todos concordamos que, segundo as normas do português culto, devemos dizer:

Eu faço isso (eu = sujeito da frase, pronome pessoal reto, tá mandando nas outras duas palavras da frase que, reprimidas, obedecem caladas)

Este presente não se destina a mim (Este presente = sujeito da frase; não se destina a mim = predicado; a mim = objeto indireto, já que temos uma preposição antes do pronome. Portanto, conclui-se que o mim não só deve ser usado como objeto, mas é altamente recomendável que esse objeto seja do tipo indireto, e tenha uma bela de uma preposição para recebê-lo!)

Aí você está dizendo agora: Mas então, Madrasta! Pelo que você está dizendo, “mim não faz” nada! Pois receba um pescotapa e assossegue o facho que eu ainda não acabei de explicar, ô coisa!

Vamos pensar agora nesta frase:

Este trabalho não é para mim

Está correta? Mas é claro que está! O sujeito da frase é este trabalho. Portanto, para mim é o objeto indireto da frase.

 

Agora começa a bruxaria: e se eu enfiar um verbo no final desta frase? Como fica?

Este trabalho não é para ____ fazer

 

Antes que você responda é pra EU fazer, bruxa besta! Mim não faz nada, mim não é índio! e eu te enfie outro pescotapa, vamos consultar as outras línguas. Vamos traduzir a frase para:

Inglês: This work is not for ME to do

Francês: ce n’est pas à MOI de faire ce travail

Espanhol: Este trabajo no es para MÍ hacer

TODOS os pronomes acima são objetos. NENHUM é pronome reto! Repare que, pelo seu raciocínio, os índios franceses, ingleses e espanhóis fazem coisa bagarai,  né? E agora, onde está sua certeza?

Calma que eu não vim aqui para confundir, mas para esclarecer!

O que você ouviu do seu professor na escola foi que mim não faz, porque mim não é índio! Isso aqui é para EU fazer! E pronto. Você não pediu maiores explicações, e seu professor não lh’as deu.

Ocorre que o português é uma das poucas línguas do mundo (se não me engano, outra seria o catalão) que admite TANTO O PRONOME RETO QUANDO O PRONOME OBJETO nesses casos.

Portanto, estão corretas tanto

Este trabalho não é para MIM fazer

Como

Este trabalho não é para EU fazer

Admite-se o uso do pronome objeto, uma vez que a oração para mim fazer é uma oração subordinativa objetiva indireta: ela é uma oração, com verbo e tudo, que age como objeto indireto da oração principal (este trabalho não é) . Mas também admite-se o uso do pronome reto, posto que o verbo fazer pede um pronome de respeito, e não um objeto qualquer…

Claro que convencionou-se que a norma culta só admite a forma para eu fazer pelos motivos já explicados (e derrubados) acima (Mas essa mesma norma culta admite o uso da construção o professor não lh’as deu, que eu usei agora há pouco, de propósito, e você deve ter torcido o nariz.). Portanto, se o mim fazer ainda doer nos seus ouvidos,  use o eu fazer.

Eu, pessoalmente, devo confessar que, de tanto ouvir a correção e usá-la, as duas formas me incomodam, porque eu sempre achei que um pronominho objeto ficaria mais em casa lá ao lado do fazer. Na dúvida, altere a frase pra não usar nem uma forma nem outra.

É isso. Estrebuchem à vontade nos comentários!

Mas cadê o outro puxão de orelha, Madrasta?

Fico devendo pra depois. É sobre você tratar língua indígena com preconceito. Mas pra isso vou precisar de uma cópia do livro do professor Aryon, que não está comigo neste momento. Deixo pra amanhã!

(P.S.: se eu chamei de objeto indireto um predicativo, e você souber apontar esse erro, por favor me avise! 😀 )

A Essência do preconceito 2 – a missão

domingo, novembro 11th, 2012

A Veja desta semana superou-se no quesito vamos escrever bosta

O artigo de JR Guzzo tá… OK, vou me abster de comentar a qualidade desse troço. Vou PROVAR.

A Lele do Te dou um dado? atinou para um detalhe do texto:

 

Eu já havia feito isso com um discurso da Miriam Rios, há mais de ano, lembram?

Então, faço novamente. Vou substituir homossexual por negro; homofobia por racismo, e por aí vai. Todas as substituições estarão destacadas em negrito e vermelho.

Vou colar o texto original e o “adaptado” pra você poder comparar. E vou marcar como cortado partes do texto que citam casos factuais, nas quais a mera substituição não faz muito sentido, ainda que não perca de todo o valor (por exemplo: o texto fala do kit gay, e cita Oscar Wilde como homossexual, na substituição ele virou negro. A coisa não faz sentido, mas ainda assim ajuda a ilustrar. Nesses casos, cortei sem eliminar o texto. E olha que eu cortei pouco, viu?

Mas se você quiser desmerecer o texto pelo caminho mais fácil, faça como o Cardoso, e jogue a história da panela Tefal no Google.

Vamos lá?

Primeiro, o texto original, com os devidos destaques:

*****************

Parada gay, cabra e espinafre

Já deveria ter ficado para trás no Brasil a época em que ser homossexual era um problema. Não é mais o problema que era, com certeza, mas a verdade é que todo o esforço feito há anos para reduzir o homossexualismo a sua verdadeira natureza – uma questão estritamente pessoal – não vem tendo o sucesso esperado. Na vida política, e só para ficar num caso recente, a rejeição ao homossexualismo pela maioria do eleitorado continua sendo considerada um valor decisivo nas campanhas eleitorais. Ainda agora, na eleição municipal de São Paulo, houve muito ruído em tomo do infeliz “kit gay” que o Ministério da Educação inventou e logo desinventou, tempos atrás, para sugerir aos estudantes que a atração afetiva por pessoas do mesmo sexo é a coisa mais natural do mundo. Não deu certo, no caso, porque o ex-ministro Fernando Haddad, o homem associado ao “kit”, acabou ganhando – assim como não tinha dado certo na eleição anterior, quando a candidata Marta Suplicy (curiosamente, uma das campeãs da “causa gay” no país) fez insinuações agressivas quanto à masculinidade do seu adversário Gilberto Kassab e foi derrotada por ele. Mas aí é que está: apesar de sua aparente ineficácia como caça-votos, dizer que alguém é gay, ou apenas pró-gay, ainda é uma “acusação”. Pode equivaler a um insulto grave – e provocar uma denúncia por injúria, crime previsto no artigo 140 do Código Penal Brasileiro. Nos cultos religiosos, o homossexualismo continua sendo denunciado como infração gravíssima. Para a maioria das famílias brasileiras, ter filhos ou filhas gay é um desastre – não do tamanho que já foi, mas um drama do mesmo jeito.

Por que o empenho para eliminar a antipatia social em torno do homossexualismo rateia tanto assim? O mais provável é que esteja sendo aplicada aqui a Lei das Consequências Indesejadas, segundo a qual ações feitas em busca de um determinado objetivo podem produzir resultados que ninguém queria obter, nem imaginava que pudessem ser obtidos. É a velha história do Projeto Apollo. Foi feito para levar o homem à Lua; acabou levando à descoberta da frigideira Tefal. A Lei das Consequências Indesejadas pode ser do bem ou do mal. É do bem quando os tais resultados que ninguém esperava são coisas boas, como aconteceu no Projeto Apollo: o objetivo de colocar o homem na Lua foi alcançado – e ainda rendeu uma bela frigideira, além de conduzir a um monte de outras invenções provavelmente mais úteis que a própria viagem até lá. É do mal quando os efeitos não previstos são o contrário daquilo que se pretendia obter. No caso das atuais cruzadas em favor do estilo de vida gay, parece estar acontecendo mais o mal do que o bem. Em vez de gerar a paz, todo esse movimento ajuda a manter viva a animosidade; divide, quando deveria unir. O kit gay, por exemplo, pretendia ser um convite à harmonia – mas acabou ficando com toda a cara de ser um incentivo ao homossexualismo, e só gerou reprovação. O fato é que, de tanto insistirem que os homossexuais devem ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos, ou como uma espécie ameaçada, a ser protegida por uma coleção cada vez maior de leis, os patronos da causa gay tropeçam frequentemente na lógica – e se afastam, com isso, do seu objetivo central.

O primeiro problema sério quando se fala em “comunidade gay” é que a “comunidade gay” não existe – e também não existem, em consequência, o “movimento gay” ou suas “lideranças”. Como o restante da humanidade, os homossexuais, antes de qualquer outra coisa, são indivíduos. Tem opiniões, valores e personalidades diferentes. Adotam posições opostas em política, religião ou questões éticas. Votam em candidatos que se opõem. Podem ser a favor ou contra a pena de morte, as pesquisas com células-tronco ou a legalização do suicídio assistido. Aprovam ou desaprovam greves, o voto obrigatório ou o novo Código Florestal – e por aí se vai. Então por que, sendo tão distintos entre si próprios, deveriam ser tratados como um bloco só? Na verdade, a única coisa que têm em comum são suas preferências sexuais – mas isso não é suficiente para transformá-los num conjunto isolado na sociedade, da mesma forma como não vem ao caso falar em “comunidade heterossexual” para agrupar os indivíduos que preferem se unir a pessoas do sexo oposto. A tendência a olharem para si mesmos como uma classe à parte, na verdade, vai na direção exatamente contrária à sua principal aspiração – a de serem cidadãos idênticos a todos os demais.

Outra tentativa de considerar os gays como um grupo de pessoas especiais é a postura de seus porta-vozes quanto ao problema da violência, imaginam-se mais vitimados pelo crime do que o resto da população; já se ouviu falar em “holocausto” para descrever a sua situação. Pelos últimos números disponíveis, entre 250 e 300 homossexuais foram assassinados em 2010 no Brasil. Mas, num país onde se cometem 50.000 homicídios por ano, parece claro que o problema não é a violência contra os gays; é a violência contra todos. Os homossexuais são vítimas de arrastões em prédios de apartamentos, sofrem sequestros-relâmpago, são assaltados nas ruas e podem ser mortos com um tiro na cabeça se fizerem o gesto errado na hora do assalto – exatamente como ocorre a cada dia com os heterossexuais; o drama real, para todos, está no fato de viverem no Brasil. E as agressões gratuitas praticadas contra gays? Não há o menor sinal de que a imensa maioria da população aprove, e muito menos cometa, esses crimes; são fruto exclusivo da ação de delinquentes, não da sociedade brasileira.

Não há proveito algum para os homossexuais, igualmente, na facilidade cada vez maior com que se utiliza a palavra “homofobia”; em vez de significar apenas a raiva maligna diante do homossexualismo, como deveria, passou a designar com frequência tudo o que não agrada a entidades ou militantes da “causa gay”. Ainda no mês de junho, na última Parada Gay de São Paulo, os organizadores disseram que “4 milhões” de pessoas tinham participado da marcha – já o instituto de pesquisas Datafolha, utilizando técnicas específicas para esse tipo de medição, apurou que o comparecimento real foi de 270.000 manifestantes, e que apenas 65.000 fizeram o percurso do começo ao fim. A Folha de S.Paulo, que publicou a informação, foi chamada de “homofóbica”. Alegou-se que o número verdadeiro não poderia ter sido divulgado, para não “estimular o preconceito” – mas com isso só se estimula a mentira. Qualquer artigo na imprensa que critique o homossexualismo é considerado “homofóbico”; insiste-se que sua publicação não deve ser protegida pela liberdade de expressão, pois “pregar o ódio é crime”. Mas se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja lá o que for. Na verdade, não obriga ninguém a gostar de ninguém; apenas exige que todos respeitem os direitos de todos.

Há mais prejuízo que lucro, também, nas campanhas contra preconceitos imaginários e por direitos duvidosos. Homossexuais se consideram discriminados, por exemplo, por não poder doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham uma história clínica de diabetes, hepatite ou cardiopatias. O mesmo acontece em relação ao casamento, um direito que tem limites muito claros. O primeiro deles é que o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa. Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais, pelo tempo e nas condições que quiserem. Podem apresentar-se na sociedade como casados, celebrar bodas em público e manter uma vida matrimonial. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco. Há outros limites, bem óbvios. Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar. Não pode se casar com a própria mãe, ou com uma irmã, filha, ou neta, e vice-versa. Não poder se casar com uma menor de 16 anos sem autorização dos pais, e se fizer sexo com uma menor de 14 anos estará cometendo um crime. Ninguém, nem os gays, acha que qualquer proibição dessas é um preconceito. Que discriminação haveria contra eles, então, se o casamento tem restrições para todos? Argumenta-se que o casamento gay serviria para garantir direitos de herança – mas não parece claro como poderiam ser criadas garantias que já existem. Homossexuais podem perfeitamente doar em testamento 50% dos seus bens a quem quiserem. Têm de respeitar a “legítima”, que assegura a outra metade aos herdeiros naturais – mas essa obrigação é exatamente a mesma para qualquer cidadão brasileiro. Se não tiverem herdeiros protegidos pela “legítima”, poderão doar livremente 100% de seu patrimônio – ao parceiro, à Santa Casa de Misericórdia ou à Igreja do Evangelho Quadrangular. E daí?

A mais nociva de todas essas exigências, porém, é o esforço para transformar a “homofobia” em crime, conforme se discute atualmente no Congresso. Não há um único delito contra homossexuais que já não seja punido pela legislação penal existente hoje no Brasil. Como a invenção de um novo crime poderia aumentar a segurança dos gays, num país onde 90% dos homicídios nem sequer chegam a ser julgados? A “criminalização da homofobia” é uma postura primitiva do ponto de vista jurídico, aleijada na lógica e impossível de ser executada na prática. Um crime, antes de mais nada, tem de ser “tipificado” – ou seja, tem de ser descrito de forma absolutamente clara. Não existe “mais ou menos” no direito penal; ou se diz precisamente o que é um crime, ou não há crime. O artigo 121 do Código Penal, para citar um caso clássico, diz o que é um homicídio: “Matar alguém”. Como seria possível fazer algo parecido com a homofobia? Os principais defensores da “criminalização” já admitiram, por sinal, que pregar contra o homossexualismo nas igrejas não seria crime, para não baterem de frente com o princípio da liberdade religiosa. Dizem, apenas, que o delito estaria na promoção do “ódio”. Mas o que seria essa “promoção”? E como descrever em lei, claramente, um sentimento como o ódio?

Os gays já percorreram um imenso caminho para se libertar da selvageria com que foram tratados durante séculos e obter, enfim, os mesmos direitos dos demais cidadãos. Na iluminadíssima Inglaterra de 1895, o escritor Oscar Wilde purgou dois anos de trabalhos forçados por ser homossexual; sua vida e sua carreira foram destruídas. Na França de 1963, o cantor e compositor Charles Trenet foi condenado a um ano de prisão, pelo mesmo motivo. Nada lhe valeu ser um dos maiores nomes da música popular francesa, autor de mais de 1.000 canções, muitas delas obras imortais como Douce France – uma espécie de segundo hino nacional de seu país. Wilde, Trenet e tantos outros foram homens de sorte – antes, na Europa do Renascimento, da cultura e da civilização, homossexuais iam direto para as fogueiras da Santa Madre Igreja. Essas barbaridades não foram eliminadas com paradas gays ou projetos de lei contra a homofobia, e sim pelo avanço natural das sociedades no caminho da liberdade. É por conta desse progresso que os homossexuais não precisam mais levar uma vida de terror, escondendo sua identidade para conseguir trabalho, prover o seu sustento e escapar às formas mais brutais de chantagem, discriminação e agressão. É por isso que se tornou possível aos gays, no Brasil e no mundo de hoje, realizar o que para muitos é a maior e mais legítima ambição: a de serem julgados por seus méritos individuais, seja qual for a atividade que exerçam, e não por suas opções em matéria de sexo.

Perder o essencial de vista, e iludir-se com o secundário, raramente é uma boa ideia.

*******

Agora, o texto “adaptado”:

 

Parada negra , cabra e espinafre

Já deveria ter ficado para trás no Brasil a época em que ser negro era um problema. Não é mais o problema que era, com certeza, mas a verdade é que todo o esforço feito há anos para reduzir o racismo a sua verdadeira natureza – uma questão estritamente pessoal – não vem tendo o sucesso esperado. Na vida política, e só para ficar num caso recente, a rejeição ao racismo pela maioria do eleitorado continua sendo considerada um valor decisivo nas campanhas eleitorais. Ainda agora, na eleição municipal de São Paulo, houve muito ruído em tomo do infeliz “kit racial” que o Ministério da Educação inventou e logo desinventou, tempos atrás, para sugerir aos estudantes que gente de cor negra  é a coisa mais natural do mundo. Não deu certo, no caso, porque o ex-ministro Fernando Haddad, o homem associado ao “kit”, acabou ganhando – assim como não tinha dado certo na eleição anterior, quando a candidata Marta Suplicy (curiosamente, uma das campeãs da “causa negra” no país) fez insinuações agressivas quanto à raça do seu adversário Gilberto Kassab e foi derrotada por ele. Mas aí é que está: apesar de sua aparente ineficácia como caça-votos, dizer que alguém é negro, ou apenas pró-negro, ainda é uma “acusação”. Pode equivaler a um insulto grave – e provocar uma denúncia por injúria, crime previsto no artigo 140 [Obs.: Esse é o crime citado no texto original, referente à injúria. O crime de racismo é a  lei 7.716/1989, também conhecida como lei Caó, que tornou o racismo crime inafiançável]  do Código Penal Brasileiro. Nos cultos religiosos, o racismo continua sendo denunciado como infração gravíssima. Para a maioria das famílias brasileiras, ter filhos ou filhas negros é um desastre – não do tamanho que já foi, mas um drama do mesmo jeito.

Por que o empenho para eliminar a antipatia social em torno do racismo rateia tanto assim? O mais provável é que esteja sendo aplicada aqui a Lei das Consequências Indesejadas, segundo a qual ações feitas em busca de um determinado objetivo podem produzir resultados que ninguém queria obter, nem imaginava que pudessem ser obtidos. É a velha história do Projeto Apollo. Foi feito para levar o homem à Lua; acabou levando à descoberta da frigideira Tefal. A Lei das Consequências Indesejadas pode ser do bem ou do mal. É do bem quando os tais resultados que ninguém esperava são coisas boas, como aconteceu no Projeto Apollo: o objetivo de colocar o homem na Lua foi alcançado – e ainda rendeu uma bela frigideira, além de conduzir a um monte de outras invenções provavelmente mais úteis que a própria viagem até lá. É do mal quando os efeitos não previstos são o contrário daquilo que se pretendia obter. No caso das atuais cruzadas em favor do estilo de vida negro, parece estar acontecendo mais o mal do que o bem. Em vez de gerar a paz, todo esse movimento ajuda a manter viva a animosidade; divide, quando deveria unir. O kit racial, por exemplo, pretendia ser um convite à harmonia – mas acabou ficando com toda a cara de ser um incentivo ao racismo , e só gerou reprovação. O fato é que, de tanto insistirem que os negros devem ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos, ou como uma espécie ameaçada, a ser protegida por uma coleção cada vez maior de leis, os patronos da causa negra tropeçam frequentemente na lógica – e se afastam, com isso, do seu objetivo central.

O primeiro problema sério quando se fala em “comunidade negra” é que a “comunidade negra” não existe – e também não existem, em consequência, o “movimento negro” ou suas “lideranças”. Como o restante da humanidade, os negros, antes de qualquer outra coisa, são indivíduos. Têm opiniões, valores e personalidades diferentes. Adotam posições opostas em política, religião ou questões éticas. Votam em candidatos que se opõem. Podem ser a favor ou contra a pena de morte, as pesquisas com células-tronco ou a legalização do suicídio assistido. Aprovam ou desaprovam greves, o voto obrigatório ou o novo Código Florestal – e por aí se vai. Então por que, sendo tão distintos entre si próprios, deveriam ser tratados como um bloco só? Na verdade, a única coisa que têm em comum são sua raça – mas isso não é suficiente para transformá-los num conjunto isolado na sociedade, da mesma forma como não vem ao caso falar em “comunidade branca” para agrupar os indivíduos que não são negros. A tendência a olharem para si mesmos como uma classe à parte, na verdade, vai na direção exatamente contrária à sua principal aspiração – a de serem cidadãos idênticos a todos os demais.

Outra tentativa de considerar os negros como um grupo de pessoas especiais é a postura de seus porta-vozes quanto ao problema da violência, imaginam-se mais vitimados pelo crime do que o resto da população; já se ouviu falar em “holocausto” para descrever a sua situação. Pelos últimos números disponíveis, entre 250 e 300 negros foram assassinados em 2010 no Brasil. Mas, num país onde se cometem 50.000 homicídios por ano, parece claro que o problema não é a violência contra os negros; é a violência contra todos. Os negros são vítimas de arrastões em prédios de apartamentos, sofrem sequestros-relâmpago, são assaltados nas ruas e podem ser mortos com um tiro na cabeça se fizerem o gesto errado na hora do assalto – exatamente como ocorre a cada dia com os brancos; o drama real, para todos, está no fato de viverem no Brasil. E as agressões gratuitas praticadas contra negros? Não há o menor sinal de que a imensa maioria da população aprove, e muito menos cometa, esses crimes; são fruto exclusivo da ação de delinquentes, não da sociedade brasileira.

Não há proveito algum para os negros, igualmente, na facilidade cada vez maior com que se utiliza a palavra racismo”; em vez de significar apenas a raiva maligna diante do racismo , como deveria, passou a designar com frequência tudo o que não agrada a entidades ou militantes da “causa negra”.Ainda no mês de junho, na última Parada Negra de São Paulo, os organizadores disseram que “4 milhões” de pessoas tinham participado da marcha – já o instituto de pesquisas Datafolha, utilizando técnicas específicas para esse tipo de medição, apurou que o comparecimento real foi de 270.000 manifestantes, e que apenas 65.000 fizeram o percurso do começo ao fim. A Folha de S.Paulo, que publicou a informação, foi chamada de racista”. Alegou-se que o número verdadeiro não poderia ter sido divulgado, para não “estimular o preconceito” – mas com isso só se estimula a mentira. Qualquer artigo na imprensa que critique o racismo é considerado preconceituoso”; insiste-se que sua publicação não deve ser protegida pela liberdade de expressão, pois “pregar o ódio é crime”. Mas se alguém diz que não gosta de negros, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de negros, ou de espinafre, ou de seja lá o que for. Na verdade, não obriga ninguém a gostar de ninguém; apenas exige que todos respeitem os direitos de todos.

Há mais prejuízo que lucro, também, nas campanhas contra preconceitos imaginários e por direitos duvidosos. Negros se consideram discriminados, por exemplo, por não poder doar sangue. Mas a doação de sangue não é um direito ilimitado – também são proibidas de doar pessoas com mais de 65 anos ou que tenham uma história clínica de diabetes, hepatite ou cardiopatias. O mesmo acontece em relação ao casamento, um direito que tem limites muito claros. O primeiro deles é que o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa. Pessoas de duas raças diferentes podem viver livremente como casais, pelo tempo e nas condições que quiserem. Podem apresentar-se na sociedade como casados, celebrar bodas em público e manter uma vida matrimonial. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco. Há outros limites, bem óbvios. Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar. Não pode se casar com a própria mãe, ou com uma irmã, filha, ou neta, e vice-versa. Não poder se casar com uma menor de 16 anos sem autorização dos pais, e se fizer sexo com uma menor de 14 anos estará cometendo um crime. Ninguém, nem os negros, acha que qualquer proibição dessas é um preconceito. Que discriminação haveria contra eles, então, se o casamento tem restrições para todos? Argumenta-se que o casamento inter-racial serviria para garantir direitos de herança – mas não parece claro como poderiam ser criadas garantias que já existem. Negros podem perfeitamente doar em testamento 50% dos seus bens a quem quiserem. Têm de respeitar a “legítima”, que assegura a outra metade aos herdeiros naturais – mas essa obrigação é exatamente a mesma para qualquer cidadão brasileiro. Se não tiverem herdeiros protegidos pela “legítima”, poderão doar livremente 100% de seu patrimônio – ao parceiro, à Santa Casa de Misericórdia ou à Igreja do Evangelho Quadrangular. E daí?

A mais nociva de todas essas exigências, porém, é o esforço para transformar o racismo em crime, conforme se discute atualmente no Congresso. Não há um único delito contra negros que já não seja punido pela legislação penal existente hoje no Brasil. Como a invenção de um novo crime poderia aumentar a segurança dos negros, num país onde 90% dos homicídios nem sequer chegam a ser julgados? A “criminalização do racismo é uma postura primitiva do ponto de vista jurídico, aleijada na lógica e impossível de ser executada na prática. Um crime, antes de mais nada, tem de ser “tipificado” – ou seja, tem de ser descrito de forma absolutamente clara. Não existe “mais ou menos” no direito penal; ou se diz precisamente o que é um crime, ou não há crime. O artigo 121 do Código Penal, para citar um caso clássico, diz o que é um homicídio: “Matar alguém”. Como seria possível fazer algo parecido com o racismo? Os principais defensores da “criminalização” já admitiram, por sinal, que pregar contra o racismo nas igrejas não seria crime, para não baterem de frente com o princípio da liberdade religiosa. Dizem, apenas, que o delito estaria na promoção do “ódio”. Mas o que seria essa “promoção”? E como descrever em lei, claramente, um sentimento como o ódio?

Os negros já percorreram um imenso caminho para se libertar da selvageria com que foram tratados durante séculos e obter, enfim, os mesmos direitos dos demais cidadãos. Na iluminadíssima Inglaterra de 1895, o escritor Oscar Wilde purgou dois anos de trabalhos forçados por ser negro ; sua vida e sua carreira foram destruídas. Na França de 1963, o cantor e compositor Charles Trenet foi condenado a um ano de prisão, pelo mesmo motivo. Nada lhe valeu ser um dos maiores nomes da música popular francesa, autor de mais de 1.000 canções, muitas delas obras imortais como Douce France – uma espécie de segundo hino nacional de seu país. Wilde, Trenet e tantos outros foram homens de sorte – antes, na Europa do Renascimento, da cultura e da civilização, negros iam direto para as fogueiras da Santa Madre Igreja. Essas barbaridades não foram eliminadas com paradas negras ou projetos de lei contra o racismo, e sim pelo avanço natural das sociedades no caminho da liberdade. É por conta desse progresso que os negros não precisam mais levar uma vida de terror, escondendo sua identidade para conseguir trabalho, prover o seu sustento e escapar às formas mais brutais de chantagem, discriminação e agressão. É por isso que se tornou possível aos negros, no Brasil e no mundo de hoje, realizar o que para muitos é a maior e mais legítima ambição: a de serem julgados por seus méritos individuais, seja qual for a atividade que exerçam, e não por suas opções em matéria de raça.

Perder o essencial de vista, e iludir-se com o secundário, raramente é uma boa ideia.

 

Enfim. AVALIEM.

(Começo a sentir falta de uma categoria “Cejura?” aqui no blog. Da última vez que isso aconteceu, nasceu a “PORRA, FOLHA!” que, coitada, desta vez tem nada a ver c’a parada…)

E viva Carlão!!!

quarta-feira, outubro 31st, 2012

Se vivo fosse, Carlos Drummond de Andrade completaria 110 anos hoje.

Já publiquei aqui no caldeirão os votos sinceros de ano novo que ele outrora desejou. Mas não posso deixar a data passar em branco. Então, hoje publico minha preferida dele (e destaco o trecho que mais me arrupia!)

Divirtam-se! 😀

PROCURA DA POESIA

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Sou-me

terça-feira, outubro 30th, 2012

Estou há eras pra postar este texto aqui. Tive contato com esta belezura na prova de Linguística.

o texto chama-se “sou-me”, e foi escrito por um cara novo, um tal de Fernando Pessoa…

deliciem-se com o Fernandão (o Pessoa, fazfavô…)

Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. E certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros.

Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, e à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exactamente como se sente – claramente, se é claro; obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso -; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei.
Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, “Aquela rapariga parece um rapaz”. Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, “Aquela rapariga é um rapaz”. Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afecto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, “Aquele rapaz”. Eu direi, “Aquela rapaz”, violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de género, como de número, entre a voz substantiva e a adjectiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.
A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi “Sou”. Se quiser dizer que existo como alma separada, direi “Sou eu”.
Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei-de empregar o verbo “ser” senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi “Sou-me”. Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isto a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?
Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, “Sou Rei de Roma, e acima da gramática”. E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo “super-grammaticam”. Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se.

O poste mais lindo do Brasil não entende a diferença entre o texto pra ser lido em silêncio e o texto pra ser falado. Mas eu explico! ♥

segunda-feira, outubro 29th, 2012

(e de lambuja procêistudo o pai e o filho lheandos! 😀 )

 

Ainda extasiada com a vitória de Fernando Haddad, o poste mais lindo que Lizinácio já ergueu neste país (#numpresto), soprei e bufei de raiva com o discurso da vitória que ele leu (Sua bruxa feia! Rouba o texto na cara dura do blog da linda da Denise Queiroz e nem tchuns pra agradecer a zifia? Já pro castigo! Denise, sua linda, obrigada por postar o texto que eu roubei sem nem lhe pedir permissão! 😛 )

Vamos combinar: de que adianta usar um teleprompter transparente à la Baracão Obama se o texto é mal produzido?

Não vou dizer que o texto é mal escrito, pois isso seria injustiça. Ele está bem redigido, sim, senhor! Só que, pro propósito dele (ser um texto falado, como se não estivesse sendo lido), falhou retumbantemente.

Mas não se preocupe, Haddad! Eu vou dar uma mexidinha aqui e outra acolá (porque seu texto não carece de ser exorcizado), e ele vai ficar nos trinques pra ocasião!

Reparem no que eu vou fazer, com um único objetivo: deixar o texto informal como uma fala cotidiana (vou nem mexer na correção gramatical, como alguns devem estar pensando).

A ver:

 

Minhas amigas e meus amigos. Agora eu sou o prefeito eleito de São Paulo, graças à  Pela vontade soberana dos paulistanoseleitores daqui, sou agora o prefeito eleito de São Paulo. Uma alegria imensa e uma enorme responsabilidade enorme tão brigando por espaço aqui dentro do meu peito agora. dividem espaço no meu peito. Mas o sentimento mais forte, porém, é de gratidão.Quero agradecer em primeiro lugar aos milhões de homens e mulheres que me confiaram o voto. Minha família, minha mulher Ana Estela, minha filha Carolina e meu filho Frederico, que fizeram muitos sacrifícios para me ajudar nessa jornada. Quero agradecer do fundo do coração ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Viva o presidente Lula!

Agradeço ao presidente Lula do fundo do coração ao Lula pela confiança, orientação e apoio, sem os quais seria impossível eu lograr qualquer êxito[PORRA, HADDAD!!! LOGRAR ÊXITO, HADDAD!?!?!?] conseguir qualquer forma de sucesso nessa eleição. Quero agradecer uma outra [#PORRAHADDAD nº 2: ou é uma, ou é outra! Uma outra, não, cacete!!]  grande liderança nacional, a presidenta Dilma Rousseff. Agradeço à presidente Dilma pela presença vigorosa na campanha desde o primeiro turno. Pelo estímulo pessoal e o conforto nos momentos mais difíceis dessa campanha.

Quero agradecer os partidos coligados do primeiro turno, nos quais sintetizo minha homenagem na com um agradecimento especial à  figura valorosa da companheira, minha vice, Nádia Campeão. Quero agradecer aos apoiadores que ampliaram nossa corrente no segundo turno, nos quais sintetizo minha homenagem e meu agradecimento nas figuras do  com um agradecimento especial ao querido deputado Gabriel Chalita e ao vice-presidente Michel Temer. Muito obrigado presidente Michel Temer. [sintetizo a homenagem?!!?!?!?!?! Isso é coisa de uspiano, é?!?!!? O_o E a faculdade de Letras da USP? Tá sabendo disso?]

Quero fazer meu agradecimento muito especial ao meu partido, Partido dos Trabalhadores. Partido que se lançou de corpo e alma nessa luta pacífica em favor do povo de São Paulo. Como seria impossível nomear milhares de colaboradores diretos, sintetizo meu agradecimento e minha homenagem na figura  que todos se sintam agraciados com minha homenagem à figura decisiva e equilibrada do meu coordenador Antonio Donato.[baixou um exú-químico nesse texto que resolveu sintetizar homenagens e agradecimentos, é?!?!?! O_o]

Quero agradecer a todos, quero agradecer por último, mas não menos importante, a todos meus opositores que me obrigaram a extrair o melhor de mim nessa campanha para que eu pudesse superar a eles poder superá-los em uma disputa limpa e democrática. A todos indistintamente o meu muito obrigado.

Fui eleito pelo sentimento de mudança que domina a alma do povo de São Paulo. Sei da enorme responsabilidade de todos que são eleitos pelo signo da mudança. Ser eleito pela força da mudança significa não ter tempo a perder. Não ter medo de enfrentar, nem ter justificativas a dar para tornar esse sonho realidade. Significa não ter paciência e não pedir paciência. Antes de tudo, traçar prioridades e unir a cidade em torno de um projeto coletivo, de todos os paulistanos, de todos os moradores de São Paulo.

Meu objetivo central está plenamente delineado [que foi? cê tá esperando eu reclamar desse plenamente delineado?!?!?! Inda tô passada com a sintetização de agradecimentos, me deixa….], discutido e aprovado pela maioria do povo de São Paulo. É diminuir a grande desigualdade existente emna nossa cidade, é derrubar o muro da vergonha que separa a cidade rica e a cidade pobre. Somos uma das mais ricas e ao mesmo tempo uma das mais desiguais do planeta. Não podemos deixar que isso siga assim por tempo indeterminado, exatamente no momento em que o Brasil vem passando por uma das mudanças sociais vigorosas do mundo. A prefeitura tem um papel importante nisso, pois é elaporque é ela quem vai cuidar que cuida da oferta e da qualidade de alguns dos serviços públicos mais essenciais como a saúde, o transporte, a educação, a habitação, entre outros[ <— típica muleta de autor de teses e dissertações. o entre outros é genérico e avisa nas entrelinhas: eu posso ter esquecido de enumerar alguma coisa, viu, banca examinadora, mas essa alguma coisa não deixou de ser mencionada! Haddad, seu lindo, use isso só quando for escrever pros seus confrades uspianos, sim? beijinhos!!]

Melhorar esses serviços é também uma forma concreta de distribuir renda, diminuir os desequilíbrios, aumentar e garantir a paz social. Sei que essa não é uma tarefa fácil, dada a complexidade dos problemas que vêm se acumulando nos últimos anos. Mas se São Paulo não conseguir resolver seus problemas, que cidade no Brasil e no mundo conseguirá fazê-lo [Haddad, seu lindo, uma dica da bruxa: futuro do presente e ênclises, próclises ou mesóclises só devem ser usados em textos que não são falados. Neste caso aqui, um texto pra parecer fala natural, você deveria ter escrito assim:] que cidade no Brasil ou no mundo vai conseguir fazer?

O fracasso de São Paulo seria o fracasso desse genial modelo de convivência que a humanidade desenhou ao longo dos séculos para sobreviver e ser feliz. Essa invenção insuperável do gênio humano, que se chama cidade.As cidades foram inventadas para unir, não para desunir. Proteger e não fragilizar. Acarinhar e não violentar. Para dar conforto e não sofrimento. São Paulo tem seus grandes problemas, mas tem e terá as próprias soluções. O Brasil moderno nasceu aqui e o surpreendente Brasil do novo milênio também estará está  aqui. Se corrigirmos nossos erros, se superarmos a inércia, se quebrarmos o imobilismo, e se recuperamos a alma criativa e o espírito de empreendedorismo que sempre foram a marca de São Paulo.

Se considerarmos que o texto está genérico até não poder mais, mas:

– não abusa de clichês ou de lugares-comuns, 

– traz um bom arrazoado de boas intenções

– conclama os cidadãos à união 

Parabéns, Haddad, seu texto ficou muito bom. Mas ponha reparo nesses microdetalhes de estilo, sim?

E desde já me ofereço pra canetar seu discurso de posse! PELO AMOR DE DEUS!!!

Por que me ufano de Merval Pereira

segunda-feira, outubro 22nd, 2012

Aqui neste blog ninguém fala mal de Merval Pereira!!! Eu não deixo!!!

Um cara que me garante média máxima em Introdução à Linguística não deve ser blasfemado!

Tudo começou no ano passado, com o quiproquó do livro do Mec, lembram?

Resumo da ópera, em uma frase e uma imagem: Oposição (mais Merval e Sardenberg) chiaram com a publicação do conteúdo da imagem abaixo porque nos microneurônios deles isso aqui é ensinar o aluno a falar errado:
(só mais uma informaçãozinha: esse livro é destinado ao ensino de Jovens Adultos)

Daí que Carlos Alberto Sardenberg resolveu pedir a Merval que tecesse seu sábio comentário a respeito desse livro.

E foi esse comentário que eu e minhas colhégas apresentamos como trabalho final do curso de Linguística. Tiramos dez.

Mas o que que você fez, Bruxa?

Eeeeeeuuu? Ah, fiz nada de mais, não!  Só editei um videozinho… 😀

 

Ou seja: NÃO FALE MAL DE MERVAL PEREIRA AQUI NESTE CALDEIRÃO!!!

Cada blog tem a Nicole Bahls que merece, néam? 😉

(Se você quiser saber um cadim mais a respeito de língua padrão e língua não-padrão, dê uma passad’olhos neste texto aqui.)

A Língua de Eulália – o livro é chato, mas o tema é muito importante!

quinta-feira, setembro 13th, 2012

Fiz essa resenha como trabalho de Linguística. Mas comecei a discutir o assunto no Twitter, e resolvi trazer esse texto à tona.

Desafio você, aluno ixperrrto, a copiar este texto e entregar ao seu professor. Vais ver porque eu sou uma bruxa…

Enfim. A ideia (que falta que faz esse acento…) é a seguinte: mostrar ao público leigo que frases como os livro é bonito ou pronúncias como trabaio não são português errado, mas variação de uma língua cuja evolução do Latim não se estagnou, ainda prossegue – e é consequência de um país de dimensões e culturas continentais.

O assunto é sério, e rende pano pra manga, discussão, polêmica, quiproquós e tudo quanto é expressão clichê pra designar arranca-rabos de grande magnitude. Que o digam o ex-ministro da Educação Fernando Haddad e o livro didático Viver Aprender, lançado por seu Ministério no ano passado.

O sentido de falar certo e falar errado está mais do que arraigado no subconsciente dos brasileiros e, sem que as pessoas percebam, é uma forma de expressar preconceitos outros: de classe, de raça, geográficos…

Há quem tenha calafrios ao ouvir a frase já citada: os livro é bonito. “A regra é clara”, diriam os arnaldos césares coelhos da Língua Portuguesa: todas as palavras flexionáveis da frase devem concordar em número entre si. Portanto, artigo, substantivo, verbo e complemento nominal devem obrigatoriamente estar todos ou no singular ou no plural. Caso contrário, é errado. O corretor gramatical do Word é minha prova de que até softwares são adestrados a identificar os livro como errado, pois todas as ocorrências da citada expressão neste texto foram sublinhadas em verde pelo programa.

Mas com um pouquinho de metodologia percebe-se na frase errada um critério, uma norma: só a primeira palavra do sintagma ganhou um ésse, e isso já basta para transmitir a informação de plural. Regra diferente, e que é seguida, ainda que instintivamente, de norte a sul deste país, por quem fala português errado. É o que os linguistas chamam de variação linguística. Não caracteriza erro ou ignorância, apenas o emprego de regras outras. A mensagem é transmitida com perfeição do emissor ao receptor, sem ruídos.

Da mesma forma, pronúncias como trabaio, abeia, cuié ou fia estão longe de serem erros ou ignorâncias. Com iguais critérios científicos de análise linguística empregados no raciocínio anterior, é possível perceber que tais pronúncias são explicáveis com palatos, línguas e todas as partes do sistema do corpo humano usado na produção de fonemas e sons de letras e de onomatopeias. E, com um molhinho extra de comparação com outras línguas que, assim como o português,(atenção, professor! se você está lendo estes parênteses, é porque seu aluno copiou um texto da Internet de terceiros e apresentou como se fosse dele, sem nem se dar ao trabalho de ler a bagaça toda! Zero no meliante!)  tiveram seu ponto de partida no Latim, nota-se que essas pronúncias erradas são, na verdade, uma pronúncia quase igual à francesa para essas mesmas palavras: travaille, abeille, cuiller, fille.

Que coisa mais fascinante! – deve pensar o leigo que porventura vier a ler este texto. Mas como fica o ensino da Língua Portuguesa a partir dessa tese? – retrucará em seguida esse mesmo leigo hipotético que me permitiu o uso do verbo retrucar.

Simples: o professor usa em aula as duas variações do português (padrão e não-padrão), evidencia suas diferenças e avisa aos alunos o tempo todo: o português não-padrão não é bem visto por todo mundo. Por fim, fará seus alunos entenderem que é importante usar o português padrão em textos escritos, provas oficiais, tribunais e locais onde se exige mais formalidade por parte dos frequentadores.

Ah, então tá bom! Então, vamos disseminar essa tese, certo? – concluirá o leigo hipotético.

Aí a coisa começa a pegar. Para divulgar essa tese importante, Marcos Bagno – que não é um cara qualquer, trata-se de Linguista e professor do Instituto de Letras da UnB – resolveu fazer “uma novela sociolinguística”. E escreveu o livro A Língua de Eulália, em 1997.

Todo brasileiro que se preza, ao ler a palavra novela logo pensa em enredos e tramas típicas de telenovelas. Mas há quem se lembre de alguma coisa de gêneros literários (assunto de aulas do segundo grau), e que o gênero telenovela está mais para folhetim do que para novela.

Na era do Google, o sacrossanto site de buscas resolve a dúvida, e nos leva a dona Wikipedia: “Uma novela em português é uma narração em prosa de menor extensão do que o romance. Em comparação ao romance, pode-se dizer que a novela apresenta uma maior economia de recursos narrativos; em comparação ao conto, um maior desenvolvimento de enredo e personagens.”

Se dona Wikipedia está certa, então A Língua de Eulália pode ser tudo menos uma novela. Porque de uma coisa enredo e personagens da história de Bagno definitivamente não foram vítimas: de desenvolvimento.

O livro conta uma história chata, arrastada, modorrenta, por vezes pedante. E utiliza-se, para isso, de personagens chatos, insossos, que chegam do nada e levam a história a lugar nenhum, e aparecem no livro para se reunirem em “interessantes” (boceeeeeeeeejo) aulas de português.

E o que dizer da personagem principal, Eulália? Nada, absolutamente nada. Contei menos de cinco falas de Eulália em toda a trama, todas dispensáveis para a condução do enredo.

Na verdade, estou em dúvidas. Eulália é personagem principal ou desculpa do livro? A história desenvolve-se sem que sua participação seja decisiva para o enredo (talvez isso faça de Eulália a personagem com mais empatia em toda a trama).

Em suma: a história prende pelo conteúdo e não pelo formato. O leitor só chega às últimas páginas do livro caso se atenha às ideias de variação não-padrão do português, defendidas pela doutora em Linguística Irene a sua sobrinha e amigas.

Creio que A Língua de Eulália seria muito mais interessante se fosse um folhetim sociolinguístico, e contasse, por exemplo, as agruras e sofrimentos da heroína Eulália, uma trabaiadora no ramo de curtura di abeias que é vítima dos ricos e poderosos que caçoam da forma como ela fala. Se Bagno explorasse a noção de português padrão e português não-padrão por meio de conflitos de classes e geográficos, a história talvez fosse menos modorrenta.

Mas o mais gritante foi ler, na edição de 2011 do livro, as observações do autor a respeito de sua obra, passados 14 anos da primeira edição. Na página 212, Bagno afirma:

Todos os aprendizes devem ter acesso às normas linguísticas urbanas de prestígio, não porque sejam as únicas formas “certas” de falar e de escrever, mas porque constituem, junto com outros bens sociais, um direito do cidadão, de modo que possa se inserir plenamente na vida urbana contemporânea (…)

E, na página 213, completa:

(…) constitui um atentado aos direitos do cidadão continuar a prescrever, como únicas corretas, regras gramaticais que entram em flagrante conflito com a intuição linguística do falante e que não correspondem ao estado atual da língua, nem sequer em seus usos escritos mais formais.

O leitor leigo (público-alvo do livro) pode entender uma contradição nesses dois trechos. E o leitor mal-intencionado (aqueles que defendem que dizer os livro é bonito é coisa do Lula pra impor seu falar errado aos brasileiros estudantes) vai encontrar contradições e vai trabalhar esses dois trechos com o lado negro da força.

É necessário um semestre inteiro de um curso de Linguística para entender que os dois textos não são contraditórios, mas complementares.

A meu ver, Bagno deve urgentemente reescrever essas duas páginas de forma a deixar suas ideias mais à prova de contradições. Pensando bem, se der pra refazer tudo para dar mais vida aos personagens, a história vai ficar melhor…

Adivinha…

quinta-feira, setembro 6th, 2012

… que jornal escreveu essa pérola aí de baixo:

Diquinha básica: começa com F, é de São Paulo, e tem uma catiguria exclusiva aqui no Caldeirão…

Pra quem não sabe onde está o erro, o verbo correto é apropRiar.

 

PORRA, FOLHA!

#prontofalei

Subjuntivo, esse modo ignorado no prédio da Barão de Limeira

segunda-feira, agosto 27th, 2012

Enviado pelo dileto ectoplasma Luis Alacarini via Fêicebúque.

Mais um daqueles posts no qual eu sei nem por onde começar. Vou tentar começar explicando alguns modos verbais.

Porque, né? Quando você quer contar uma ação que não avente dúvidas ou questionamentos, seu modo é o indicativo.

Como o próprio nome dá a dica, ele indica a coisa que rola/vai rolar/já rolou:

Eu sou

Fulano nasceu

Beltrana morrerá de curiosidade.

Mas se a sua praia for a dúvida, ou o exercício da probabilidade/adivinhação, o modo que se adequa às suas necessidades é o subjuntivo. Ele não denota certeza nem indica coisa nenhuma, apenas fala de possibilidades e devaneios:

Que ele nasça bonito (ele ainda não nasceu, nem se sabe se ele vai nascer. Mas, quando isso acontecer, que seja assim)

Se eu estivesse em Paris agora (não estou em Paris, mas bem que essa possibilidade podia rolar, né?)

Quando eu tiver uma Ferrari (no remoto ou improvável dia em que isso acontecer -feat. senta lá Cláudia)

 

Isto posto,

ALGUÉM EXPLICA ESTA MANCHETE DA FOLHA DE SÃO PAULO, CACETE?!?!?

 

Não é certeza que o servidor vá manter a greve. Ele pode manter ou não.

Quedizê: o servidor que MANTIVER a porra da greve vai ficar sem a bosta do reajuste.

 

NÉ, FOLHA?!?!?!

PORRA, FOLHA!!!

 

Vou mandar o subjuntivo invadir o prédio da Barão de Limeira pra detonar uma bomba gramatical lá dentro.

Ele vai entrar de sussa, pois ninguém dentro daquele prédio é capaz de reconhecê-lo, mesmo…

 

Sem café X com café

terça-feira, julho 24th, 2012

Imagino até o que aconteceu.

Redação do Poder online, do IG, lá pelas sete e meia da manhã:

– Entra no site e bota no ar aquela matéria das cestas básicas que eu vou passar o café! – disse o editor

– OK – retrucou o estagiário. (Segunda vez que eu uso o verbo retrucar, me deixa, tô feliz!)

Aí lá vai o estagiário dizem que ele trabalhou no Ego, mas essa informação carece de confirmação morto de sono abrir a edição do site para postar a notícia que já tinha sido apurada, só faltava ser redigida:

 

Pouco depois, o estagiário levanta-se e vai tomar café. Volta para a mesa cheidi café nazidéia, já devidamente acordado, e dá aquela bisoiada básica no site.

E grita:

– POOTAQUEPAREEOO, COMO EU PUDE ESCREVER UMA MERDA DESSAS, CACETE?

Aí ele clica no botão “editar matéria’ e remenda a merda:

 

Com os devidos agradecimentos ao César Cardoso por ter orado aos deuses do print-screen a tempo! \o/

Só 38% ? Acho pouco!

quinta-feira, julho 19th, 2012

Daí que dia desses alguém contabilizou que 38% dos universitários (eu disse universitários, aquela raça que já passou pelo crivo do Vestibular) não dominam as habilidades básicas de leitura. Eu acho esse número baixo. Deve ser muito mais do que isso!

E daí? O que fazer? Assino embaixo do que a Dad squarisi escreveu na edição de hoje do Correio Braziliense:

Língua é direito humano :: Dad Squarisi

Os dados não surpreendem. Mas chocam. Nada menos de 38% dos universitários não dominam as habilidades básicas de leitura e escrita. A pesquisa do Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa prova que o menino é o pai do homem. Os alunos do nível superior são os estudantes que ficam na rabeira de testes de avaliação como Pisa, Enem & Cia. Esperar resultado diferente com dados iguais é acreditar em Papai Noel.

Impõe-se, pois, mudança no andar de baixo para que o de cima reaja. Como? A resposta também não surpreende. O salto qualitativo do ensino se baseia, necessariamente, em três pilares. Um: gestão. A administração da escola precisa de profissionalismo. Bom professor em sala de aula não é sinônimo de bom diretor. Outro: professores nota 10. Mestres quebra-galhos, sem qualificação de ponta e alta motivação, formam alunos à sua imagem e semelhança. O último: salário e carreira atraentes. O magistério deve atrair excelências, não excluídos das demais carreiras.

Com o velho modelo, o Brasil já avançou o máximo. Para seguir adiante, precisa de novo paradigma. Com ele, melhorará os indicadores. O pleno domínio do idioma fará a diferença. A língua impulsiona a leitura, que desempenha papel central em todas as dimensões. De um lado, desenvolve habilidades que favorecem a aprendizagem nas diferentes áreas do conhecimento. De outro, motiva o aluno a estudar, retém-no na escola e promove progressos pessoais. Por fim, leva à compreensão da diversidade cultural e nos torna mais cidadãos.

Novidade? Nenhuma. Tampouco é novidade a inapetência do Estado em mudar as coisas. Juras de amor à educação não faltam. Mas cadê? Sai governo, entra governo, nada se altera. Saídas existem. A Academia Brasileira de Letras (ABL) tem autoridade para encabeçar campanha em prol do ensino pleno da norma culta nas escolas. Tem autoridade também para publicar a gramática da academia, que serviria de base para as demais. Não só. Que tal a ABL defender o domínio da norma culta como direito humano? A ONU está aberta para abraçar a causa.

Dorinha de mal com o verbo haver

quinta-feira, julho 12th, 2012

[suspiro]

Nada como uma bela escorregadela no Manoel (português) pra me fazer reabrir o caldeirão em grande estilo, néam?

Então, vamos analisar a tetéia (com acento, porque eu me apego muito aos acentos) recém-produzida pela Dora Kramer no twitter:

[outro longo suspiro]

Acho que vou fazer um postão que vai virar página especial, só com o verbo haver! Mas enquanto isso não acontece, vou contar um segredinho aqui:

Titicamente, quando o português ainda era um jovem e garboso mancebo e ainda tinha altas relações com o Latim, não tinha evoluído a ponto de criar um futuro do presente para seus verbos. (sabe como é, ele tentava passar de fase do game, mas morria antes, tinha que começar do zero, um saco….)

Daí que as pessoas usavam meique uma ameaça pra se referirem a um tempo que ainda estava por chegar. Mas pra isso, o verbo haver no presente do indicativo (antes que você pergunte: eu hei, tu hás, ele há, nós havemos, vós haveis, eles hão. Agradeça a  Tio Antônio!) frequentava geral as altas e baixas rodas da sociedade.

Então, como eu dizia, lá em priscas eras, nego dizia

Eu hei de chegar em sua casa amanhã / ele há de chegar em sua casa amanhã

Essa locução “haver + preposição de + [enfie aqui o verbo principal de sua preferência]  acabou trocando de ordem, e ficou assim:

eu [enfie aqui o verbo de sua preferência] +verbo haver, ou seja:  

eu chegar hei / ele chegar há  

daí pro

chegarei  / chegará

foi um pulo e um beijinho, beijinho, tchau, tchau pro agá.

O resto é história. E futuro do presente do modo indicativo.

Isto posto, a expressão a ser combinada com  [verbo enfiado de sua preferência] que terá valor similar ao da locução verbal ir+verbo no infinitivo (vou falar / vou fazer / vou acontecer) é a expressão haver de.

Isso, é claro, se você quiser deixar seu texto metido a besta – no que contarás com meu total apoio! Atoron! \o/

Então, Dorinha, sua linda, ou você cria rapidão um trocadilho com o verbo haver e esse verbo dar mal enfiado no seu tuíte ou você deleta seu post.

Mas eu já orei pros deuses do print-screen!

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 ATUALIZAÇÃO ÉPICA:

Observação tão maravilhosa do Flávio aí embaixo nos comentários que eu tive que subir o que ele escreveu:

Pode ter sido erro de pontuação:
1. Reclamar de Kassab? Quem? A Dê? (pode ser alguma conhecida da Dorinha que gosta de reclamar)
2. Reclamar de Kassab, quem? A Dê.
3. coloque aqui a “aversão” de sua escolha…

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#Bjomeliga

Sarney, Millôr, a ordem invertida e a trolada épica – quando ainda não existia o termo “trolada”

segunda-feira, abril 9th, 2012

Deu na coluna do Jorge Bastos Moreno do último sábado, no Globo:

Túnel do tempo

O ano é 1985.

Morto Tancredo, Sarney assume definitivamente o governo.

Beletrista, o novo presidente da República reúne seu sacro colégio de ghost-writers, Josué Montello e Joaquim Campello à frente.

Cada palavra, cada frase, cada parágrafo, milimetricamente medidos, examinados com lupas.

Enfim, uma obra-prima, uma obra de arte.

O primeiro discurso do presidente acadêmico.

Sucesso total.

Como um parnasiano, Sarney, depois, lambe as suas palavras como a vaca lambe a cria, principalmente o ápice: “O destino não me trouxe de tão longe para ser o síndico da catástrofe“.

Dia seguinte, lá, no seu cantinho, como se fosse um mineirinho, Millôr, silenciosamente corrige:

A catástrofe não me trouxe de tão longe para ter o destino de síndico“.

Sarney quis matá-lo!

Deu pena do Demóstenes. Sério. (mas isso passa, não se preocupem! :D )

segunda-feira, abril 9th, 2012

Da série “texto bom é pra ser compartilhado”.

Ruy Castro de hoje, na Folha de SPaulo.

Se o Demóstenes Torres está (dizem) morrendo de vergonha, depois desse texto ele se mata, coitado…

 

Muito antes

No fim de seu reinado, que coincidiu com o fim do século 19, a rainha Vitória, da Inglaterra, foi apresentada ao projeto do submarino, um navio que viajava debaixo d”água e, de lá, disparava contra o inimigo. Vitória ficou chocada: “Quer dizer que o inimigo não verá nossa bandeira?”. Era um golpe baixo e ela não quis saber. Mas isso, claro, foi muito antes dos aviões-robôs.

No Campeonato Carioca de 1913, Belfort Duarte, jogador do América, pôs a mão na bola dentro da própria área e impediu um gol do adversário. O juiz não percebeu. Belfort se acusou e exigiu que ele marcasse o pênalti contra sua equipe. E ele marcou, para desespero dos meninos Vicente Celestino, Lamartine Babo e Mario Reis, que já eram torcedores do América. Mas isso, claro, foi antes de Maradona, Messi e outros que acham normal fazer gols com a mão.

Até 1950, as rádios americanas não admitiam tocar a mesma gravação mais de uma vez a cada 24 horas. “Imagine o ouvinte perceber que já ouviu aquele disco há poucas horas!”, eles alegavam. Mas isso, claro, foi antes do Top 40, da “payola” (jabá) e do roquenrol.

Nos anos 70, os clubes brasileiros não admitiam corromper seus uniformes com marcas comerciais. O que os torcedores diriam ao ver seus craques reduzidos a homens-sanduíche anunciando pneu, refrigerante ou óleo de carro? Mas isso, claro, foi antes de começarem a oferecer até o fundilho dos calções para imprimir marca de gilete ou de camisinha.

Em outros tempos, políticos e contraventores se mantinham a certa distância, sabendo que aquela intimidade era perigosa. Mas isso, claro, foi antes de o senador Demóstenes Torres (GO) e o empresário de caça-níqueis Carlinhos Cachoeira frequentarem as mesmas contas bancárias -e de, antes deles, muitos outros já terem feito o mesmo sem ser apanhados.

Luis Fernando, seu lindo! ♥

quinta-feira, março 22nd, 2012

Faz tanto tempo que não compartilho um texto do Verissimo aqui, né?

Pois bem: o de hoje merece!

E não se avexem: o texto abaixo é um autêntico Verissimo! Estampa a Zero hora e o globo de hoje. Podem verificar!!!

 

Territórios livres

Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário. Ao mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida, e dívidas, que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos. Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja. Se tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu. O poder dela está por toda a parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros.

Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de Igreja e Estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste país, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado.

É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.

Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa. Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração. No caso, de liberdade.

Contradição entre termos

quarta-feira, fevereiro 15th, 2012

Tá puxado, viu?

Abro minhas redes sociais e dou de cara com uma aberração em forma de twitter que vai ser difícil ser superada (muito embora em ano de eleição eu não duvide de nada).

Antes de mais nada, deixem eu trazer aqui alguns exemplos de contradição entre termos:

  • Descida ascendente – ou a coisa desce ou a coisa sobe. Os dois juntos não dá – a não ser que você esteja subindo numa escada rolante que vai pra baixo, mas isso não vem ao caso…
  • Naso-judaico – ou você é nazista ou você é judeu. Os dois juntos ao mesmo tempo não dá pra ser. Por quê? Bom, porque se você for nazista você vai querer matar judeu, e se você for judeu você vai querer dizimar as ideias do nazismo da face da Terra. Só por isso.

 

Enfim, foram só alguns exemplos de expressões que não podem andar juntas porque se anulam.

Mas calma que eu ainda não cheguei ao ponto que eu queria chegar, peraí.

Então, vamos a mais uma definição de expressões da língua portuguesa. com a palavra, Tio antônio. O que é laico?

Laico

1 que ou aquele que não pertence ao clero nem a uma ordem religiosa; leigo

Exs.: um membro l. da congregação

 um l. no meio do clero

2 que ou aquele que é hostil à influência, ao controle da Igreja e do clero sobre a vida intelectual e moral, sobre as instituições e os serviços públicos

Exs.: é próprio de um espírito l. reverenciar o conhecimento científico

 os l. se opõem ao ensino religioso nas escolas públicas

 n adjetivo

3 que é independente em face do clero e da Igreja, e, em sentido mais amplo, de toda confissão religiosa

Ex.: educação l.  

 

Agora sim, podemos começar o post propriamente dito:

Alguém explica?

Ah, não, Bruxa! É mentira! Ele não disse isso! Disse sim, ó….

Tudo isso pra dizer que laico-cristão é uma contradição entre termos. Assim como são contradições entre termos laico-islâmico, laico-judaico (essa ao menos rima!), laico-umbandístico, laico-Sagrada Igreja do Pônei Rosa de Santa Cher ou laico-[insira aqui a religião de sua preferência].

Acho que por enquanto a melhor explicação foi a do Ednaldo Macedo: “É o famoso duplo twist carpado hermenêutico

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