Objetivando Disponibilizar





Como montar uma palavra ou It’s a kind of magic! (Poção de morfologia nº4)

Passada a vibe podrona (quer dizer, ainda não passou, ela dá uma trégua de noite, mas deixa prá lá) vamos a mais uma poção de morfologia. Como reconhecer os ingredientes de uma palavra. Você vai achar que é bruxaria, e eu terei que concordar contigo… tem um quê de mágica nessa coisa toda! quer ver só?

Vamos pegar as palavras constituição, constitucional e   inconstitucionalíssimamente (escrevi direito? Deixa eu ver…hnhnmmssss tá certo! Ufa!) pra eu defender azidéia aqui

Constituição vem do verbo constituir. Se a gente puser reparo nesse verbo, vamos ver que ele é formado pelos seguintes ingredientes:

constitu i r
RAIZ VT Sufixo de infinitivo

( Onde VT = vogal temática. Coloquei aqui embaixo por questão de espaço)

(Aí você vai dizer: Ih, Madrasta! Você errou! R não é sufixo, não, é desinência, porque verbo só tem desinência e…  kirido, te digo só uma coisa: o dernier-cri da morfologia uspiana já chama desinência de sufixo, tám? Clicali no dernier-cri que você vai ver! Beijomeliga.)

A vogal temática, no caso dos verbos, nos dá a indicação da conjugação do dito. Portanto, temos que constituir é um raro verbo regular de terceira conjugação. A vogal temática se mantém em quase todas as conjugações (né, presente do subjuntivo? Um beijo, seu chato!).

Agora vamos fazer bruxaria. Vamos transformar verbo em substantivo. A poção é a seguinte: é só trocar o sufixo -r pelo sufixo formador de substantivos -ção e Voilà! (Hoje estou propensa a galicismos, me deixem.)

E se quisermos transformar o substantivo constituição  em adjetivo, a poção é um cadim mais elaborada, mas funciona:

1- adicione o sufixo -al

2- pra coisa dar liga direito, mexa na raiz e torne-a constitucion (nada muito drástico, na verdade ela ficou com ares espanhóis). Mas se você reparar, você juntou nessa raiz o sufixo formador de substantivo, e a partir dessa mistureba de morfemas você adicionou mais um sufixo. Então, seu lindo, sua raiz virou RADICAL. (e não estou falando de nenhum membro do PSOL, assossega o facho que issaqui não é post de política!).

Se você ainda não entendeu, enquanto a raiz da palavra é a base primária, o elemento irredutível com informação lexical básica, o radical é uma base secundária,  à qual são acrescentados outros morfemas ( ou seja, são formadas outras palavras).

Daí temos:

constitucion al
RADICAL sufixo

Então, vamos enfiar morfema até não poder mais nesse radical:

(aviso: S.F. = sufixo formador)

In

constitucion

al

issim

a

mente

Prefixo de negação RADICAL S.F. de adjetivo S.F. de superlativo Vogal de ligação S.F. de adv. de modo

E temos essa aberração daí de cima, tida como a maior palavra da língua portuguesa, que significa algo feito de forma exageradamente fora da Constituição. Isto posto,  devo fazer algumas considerações extras:

1- o lance de sair enfiando morfema numa raiz é conhecido como afixação, ou a arte de enfiar afixos. Como você pode perceber, afixo é um termo genérico que define os pedacinhos enfiados em tudo quanto é canto da palavra, mais especificamente:

prefixo (antes da raiz)

sufixo (depois da raiz)

E esses são os lindos dos afixos possíveis na Língua Portuguesa. Pensa que acabou? RÁ! Ainda temos:

infixo (no meio da raiz): /rkeN/ =  esticado; /rmkeN/ = esticar. Nessa língua, o infixo {-m-} é formador de infinitivo.

cinrcunfixo (cerca a raiz pelos dois lados): o exemplo a seguir é o circunfixo {u…es}( = muito), usado na língua falada na Geórgia:

u-lamaz-es = muito bonito

u-did-es = muito largo

Pensa que acabou a esquisitice de afixo? Pois eu te apresento o primo mais esquisitão da família, o

transfixo (é descontínuo, e atua numa raiz descontínua). Acompanhem essa conjugação verbal. Se não me engano, acho que isso aqui é hebraico:

/sagar/ = ele fechou

/esgor/ = eu fecharei

Se você não acompanhou a doideira, repare que a base desse verbo são três consoantes: /s.g.r/, que significam fechar, e suas conjugações são determinadas por transfixos vocálicos. (Sério que você ainda acha crase difícil?)

 

Outra coisa: às vezes é preciso forçar a liga entre a raiz e o afixo. Quem faz esse trabalhinho de forma suave e agradável são as vogais ou consoantes de ligação. Vamos acompanhar:

– como ligar a raiz café  ao sufixo adjetivador –al?  Chama o zê que ele ajuda! cafezal

– como ligar o adjetivo feliz ao sufixo substantivador –idade? Conversa com a raiz, joga fora o z e troca por um c, que é pra manter o fonema surdo (s é som surdo, ou seja, produzido sem vibração das cordas vocais. Fala um s aí, depois fala um z. viu? o z é sonoro! Mas isso já é aula de fonologia, que não vem ao caso aqui!) (mas do que que eu tava falando mesmo? Ah, sim!) e temos felicidade.

Enfim, é tudo uma questão de eufonia, uma moça que atua com o selo de elegância Sandra Annenberg, de forma a deixar todos felizes, contentes e bem falados.

Aí chegamos ao trem chamado alomorfe. E antes que você diga que esse é o 0800 dos morfemas (“Alô, morfe?”) e eu te dê um pescotapa, pense no seguinte: repare que tem morfema que muda de jeitão dependendo do ambiente. Pense no sufixo formador de plural. Ah, é o -s, madrasta! dirá você. E eu vou te mostrar que, se temos

joelho-s

também temos

mar-es e azu-is

Ih! Mudou! Concluirá você, de forma brilhante. E eu te direi que isso é um caso de alomorfe, ou variação de um mesmo morfema.

lhama39Mais uma vez dona eufonia bate ponto aqui, e diz quando e como um morfema vai ter que mudar de roupa pra entrar na palavra. Pense agora no prefixo i-, de negação, que faz i-legal ou in-feliz.

Temos até alomorfia de raiz! Quer ver só? Vamos pegar aqueles verbos safada e desesperadoramente irregulares. Que tal o saber? Qual é a raiz dele? (licença que eu tô rindo aqui).

Você certamente pensou na formulinha raiz + vogal temática + sufixo de inifitivo, pensou em sab+e+r e concluiu que a raiz é sab, né? (licença, mas eu continuo rindo).

Então vamos conjugar no presente do indicativo:

eu sei

tu sab-es

ele sab-e

nós sab-emos

vós sab-eis

eles sab-em

E agora você está pensando que diabos aconteceu com a primeira pessoa do singular. HUAHUAHUAHUAHUAHUA. Vamos continuar a brincadeira? Pretérito perfeito:

eu soub-e

tu soub-este

ele soub-e

nós soub-emos

vós soub-estes

eles soub-eram

E antes que eu me divirta mais e te jogue um presente do subjuntivo (que eu saib-a…) nazidéia, deixa eu parar por aqui e te dizer que verbos irregulares apresentam raízes alomorfas, ou seja, elas mudam com o sabor da conjugação.

Tudo isso pra mostrar pra vocês que essa lhama linguista daí de cima só fez um trocadilho com a expressão there can be only one (só pode haver um), frase clássica do filme Highlander, citada na música-tema do filme, It’s a kind of magic, do Queen. Por que essa frase é clássica eu não posso contar, senão eu te entrego o enredo e o fim do filme.

Pois vamos combinar que, em se tratando de alomorfes, é mais adequado dizer there must be a lot of them! ou tem que haver um montão deles! 😀

Mazó, baixou saudade dessa música do Queen. Fiquem com o clipe da música. Beijo. De nada.

 



5 comentários sobre “Como montar uma palavra ou It’s a kind of magic! (Poção de morfologia nº4)”

  1. Luiz Prata comentou:

    Algumas impressões sobre o post:
    – A arte de “desmontar” e “dissecar” as palavras é fascinante;
    – Exercitei a diferença entre sons surdos e sonoros no aquecimento vocal das aulas de teatro;
    – Os exemplos do infixo são em qual língua?
    – Precisei vencer a tentação de confundir circunfixo com circunflexo;
    – Outras palavras vencem “inconstitucionalissimamente”: oftalmotorrinolaringologista, por uma letra. Anticonstitucionalissimamente (é parente, só muda o prefixo!), por duas. http://pt.wikipedia.org/wiki/Maiores_palavras_da_l%C3%ADngua_portuguesa;
    – O solo de baixo no meio de “A kind of magic” é irresistível.

  2. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Luiz,
    1- concordo!
    2- corre pra ver o post novo, “FonFon!”. Fiz em sua homenagem.
    3- Num sei. Vou perguntar pra tia! 😀
    4- Seja bem-vindo à fila. Já pegou a senha?
    5- Verdade verdadeira. Mas o inconstitucionalíssimamente serviu como cobaia pra eu explicar a história de afixação, né? 😉
    6- Tô cantando essa música desde que terminei esse post! Tem como não amar Freddie Mercury e Brian May? ♥

    Abração! ___o___

  3. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Ah, sim! O exemplo de infixo é de uma língua praticada 😀 no Laos.

  4. Roberta Ribeiro comentou:

    Muito bem! Adorei! Beijos 🙂

  5. Roberta Ribeiro comentou:

    Também adorei as postagens 1 e 2. Estou registrando aqui porque não consigo postar nas poções 1 e 2. Mas não há problema, já li. Beijos 🙂

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