Objetivando Disponibilizar





Palavra: que trem é esse? (#poção de morfologia Nº 1)

Salve!

palavralhama

Antes de mais nada, eu devo algumas explicações aos encostos de longa data: como vocês já devem saber, estou cursando Letras na UnB. Na cadeira de Morfologia, a professora Roberta Ribeiro (pupila do lindo do Dioney Moreira Gomes, de quem não me canso de falar aqui) propôs como um dos itens de avaliação que cada aluno criasse um Ambiente Virtual Multiletrado, ou AVM. Explicação vai, explicação vem e eu concluí: “Mas bah, que eu tri-faço isso desde 2009!” Então, vou fazer aqui no meu blog-caldeirão os posts sob temas determinados pela professora Roberta, que serão identificados no título como “Poções de Morfologia”. Afinal de contas, isto aqui é um caldeirão, né? Isso tudo pra lhe pedir humildemente que comente, questione e principalmente elogie bastante os textos das poções de morfologia, para que eu não lhe jure hemorroidas 😛 #numpresto #valhonada

Enfim. Vamos abrir os trabalhos falando das palavras.

E aí, como definir esse trem? RÁ!

Meu personagem preferido dos memes de Internet, a Lhama Linguista, aí do lado, já nos apresenta o drama que vai ser (“Tente definir a palavra “palavra” – o cérebro explode).

Valter Kehdi (nota mental: já que vou lincar mondilivro por aqui, ver como fazer pra ganhar uns troquinhos do Submarino ou de outra livraria) aceitou esse rojão (até porque ele não poderia fugir da raia, posto que é Doutor em Letras pela USP).  E olha que ele viu que o trem não ia ser fácil.

No livro acima lincado, doutor Kehdi cita a nomenclatura Gramatical Brasileira para definir

a palavra, considerada, do ponto de vista fonético, constituída de fonemas e sílabas e provida ou não de tonicidade, recebe a designação de vocábulo; palavra é a denominação mais adequada se enfocarmos o ponto de vista semântico. (página 10)

pra depois dizer que essa distinção não faz a menor diferença pra linha de raciocínio dele. A seguir, ele usa alguns critérios para caracterizar a palavra, e mostra, por A mais B, que o trem né fácil, não. Mas ele nos fornece os ingredientes pra nossa primeira poção de morfologia: como preparar  uma palavra. Vamos acompanhar.

– Critério fonético: Ah, a palavra é um conjunto marcado por um só acento tônico. Certo? Er… sim, até porque nesse critério encaixam-se perfeitamente os exemplos xícara, mármore, esôfago (não me perguntem de onde surgiu essa palavra). Mas o que fazer quando, por exemplo, a expressão com as amigas chega na porta da boate e diz que atende aos critérios do convite para a festa? (Agora imagine a expressão acima parada na porta da buátchy berrando com o leão-de-chácara: somos um conjunto marcado por um só acento tônico, e vamos entrar na buátchy! Sai da frente, recalcado! Pronto, de nada! :D) E ao fugir da confusão na porta da buátchy (cuja grafia correta não é essa, e por isso foi marcada em vermelho), vamos ver outro caso em que o critério fonético faz MUITA (eu disse MUITA ) diferença na interpretação de um texto:

Mas adulterados ou adúlteros, voltemos a doutor Valter, que nos oferece outro critério para caracterizar as palavras:

– Critério Semântico (palavra e homonímia): Esse critério é tão lindo, mas tão lindo, que para derrubá-lo Kehdi se vale de uma mesóclise 😀 : (“Os casos de homonímia revelar-se-ão problemáticos”). Se você ainda não entendeu o entrave desse critério, pegue como exemplo a palavra manga. Agora decida se você está falando de uma fruta ou de uma parte de um item de vestuário. Beijinhos. 😀

Só para ilustrar esse critério mais um cadim, como diriam os mineiros,  me lembrei de uma crônica deliciosa de Luis Fernando (O Verissimo, filho de seu Érico), em que ele conta o que um software de tradução automática fez com a letra do Hino Nacional Brasileiro (e se você clicar no link fornecido ainda ganha de brinde a tradução dessa crônica feita por um – adivinha – software de tradução automática! De saída, Jorge Furtado virou The Stolen George. Delícia! 😀 )

Insolência (Crônica publicada no Jornal do Brasil em 1997, e encontrada aqui)

O Jorge Furtado comprou um programa de traduções para o seu computador e fez uma experiência. Digitou toda a letra do nosso Hino Nacional em português e pediu para o computador traduzi-la sucessivamente em inglês, francês, alemão, holandês etc. Do português para o inglês, do inglês para o francês e assim por diante até ser traduzida da última língua de volta para o português. Segundo o Jorge, a única palavra que fez todo o circuito e voltou intacta foi “fúlgidos”. Em inglês, “salve, salve” ficou “hurray, really hurray” e parece que em alemão o texto ficou irreconhecível como hino mas, em compensação, reformula todo o conceito kantiano de transcendentalismo enquanto categoria imanente do ser em si.
Vou sugerir ao Jorge que faça outro teste e peça para o computador traduzir um texto em que conste a expressão “barato estranho”, só para dar boas risadas. Confesso que o meu barato é ver computador ridicularizado. Um pequeno gesto de resistência, à beira da obsolescência. Não posso mais viver sem o computador, mas a antipatia cresce com o convívio. Agora comprei um programa de texto à prova de erro ortográfico. O computador não me deixa errar, por mais que eu tente. Subverte o que eu tenho de mais pessoal e enternecedor e sublinha a palavra errada em vermelho insolente. A palavra “agora”, aí em cima, apareceu na tela sublinhada. Ele está provavelmente sugerindo que talvez eu queira escrever “ágora”, praça das antigas cidades gregas. Não, “ágora” também saiu sublinhada. Sua mensagem é que eu tenho uma escolha entre as duas palavras, sua insinuação é que eu não sei a diferença. E quando não existe opção e o que eu escrevi está irremediavelmente errado – ele corrige sozinho! Eu tento repetir o erro, só para mostrar que alguns dos nossos ainda não se intimidaram, e ele não deixa.
Sei que não demora o programa que corrigirá sintaxe, pontuação e concordância e ainda fará comentários irônicos sobre o estilo. Que venha. Tradução eles não sabem fazer. Rá!

Mas voltemos a Kehdi. ele não desiste, e propõe um terceiro critério. Esse é o menos problemático de todos:

– Critério léxico: Bernard Pottier define lexia como a unidade lexical memorizada.

(Ih, Madrasta, entendi bulhufas!, dirá você. Aí eu lhe digo: pega aquele negóço que você abre pra se proteger da chuva. Agora pensa no nome desse troço. Guarda-chuva, né? Então, temos uma unidade lexical. Guarda-chuva está registrado nos seus neurônios como  a unidade lexical que você usa pra definir esse troço que você sempre esquece dentro do ônibus quando não está mais chovendo. Porque as unidades lexicais podem ser simples (pense naquele negócio que você usa pra tomar chá, a xícara) ou compostas, como é o caso do guarda-chuva).

Mas voltando à nossa unidade lexical. O seu Pottier amigo do doutor Valter explica que qualquer outro vagão que você tente enfiar nesse trem não vai mexer muito na composição final. você pode dizer guarda-chuva novo, ou novo guarda-chuva, que a compreensão vai se manter. E se alguém tentar dizer guarda-novo-chuva você vai entender que o zifio em questão tá falando um troço meio errado….

E mais uma vez a mesóclise entra em campo pra mostrar o calcanhar de aquiles desse critério de definição.

Peguemos, pois, o vocábulo obedecerei. Ao acrescentarmos um pronome oblíquo dentro desse vocábulo (obedecer-TE-ei), vemos a separação de seus elementos constitutivos. Mas seu Pottier dá conta dessa crise rapidinho e separa alhos de bugalhos: obedecerei não é uma lexia, embora seja reconhecido como palavra.

Algo me diz que muito em breve vamos voltar às conjugações verbais aqui nas poções de morfologia pra continuar definindo esstrem de palavra. (Desnecessário dizer que as mesóclises serão as vedétchys das poções de morfologia, né?)

Aí eu fui catar web afora um link pra ilustrar melhor esse post, e encontrei essa coisamalrindadomundo que é essa letra do Teatro Mágico. Não sei se é a TPM, mas eu tô aqui chorando.

 

 

Palavra
Tenho que escolher a mais bonita
Para poder dizer coisas do coração
Da letra e de quem lê
Toda palavra escrita, rabiscada
No joelho, guardanapo, chão
Ponto, pula linha, travessão

E a palavra vem
Pequena
Querendo se esconder no silêncio
Querendo se fazer de oração
Baixinha como a altura da intenção na insegurança
Vírgula, parênteses, exclamação
Ponto, pula linha, travessão

E a palavra vem
Vem sozinha
Que a minha frase invento pra te convencer
Vem sozinha
Se o texto é curto, aumento pra te convencer
Palavra
Simples como qualquer palavra
Que eu já não precise falar
Simples como qualquer palavra
Que de algum modo eu pude mostrar
Simples como qualquer palavra
Como qualquer palavra.



14 comentários sobre “Palavra: que trem é esse? (#poção de morfologia Nº 1)”

  1. Aline comentou:

    Descubro que a Madrasta começou a cursar Letras agora. Brain Explodes.

    te amo cara, te amo mucho

  2. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    \o/ Obrigada pela visita, zifia! Volte sempre! 😀

  3. Luiz Prata comentou:

    Sobre tradutores automáticos:
    Eles são uma praga em textos da Wikipédia. Eu mesmo, como editor “bissexto” já corrigi alguns. São facilmente identificáveis por características como:
    – trechos sem sentido;
    – erros de concordância (adj. masculino com subst. feminino e vice-versa, plural x singular, etc.);
    – ausência de preposições em alguns trechos;
    – estilo Yoda de ordem de palavras (“Termos da frase ininteligível ordem quase em colocados”)
    – tradução excessivamente literal, sem levar em conta o contexto (uma vez traduziram “shaped charges” como “moldado encargos”, quando o correto seria “cargas moldadas”– uma espécie de explosivo, coisa que se descobre numa rápida consulta ao Google).

    Ou seja, um resultado pavoroso. Claro que tradutores automáticos podem ser úteis, desde que se leve em conta suas limitações (quanto maior e mais complexo o texto, maior o risco de erros) e que se confira o resultado. E que não se dê ouvidos à Dona Preguiça, que sussurra “deixa assim mesmo!” nos ouvidos dos incautos.

  4. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Tradutores automáticos são úteis pra lhe dizer se o texto em húngaro, por exemplo, fala de borboletas geneticamente modificadas ou de abóboras depravadas usadas em filmes pornôs. Fora isso, não rola.
    Perdi meu respeito pelos softwares de tradução automática quando um deles me disse que “Special Agent Fox Mulder” significava “A Raposa especial do Agente Mulder”.
    Mas voltei a respeitar esses programinhas quando tive que trabalhar editando textos (mal) traduzidos do alemão. Já contei essa história aqui. E quando vejo um trecho mal traduzido, sempre me lembro do “o que queira que isto venha a significar”. E tenho ganas de chorar compulsivamente…

  5. Fernandfreitas comentou:

    Bruxa, e Órfão? Não é uma palavra? Tem dois acentos, né? Isso nao fura a teoria do sr. Kehdi?

  6. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Órfão não fura a teoria do Kehdi, porque:

    1- tem apenas uma sílaba tônica – a primeira;
    2- til não é acento, é sinal gráfico.

    Bjomeliga. (Mas antes põe lasanha pro nosso filho que ele tá com fome… 😀 )

  7. Jefferson Alves comentou:

    Madrasta, essa história de tradutor automático já dá até processo (e muita vergonha).
    Explico: Os “esmartefone” vem com um tradutor ligado, aí quando um cliente vai acessar sua fatura telefônica pelo bicho ele traduz o que não era pra traduzir, assim o que era “Ass Cliente” (abreviação de Assinatura Básica – Cliente) vira “Cliente Burro”.
    Nisso o dito cujo se sente extremamente ofendido, entra com processo pra se ressarcir dos graves danos à sua moral e o advogado tem de explicar que ele é burro sim, mas não pelo fato da empresa telefônica afirmar, mas sim em razão dele não saber desligar o tradutor.

    Abraços.

  8. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH, QUE HISTÓRIA MARAVILHOSAAAAAAAAA \o/

  9. David comentou:

    Pode usar o “significante”, de Saussure, como sinônimo de palavra? (E, peraí, estudante de letras pode comentar?)

  10. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Claro que pode, menino! Fique à vontade… mas isso eu não sei lhe responder agora, não… c espera sexta-feira, que eu pergunto pra tia? 😉

  11. Luiz Prata comentou:

    No caso do cliente do “causo” contado pelo Jefferson, dos males o menor: o “esmartefone” traduziu “ass” como “burro”, evitando uma tradução pior para a palavrinha…

  12. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    baita verdade, baita verdade! 😀

  13. Gabriel comentou:

    Ótimo texto, colega! Quanto mais visito seu blog, mais coisa eu aprendo. Não sou estudante de Letras nem nada, mas adoro seus textoxxx!! bjao

  14. Madrasta do Texto Ruim comentou:

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