Presidenta – pode mas, por mim, não deveria

Este post já deveria estar pronto, engatilhado pra entrar no ar no domingo, mas quem disse que deu tempo de pesquisar e escrever?

O correto é presidente ou presidenta? E, mais importante que isso, por que eu implico tanto com a palavra presidenta?

Enfim, lamúrias de falta de tempo à parte, toda vez que me pinta uma dúvida crucial dessas deixo pro Manual de Redação do Estado de SPaulo (a melhor coisa já produzida naquele prédio do clã dos Mesquita) resolver tais dilemas existenciais, e só questiono se o argumento deles for muito risível (por exemplo, o jornal dos Mesquita recomenda que a principal cidade dos Estados Unidos seja grafada como Nova York, com Y e k, porque Nova Iorque é uma cidade maranhense. Oi? Se é pra escrever York com ípsilon e cá , usem também o New que vem de brinde e orna com York, como fazem os franceses: Je suis à New York. Vamos combinar que York precedida de Nova é de uma jequice sem par, né? Mas vejam a minha capacidade de dispersão: pra falar do feminino de presidente, fui parar em Nova Iorque!)

Ao voltar de Nova Iorque, com meu Manual do Estadão em mãos, lá fui eu verificar. É presidente ou presidenta? O Manual foi lacônico:

Presidente. Use presidente para homem e mulher: o presidente da República, a presidente da Câmara dos Vereadores.

Mas por que a presidente, se qualquer dicionário da língua portuguesa aceita a grafia presidenta – ainda que alguns a definam como a mulher do presidente, e não aquela que preside?

Fui ter a respeito com a Giovanna Valenza, que entende do assunto de forma razoável, por assim dizer: professora de latim para o direito, bacharel  e mestre em linguística pela Universidade Federal do Paraná (nas horas vagas, mãe do Ulisses, o bebê Odisseu :D, doceira de mão cheia e exímia jogadora de guitar hero, mas deixa isso prá lá. Isso não latte 😉 )

Mas eu estava de prosa com a Giovanna, que revelou um detalhe básico: por sua morfologia, palavras terminadas em -ente podem simplesmente ser entendidas como:

o ente que [faz a ação do prefixo em questão].

em outras palavras (com trocadilho):

agente = o ente que age

ouvinte = o ente que ouve

palestrante = o ente que palestra

e, finalmente (que não vem a ser o ente que termina, fazfavor…)

presidente = o ente que preside.

Mas o que seria o ente, dona Bruxa?

de acordo com tio Antônio:

ente
substantivo masculino
1 o que existe, o que é; ser, coisa, objeto
1.1 o ser humano; pessoa, indivíduo
Ex.: e. querido
2 Derivação: por extensão de sentido.
tudo o que se crê existir
3 Rubrica: capoeira. Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
certo passo de capoeira
4 Rubrica: filosofia.
cada um dos múltiplos seres existentes e concretos da realidade circundante (os seres humanos, os seres vivos, os objetos do pensamento e da natureza etc.) que não se confundem com o ser em si, o Ser ou a realidade absoluta

Ou seja: o ser que preside, não importa seu sexo, é presidentE.

Presidenta é corruptela (o quê, dona bruxa?)

Corruptela

substantivo feminino

(…) 3 pronúncia ou escrita de palavra, expressão etc. distanciada de uma linguagem com maior prestígio social

Pra concluir, a opinião de um site português que (surpresa!) concorda comigo:
Quanto ao termo “presidente” (…) Deverá dizer-se “a presidente”. As palavras terminadas em -ente são comuns de dois. Nem estou a ver nenhuma excepção: a presidente, a consulente, a agente, a cliente, a parente, a regente, a servente, a suplente, a tenente, a combatente, a concorrente, a confidente, a delinquente, a descendente, a indigente, a paciente, a recorrente, a requerente, a adolescente, a sobrevivente, etc. Tal característica decorre do facto de estas palavras serem na generalidade provenientes do particípio presente dos verbos latinos, com o significado primitivo de “aquele ou aquela” que preside, que consulta a respeito de, que age, etc. A terminação da palavra tem que ver com a duração da acção, e não com quem a pratica (masculino ou feminino), que vem identificado apenas no artigo.
Mas boa mesmo é a conclusão no parágrafo anterior:
A língua é dinâmica, e a fortuna de um vocábulo advém do uso que lhe derem os falantes, sobretudo os falantes cultos da língua
Tudo isso pra concluir que minhas divagações de nada prestam, oras!
Se os dicionários aceitam presidenta, zifio, sijoga, faz o que você quiser.
Mas aqui neste caldeirão a Dilma será sempre presidente.
(Como é bom falar de coisas improdutivas que não envolvam o Vaticano, não?)


11 comentários sobre “Presidenta – pode mas, por mim, não deveria”

  1. Caipira Zé do Mér comentou:

    Mas e o machismo, ficou onde?

  2. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    quem falou em machismo? Eu só fui atrás da etimologia das palavras! Aqui num tem hômi nem muié, zifio! Tem é bom português! 😀 \o/

  3. Allan Moraes comentou:

    Bom, eu acho o Manual do Estadão superior em muitos aspectos aos outros manuais de redação (inclusive ao da Folha, com o qual, infelizmente, tenho de trabalhar), mas eu tenho meu próprio vade-mécum: o “ABC da Língua Culta”, do Celso Luft (que fui comprar depois de ler o ótimo artigo sobre ele no site do Cláudio Moreno – este que, por sua vez, descobri aqui ^^).

    Nele está: “Presidente. Subst. que se pode tomar como comum de dois gêneros (o presidentE, a presidentE), mas também admite feminização flexional: a presidentA”
    Porém… “Como ‘mulher ou esposa do presidente’: a presidentA” (forma pouco usada).

    Enfim, basicamente o mesmo que vemos por aí – eu só questiono o uso enquanto ideologia (será que Dilma usa “a presidenta” para inverter valores?), e não vejo problema com “a presidentE” (meus ouvidos são mais acostumados a esta forma) nem ” a presidentA” (basta me acostumar).

    Aliás, isso realmente não se trata de machismo e bla, bla, bla – a língua não modifica a moral, mas sim a moral (os valores que se tem) é que modificam a língua.

  4. Allan Moraes comentou:

    Ah, e antes que venham empestar o nosso chiqueiro com argumentos intelectualoides analisando a linguagem “clássicista machista” com a qual ensinamos nossas criancinhas a serem machistas, leiam este artigo:

    http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/09/21/sexismo-na-linguagem/?topo=

  5. Fabiane comentou:

    Olhaí, mais um texto dizendo que o certo é presidentE: http://www.ocidentalismo.org/2010/11/elas-nao-leram-karl-brugman.html

  6. SLeo comentou:

    Podi usá meus textu á vontade, fêssora. Espero que a escolha da madrasta não tenha se dado pela má qualidade dele…

  7. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Ô, zifio! Deuslipague!
    Mas é claro que não é pela má qualidade, não! É pelo conteúdo (não me inteirei sobre o assunto, e ao sabê-lo pela metade chutei que fosse exatamente o que o MEC defende), mesmo!
    No mais, quem escreve OK, o texto do MEC mereceria surra com vara de marmelo de tia Nastácia; “olhares com que se olham” e “laços que enlaçam” são de amargar. não produz textos de má qualidade, não, senhor! Nota-se observações de um típico ectoplasma suíno (/espírito de porco) a exorcizar textos de amebas escreventes! Seja bem-vindo, e muito obrigada pelo empréstimo! 😀 \o/

  8. Tweets that mention » Presidenta – pode mas, por mim, não deveria -- Topsy.com comentou:

    […] This post was mentioned on Twitter by Paulo Back, imaculada con marins, Madrasta Texto Ruim, Ana Taranto, Madrasta Texto Ruim and others. Madrasta Texto Ruim said: @crisdias http://www.objetivandodisponibilizar.com.br/?p=2615 tanto faz, zifio! Pode ser presidente ou presidenta… […]

  9.        » PresidentA. É lei! Do Juscelino! comentou:

    […] devem se lembrar aqui que eu reconheci que as duas formas (presidentE e presidentA) estão corretas para se referir à […]

  10. Rodolfo comentou:

    Há um grande equívoco na interpretação da lei, do tempo do Juscelino, que determina a variação de gênero para os títulos de cargos públicos, pois esta de forma alguma autoriza o uso de “Presidenta”.
    Atentem para esse trecho da tal lei: “…devem portanto, acompanhá-lo neste particular, se forem genericamente variáveis.”.
    A lei é bem clara e vale para palavras genericamente variáveis, como por exemplo, Diretor, Secretário e Ministro, que se tornam Diretora, Secretária e Ministra respectivamente.
    Mas outras como Gerente, Representante, Dirigente, Presidente não são genericamente variáveis e portanto mantém a forma original.
    Então, vão se educar esses PeTralhas e que deixem de impor a ignorância como sendo uma virtude!

  11. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Então o douto antipetralha acredita que palavras como “gerente”, “dirigente” e “presidente” não são variáveis? Por que você afirma isso? “Porque eu nunca vi”, dirá o sujeito, do alto de sua inteligência.
    O que dizer, então, de “governante” e “governanta”? ARRÁ!
    Mas calma, que meu argumento não para por aí. Vou te dar de presente uma análise diacrônica, embora você não mereça.
    Ocorre que palavras terminadas com sufixo -nte são originadas do que era, no Latim, o particípio presente. Ou, mal comparando, um instantâneo de alguém pego no ato de praticar alguma coisa.
    Então, que foi pego no ato de estudAr é estudA-nte.
    Outrossim, o particípio é o único tempo verbal que varia em gênero. Na conclusão do ato de se cansar, João está cansadO, e Maria está cansadA. Portanto, quem foi pegO no ato de estudar é estudantE, e quem foi pegA no ato de estudar pode, muito bem, ser estudantA. A morfologia permite, embora você não aceite isso mas foda-se a sua aprovação, quem é você na fila do pão francês?
    E te dou mais um dado:
    Se quem pratica o ato de estudAr é estudAnte, e quem pratica o ato de crer é crEnte, então quem pratica o ato de presidir deveria ser presidInte, não?

    ARRÁ DE NOVO! Eu sei se a resposta é sim ou não. Mas cansei de dar aula de graça pra um sujeito imbecil como você. Apaporra!

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