Objetivando Disponibilizar





Processos morfológicos – ou O kuku do munduruku (poção de morfologia nº6)

E chegamos (eu, Elaine Farias e você, querido lheitor) à derradeira e mais gargalhante poção de morfologia.

Estamos cá, eu e Elaine, tomando nossos bons drink de Ginger Ale (poção de morfologia nº3), e gargalhando só de lembrar da aula em que tivemos essa revelação da língua Munduruku. Mas calma que a cerejinha desse bolo só recebe quem chegar ao final do texto! (RÁ!)

munduruku

Relaxar é kuku! \o/

 

Tudo começou na aula de processos morfológicos. Já comecei a falar desstrem aqui, quando falei dos afixos. Os afixos são um processo morfológico de adição.  Vamos relembrar a receitinha da poção de morfologia nº4:

“o lance de sair enfiando morfema numa raiz é conhecido como afixação, ou a arte de enfiar afixos. Como você pode perceber, afixo é um termo genérico que define os pedacinhos enfiados em tudo quanto é canto da palavra, mais especificamente:

– prefixo (antes da raiz)

– sufixo (depois da raiz)

E esses são os lindos dos afixos possíveis na Língua Portuguesa. Pensa que acabou? RÁ! Ainda temos:

– infixo (no meio da raiz): /rkeN/ =  esticado; /rmkeN/ = esticar. Nessa língua, o infixo {-m-} é formador de infinitivo.

– cinrcunfixo (cerca a raiz pelos dois lados): o exemplo a seguir é o circunfixo {u…es}( = muito), usado na língua falada na Geórgia:

u-lamaz-es = muito bonito

u-did-es = muito largo

Pensa que acabou a esquisitice de afixo? Pois eu te apresento o primo mais esquisitão da família, o

– transfixo (é descontínuo, e atua numa raiz descontínua). Acompanhem essa conjugação verbal. Se não me engano, acho que isso aqui é hebraico:

/sagar/ = ele fechou

/esgor/ = eu fecharei

Se você não acompanhou a doideira, repare que a base desse verbo são três consoantes: /s.g.r/, que significam fechar, e suas conjugações são determinadas por transfixos vocálicos. (Sério que você ainda acha crase difícil?)”

Depois da adição, temos a reduplicação (que vamos deixar por último de propósito).

Outro processo morfológico é a alternância. E esse trem tem nas conjugações verbais do português. Trata-se da alteração de segmentos da raiz da palavra de forma a alternar informações na raiz. Se você ainda não ligou o nome à pessoa, te dou uns exemplos:

fui/foi     pude/pôde     pus/pôs     fiz/fez      tive/teve

etcetcetcetc.

O inglês também usa muito a alternância. Além de conjugações verbais, a língua de seu William (Shakespeare) também se vale da alternância pra indicar plural:

singular/plural: goose/geese     tooth/teeth     man/men     woman/women

conjugações verbais: see/saw     run/ran     eat/ate     speak/spoke

O penúltimo processo morfológico que vamos destacar é a subtração.

Não vamos nos demorar muito com isso, não. Basta dar o exemplo do português, no qual alguns femininos são formados por subtração de morfemas do masculino, como em orfão/orfã; anão/anã; campeão/campeã.

lhama26Pronto? Podemos falar da Reduplicação e da nossa gargalhada na aula de morfologia?

Pois então. Há línguas que usam esse processo para avisar alguma coisa. O reduplicado pode estar antes, no meio ou depois da raiz. E pode-se repetir toda a raiz ou parte dela. O mais comum é subentender a informação que em português é passada com a palavra muito.

Por exemplo: no pidgin falado na Nova Guiné, lapun significa ‘velho’ – e lapunpun ‘muito velho’.

Depois desse exemplo eu decreto que muito é a palavra mais broxante e sem graça da Língua Portuguesa. E provo!

Mas é importante destacar que a reduplicação transmite quatro tipos de informação:

– Intensidade (tá valendo o exemplo da Nova Guiné);

– Iteração: nda = ‘andar’;     nda.nda  = ‘perambular’   / fa(la) = ‘falar’ ;  fa.fal = ‘tagarelar’

– Distribuição: dosy = ‘dois’;     do.dosy = ‘ambos’   /   bodo = ‘borda’;     bodo.bodo = ‘costa’

(os dois últimos exemplos do crioulo de base portuguesa da ilha de Ano Bom)

E chegamos ao Munduruku. Eis que nossos índios lá do rio Tapajós, no Pará (ai, por favor, não canse minha beleza falando besteira sobre língua de índio, OK?) usam a reduplicação para expressar graus de intensidade de três tipos: duração, intensificação ou atenuação e pluralização.

Aí a professora, do nada, sem nos alertar nem nada, nos diz que em Munduruku a palavra Ku significa gostoso; e kuku é muito gostoso.

Pedimos perdão a Ferdinand de Saussure, Noam Chomsky, Marcos Bagno, Dioney Moreira Gomes e todos os linguistas do Brasil e do mundo, e caímos na gargalhada. Porque seriedade e critério científico têm limites. O nosso limite foi o kuku do munduruku.

Ai, desculpa, foi mals! (Aceitam um ginger ale?)



6 comentários sobre “Processos morfológicos – ou O kuku do munduruku (poção de morfologia nº6)”

  1. Luiz Prata comentou:

    Kuku do Munduruku deveria virar meme…

  2. Roberto Takata comentou:

    Em spam autorizado previamente pela dona do blogue, queria divulgar uma pesquisa que estou realizando:

    http://genereporter.blogspot.com.br/2013/06/pesquisa-gene-reporter-visao-do.html

    É sobre ciência, mas não é específico para quem curte ciências – na verdade a opinião de quem não gosta é muito importante também. Aborda ainda questões sobre sociedade (incluindo temos como religião) e tecnologia.

    []s,

    Roberto Takata

  3. Roberta Ribeiro comentou:

    Muito bom, divertido, leve (sem perder a consistência teórica). Parabéns!!! Só uma pergunta: qual língua vocês utilizaram para exemplificar a infixação?

  4. Roberta Ribeiro comentou:

    Outras questões para refletirmos:
    -O que acontece com o morfema zero em palavras como “ônibus” e “pires”?
    -Qual (is) a(s) função(ões) da reduplicação em português?

  5. dioney moreira gomes comentou:

    Querida Letícia,
    Que maravilha são as suas poções de morfologia… Obrigado por tornar a morfologia algo tão palatável!
    Grande abraço,
    Prof. Dioney

  6. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    ❤❤❤❤❤❤❤ ai, que bom que vc gostou, professor!!!! \o/

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