Objetivando Disponibilizar





Sabe de nada, inocente! – a análise sintático-semântica

cumpadiNuma época em que Olavo de Carvalho e Rodrigo Constantino são o que de melhor a direita produz, e Valesca Popozuda é citada como pensadora numa prova de filosofia – e taí Shoppenhauer pra confirmar o fato- nada melhor do que usar Compadre Washington para dar aula de gramática.

A frase Sabe de nada, inocente! já virou febre. Mas você sabe analisar sintaticamente essa frase? Qual o sujeito? E qual a função sintática da palavra inocente?

Tragam a pipoca, amebas, pois a bruxa vai explicar tudo!

Vamos lá:

o que a flexão verbal sabe nos diz a respeito dela?saber

Tio antônio, Houaiss, ajuda por favor?

 

Então, já dá pra ver aí do lado que sabe é a forma do verbo saber no presente do indicativo,
3ª pessoa do singular. Então, se você consegue identificar ou recuperar  quem praticou o verbo a partir da conjugação dele, você tem um caso típico de sujeito oculto.

Mas espere! Cabem dois sujeitos nessa interpretação! Ó só:

(Ele) sabe de nada, inocente!

ou

(Você) sabe de nada, inocente!

Afinal de contas, você também é conjugado na 3ª pessoa do singular, né?

E é esse o pulo do gato pra responder a função sintática de inocente. Vamos acompanhar:

Antes de mais nada, vamos falar de duas funções sintáticas acessórias (portanto, dispensáveis para a completa compreensão do enunciado do verbo) que a gente vê na chulapada, o aposto e o vocativo.

aposto serve pra explicar ou esclarecer algo a respeito de um dos citados na frase, por assim dizer. Exemplo:

A Madrasta do Texto Ruim, a @bruxaod do Twitter, está dando uma aula sobre aposto e vocativo.

A Madrasta do Texto Ruim, mãe do Thiago, vai dar banho no filho daqui a pouco.

O Thiago vai tomar banho com sua mãe, a madrasta do Texto Ruim.

 

Já o vocativo serve pra chamar ou citar nominalmente a pessoa a quem você se refere, e geralmente vem seguido de um imperativo. Exemplo? Ah, pensa na sua mãe:

José Henrique da Silva Costa, venha já aqui!

Thiago José, eu não mandei ir tomar banho?

E lembre-se de que o vocativo também vem antecedido da interjeição Ó, como vocês podem ver nessa historinha aqui triste pacas!

Agora que a gente já se lembrou do que é aposto e do que é vocativo, qual a função sintática de inocente?

Arrá!

Acompanhem meu raciocínio:

Se assumirmos que o sujeito oculto é você, então temos uma frase em que Cumpadre Washington dirige a palavra á sua pessoa. Então, inocente é vocativo. Acompanhe:

Inocente, você sabe de nada…

Por outro lado, se assumirmos que o sujeito oculto é ele, temos uma frase em que Compadre Washington comenta com uma pessoa a respeito de uma terceira pessoa.  Portanto, não tem a quem chamar/convocar. Então, inocente é a explicação a respeito dessa terceira pessoa de quem Compadre Washington fala. Ó só:

Ele sabe de nada, inocente….

Então, temos uma análise sintática que vai depender do contexto. Se tomarmos como único o contexto do comercial,

então, ele se dirige ao marido.

sujeito = oculto (você)

inocente = vocativo.

E obrigada a Cumpadre Washington por tirar meu blog do marasmo!

Se vocês quiserem tentar explicar o slogan a cada um minuto quatro coisas vendem fiquem à vontade. Eu tenho algumas teorias a respeito (reparem que, em se tratando de língua falada, a gramática passa A QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA, né?)



3 comentários sobre “Sabe de nada, inocente! – a análise sintático-semântica”

  1. Marlena comentou:

    Madrasta, estou confusa. Se assumirmos que o sujeito oculto é ele, não poderíamos considerar a função sintática de inocente como predicativo do sujeito? Estava pensando nessa construção: (Ele)Não sabe de nada, (ele é)inocente. Por favor, me ajude, Bruxa.

  2. Madrasta do Texto Ruim comentou:

    Marlena,

    A função sintática mais precisa nesse caso é aposto, mesmo. Mas, se você considerar que o aposto e o predicativo do sujeito compartilham de maneiras diferentes a tarefa de qualificar o sujeito, é possível entender como predicativo. Mas aí você vai ter que ver muito mais coisa na frase, como vc mesmo indica…. 😀

    Abração!

  3. Rícard Wagner Rizzi comentou:

    Prezada Senhora,

    Lamento dizer que apesar de correta sua análise a advirto quanto aos problemas legais e morais que poderá sofrer se continuar abusando da paciência de nossa sociedade. Vivemos em um país democrático e pluralista que não tolera nenhum tipo de discriminação e a senhora provavelmente acreditando estar livre de punição por se apoiar em uma norma decrepita e machista, que nossa douta presidentA muito tem lutado do alto de sua sapiência e poder para corrigir, utilizou na sua explicação os vocábulos você e ele!!! Cadê elA???

    Aproveitando, pode me chamar de saudosista, mas sempre achei bastante interessante o uso do apóstrofe para juntar palavras o que tornava o texto bem mais charmoso. Conclamo que se junte a mim no resgate dessa arte perdida. Que saudades do rio d’douro, da bica d’agua, da cad’ela, d’alma, e até do rijo pau d’alho.

    Obs: o trecho “que nossa … para corrigir” está entre vírgulas pois pode ser que seja um apóstolo ou talvez pode ser que seja um erro gramatical ou sintático, ou talvez pode ser que não seja nem um nem outro, sei lá.

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